Maria Quitéria de Jesus | Mulheres que você deveria conhecer #4

A primeira mulher a guerrear pela independência do Brasil foi reconhecida por sua bravura

  • Nossos atuais Mecenas:
  • Vivara130x50 jpg
  • Selo dorel jpg

O currículo das aulas de histórias comuns, daquelas que todo mundo que frequentou o colégio teve, sempre deixaram a desejar em muitos aspectos. Não aprendíamos coisas que nos dessem orgulho de nosso país, ou mesmo que nos fizessem lembrar de quem éramos e como chegamos aqui.

Já a literatura de rua e os cantos populares que descobri na Bahia me mostraram coisas fantásticas. Através do Cordel eu aprendi quem era Lampião, conheci o padre Cícero e por fim, eu conheci aquela que um dia emprestará seu nome à minha filha: Maria Quitéria.

Infância, Adolescência e Vida antes da Guerra

Conta-se que Maria Quitéria de Jesus nasceu na fazenda da Serra da Agulha, uma propriedade situada lá pela antiga freguesia de São José das Pororocas, mais conhecida atualmente como Feira de Santana, em um 27 de julho de mil setecentos e noventa e dois - mas a data é incerta nos registros históricos.

Órfã precoce de mãe, viu seu pai se casar duas vezes antes de atingir a idade adulta e teve problemas com sua última madrasta, que não aprovava seu comportamento “rebelde e independente”.

Sendo de uma família comum e simples, Maria Quitéria não frequentou a escola e ajudava nas tarefas domésticas. Também era uma excelente amazona, caçava e atirava bem.

Maria Quitéria foi uma das singulares mulheres a guerrear neste país, e o fez durante as batalhas da Guerra da independência do Brasil  – um longo caminho foi percorrido de 1822 até 1825, quando Portugal finalmente reconheceu a independência de sua ex-colônia.

Pouco foi escrito sobre ela antes da sua integração às Forças Armadas Imperiais, fato que aconteceu de maneira similar à história de Joana D’Arc (sem o caráter religioso) e que é contada nos documentos do Império Brasileiro e do estado da Bahia.

Integração, rebeldia e uns sidecuts maneiros antes da moda pegar

Não sei bem se naquela época o corte militar era algo parecido com o que é hoje, mas sei que, munida de muita coragem, rebeldia e um pouco de paixão pela batalha, Maria Quitéria, ajudada por sua irmã Tereza Maria e seu cunhado José de Medeiros, cortou suas madeixas, vestiu um uniforme e integrou-se no batalhão dos “Voluntários do Príncipe D. Pedro” para expulsar as tropas portuguesas – que ocupavam a Bahia na tentativa de impedir o processo de independência do país – e consolidar a liberação do território.

Sua história de homem disfarçado deu pano para a manga: Maria foi descoberta duas semanas depois pelo seu pai enquanto lutava no exército. Ele já sabia dos planos da filha pois ela já havia lhe pedido autorização para lutar e ele negara. Velho malandro que era, quando percebeu o sumiço da moçoila, correu aos fortes e encontrou a danada, pedindo a dispensa dela imediatamente.

Para a sorte do Soldado Medeiros (sim, ela usou o nome do cunhado), o major José Antônio da Silva não quis dispensar a garota, que, segundo ele, lutava como um bicho feroz e faria falta à esquálida tropa dos periquitos que ele comandava.

Mandando bala sem peso na consciência

Tretas resolvidas, saiote incorporado ao uniforme militar e respeito conquistado, Maria Quitéria partiu para defender o estado e assegurar a soberania do Império.

Depois de mostrar pra todo mundo que podia ser bem mais fodona que qualquer um ali, participou das batalhas da Ilha de Maré, do bairro da Pituba, da Barra do Paraguaçu e de Itapuã.

Conta-se que ela jamais recuava diante dos inimigos e que mesmo com fogo de canhão comendo solto, incentivava seus colegas de batalhão a progredirem, sempre com um sorriso no rosto e uma coragem ímpar, que a fizeram conquistar o respeito e a admiração dos colegas de batalha durante sua participação na guerra.

Depois de todos os rolos e batalhas, ela ganhou uma estátua e hoje é prestigiada pelas baianas

A primeira, mas não a única

Depois da integração oficial de Maria Quitéria, os responsáveis pelo comando das forças da província viram que não era mau negócio integrar as mulheres ao esforço de guerra, e logo todas aquelas que tinham vontade de defender a ideia do império e a libertação da colônia pegaram as armas que haviam e começaram a escrever a história.

Lutaram por cada pedaço da região do Rio Paraguaçu na batalha, com a água na altura do peito. Segundo os relatos do general Labatut, que dizia em uma das cartas ao ministro Bonifácio que “nenhum filho de proprietário rico tinha se apresentado como voluntário”, a batalha com as mulheres havia sido incrível. Isso torna a independência da Bahia icônica por si só e cheia de glórias que precisam ser lembradas por todo brasileiro.

Um Imperador, uma condecoração e o abandono.

Os louros da guerra vieram para ela, como vieram para todos aqueles que sobreviveram e tiveram alguma menção nos documentos oficiais por sua bravura.

Quitéria ganhou o direito de portar espada, foi promovida a cadete em meados de 1823 e foi a primeira mulher a receber a Ordem Imperial Cruzeiro do Sul. Foi coroada pelo próprio imperador, que a condecorou com a medalha e o título de cavaleiro (isso mesmo, gênero masculino) do recém-fundado Império com os dizeres:

"Querendo conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo que assinala os Serviços Militares que com denodo raro, entre as mais do seu sexo, prestara à Causa da Independência deste Império, na porfiosa restauração da Capital da Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro".

Passada a guerra e já reformada como oficial da reserva, voltou para a Bahia ganhando um soldo vitalício na condição de Alferes e levou uma carta escrita de próprio punho pelo imperador, que pedia que o pai a perdoasse pela desobediência, pois sua conduta no campo de batalha fora exemplar e ela ajudou a construir uma nação.

Já na terra natal, casou-se com um antigo lavrador da sua cidade, com quem teve uma filha e viveu pacificamente até que, depois de sobreviver à guerra e ficar viúva, mudou-se para Feira de Santana, para tentar conseguir algo do espólio de seu pai, coisa que não deu muito certo e a fez mudar para Salvador.

Faleceu em 21 de agosto de 1853, quase cega e desconhecida por quase todos a sua volta. Mas seus feitos ainda lhe renderam o direito de ser sepultada em uma igreja, a Matriz do Santíssimo Sacramento em Salvador.

Já nos 1920, um decreto ministerial transformou nossa brava Quitéria em Patronesse (o feminino de Patrono) do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro e sua imagem – um retrato póstumo feito por Domenico Failutti – passou a integrar a decoração de todas as repartições militares das forças armadas terrestres.

Para ler mais sobre Maria Quitéria:

Página Oficial do Exército Brasileiro sobre Maria Quitéria

Instituto Maria Quitéria

Um pouco sobre a independência da Bahia


publicado em 04 de Maio de 2016, 14:00
Pdh

Fernando Serra

Baiano, apaixonado por Raul Seixas, cachimbos com fumo de corda e filmes de drama. Cursa Análise e Desenvolvimento de Sistemas na FATEC e vagueia entre a loucura e a realidade, pagando micos e desconstruindo os próprios conceitos sobre o mundo a cada gole de conhaque.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Nossos atuais Mecenas: