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Marney Max: lutando para competir | Homens possíveis #6

Deficiência, falta de patrocínio e preconceito. Lutador profissional conta como tem superado os obstáculos do dia a dia para continuar lutando.

“Avisa pro SAMU, prepara o maqueiro, chegou o Marney Max o pior dos pesadelos”

Marney Max é um lutador de MMA, Muay Thai e Jiu-Jitsu de Fortaleza que ganhou o apelido de "o pior dos pesadelos" por fazer com que os adversários saim do ring desmaiados. Ah! E tem mais uma coisa que diferencia Marney Max: ele não tem um braço.

Marney, que hoje tem 31 anos, nasceu com uma deficiência: a falta do antebraço. Foi através da luta encontrou não só uma paixão, como um motivo para viver. 

“Antes de treinar eu não tinha nenhum sonho não…. Na verdade, minha vontade era morrer. Eu não sabia porque eu estava vivendo. Eu vivia um pesadelo. Depois que eu comecei a praticar as artes marciais, meu maior sonho é mostrar para as pessoas que eu consigo e que se eu consigo eles também podem. Esse era meu maior objetivo é esse.”

Na infância e adolescência Marney sofreu por não ter um dos braços. Sua maior dificuldade não era a deficiência em si, mas os comentários e como as outras crianças o tratavam.

Eu tive dificuldade para entrar na sociedade. Meus colegas (que não eram colegas, né?) As outras crianças me ‘arendavam’ (que na época não chamava bullying). Eu tinha vergonha de participar de brincadeiras, de sair, de conversar. Cheguei até a ficar depressivo, queria morrer.”

Diante das dificuldades e dos sofrimentos, Marney conta que sempre teve o apoio da mãe que o motivou a nunca abaixar a cabeça para ninguém, mas que não tinha com quem se abrir. “Eu nunca tive ninguém para desabafar, nem mesmo os meus irmãos. Ficava sempre para mim mesmo”. 

Marney tinha um amigo que treinava Kung Fu e ele gostava de ver os movimentos que o amigo sabia fazer e, então aos 14 anos, Marney começou a ir aos treinos com o amigo.

“Foi quando eu comecei a treinar o kung fu que começaram a me tratar como uma  pessoa normal, sabe? Eu me sentia mais à vontade e cai na vontade de lutar. Inclusive o Júlio Coca foi a primeira pessoa a acreditar no meu potencial, ele pagou para eu competir em Fortaleza em 2007”

Durante um tempo Marney Max trabalhou em lojas, como auxiliar de produção e tentava lutar nas horas vagas. Mas em determinado momento que escolher: “ou trabalha ou luta”.

No emprego fixo em que trabalhava ele não conseguia se dedicar tanto aos treinos e nem estar presente nas competições. “Primeira vez que eu me classifiquei pro mundial e não pude por causa do trabalho.” E foi a partir daí que ele decidiu que queria viver e trabalhar com luta.

Hoje, além de atleta, Marney trabalha como professor de Muay Thai em uma das principais academias de Fortaleza. Ele é casado há 9 anos e tem três filhos: Angelo Max, Max Vinícius e Max Stephan.

Marney não compete em categorias Paraolímpicas, ele luta de igual para igual com adversários que tem os dois braços. Marney foi Tricampeão Brasileiro de Muay Thai 2010, 2011, 2012 e Bicampeão Mundial da mesma categoria, além dos prêmios que ganhou lutando na categoria de Jiu-jitsu e MMA.

Acontece que Marney não tem patrocínio nem apoio do estado. Para arcar com os custos das competições ele inventa soluções: já vendeu jujuba nos faróis de fortaleza, fez rifa, e hoje tem uma vaquinha online. “É na cara e na coragem”.

Marney dando entrevista à rede Globo sobre arrecadar dinheiro no farol para conseguir participar das competições

Hoje Marney está classificado para o mundial de Muay Thai na Tailândia, mas precisa arrecadar R$6.317,00 reais para arcar com as despesas aéreas e de hospedagem. Fica aqui o link da arrecadação online do atleta.

A luta transformou a sua vida, mas as dificuldades não ficaram para trás: Marney conta que em muitos campeonatos ele enfrenta o preconceito dos adversários.

“Ele dizem que não querem lutar com um deficiente. Eles não querem bater em um deficiente e também não querem perder para um deficiente.” Marney diz que não se sente na desvantagem por não ter um braço, “ao contrário, me sinto mais forte. Quero  lutar como qualquer um, no meio de todo mundo, até para mostrar o meu potencial.”

Para Marney, lutar fora de categorias para deficientes é uma mensagem que ele quer passar a quem tem deficiência: se ele pode, eles também podem. Um dos atletas que o inspiram é Nick Newell, lutador profissional de MMA que tem uma deficiência parecida a de Marney.

Marney também conta que a luta lhe ensinou muito sobre o homem que queria ser: “A luta me ensinou a ter mais responsabilidade como homem. Quando a gente começou a ter uma família, eu quis ser o exemplo para dentro de casa”

“Ser pai também mudou muitas coisas”. Marney não cresceu com o pai presente. Quem o criou foi a mãe que trabalhava em dois empregos e nunca deixou faltar nenhum apoio nem material nem emocional aos filhos.

Marney conta que antes de ser pai “eu era muito estravazado, saia direto, e hoje não. Meu tempo livre é ficar com meus filhos brincando com eles." Um dos filhos, o Max Stephan já mostra interesse pela luta.

Sobre o futuro dos filhos Marney diz que espera estar sempre presente para eles, e que eles saibam ter carácter e responsabilidades. Sobre seu futuro, Marney quer ir para o Mundial da Tailândia e seguir ganhando competições.

Para apoiar Marney Max na arrecadação de fundos para o mundial da Tailândia, clique aqui!


publicado em 07 de Fevereiro de 2020, 10:36
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