"Mas ela sai com todo mundo!": que bom pra ela, né | Do Amor #76

De um dia bom na vida de quem tá se dando pro mundo, do jeito que o mundo vier

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A primeira pipocada fez seu corpo despertar, mas manteve os olhos fechados, forçando-se a dormir mais uns minutos. Mas a segunda notificação atiçou a curiosidade. Duas mensagens na tela do celular. Pôs-se de barriga para cima, ainda na cama, e abriu a tela para ler o “vamos dançar hoje?”. Era a senha. Estavam há meses se vendo, após um encontro provindo de um aplicativo de paquera. Conversa boa, beijo na frente de casa. Antes de dormir, deletou os aplicativos de encontros para ver no que dava. Na semana seguinte, ele a encontrou nas redes sociais e pediu permissão para segui-la. Transaram na mesma noite, na casa dele, sem falar muito, guardando energias para as movimentações pelo quarto.

Suaram.

Disputaram a madrugada toda uma concorrência de fluidos e fôlego. Não dormiram. Ela chegou em casa às sete para um banho e rumou para o trabalho. E sumiram por um tempo. Semanas. Ela não foi atrás, ele não veio puxar assunto. As trocas via mensagem voltaram com amenidades, brincadeiras de Internet, pequenos memes para atrair a atenção um do outro, marcar uma espécie de território, ou melhor, fincar pequenas bandeirinhas de aviso: “eu ainda tô por aqui, tá?”. E se encontravam esporadicamente, a cada quinzena ou uma vez por mês, sempre carona até a casa dele e sexo. E criaram a senha. Para além dos papinhos, “vamos dançar” era o “eu quero te comer” que dificilmente era respondido com um “não posso”.

Já a outra mensagem era de um cara chato que teimou em aparecer na vida dela. Pediu para uma amiga apresentar os dois quando ainda passeava nas praias da Bahia e ficou logo em cima, feito mosca de padaria, zanzando em volta, fazendo barulho, o incômodo. Já havia dito que tinha sido só uma noite, mas a danada da paixão fazia o rapaz gotejar feito pia enguiçada, insistindo em papos e pedidos de novos encontros. Doido pra casar. Enquanto ela queria milhas e rodagem, ele oferecia garagem. O equívoco. Ela ponderava as duas mensagens enquanto se contorcia na cama em longas espreguiçadas. Estava organizando seu dia na cabeça. Duas pequenas intimações. E ela só queria o “ok” do massagista para a próxima sessão de tântrica. Queria voltar mais uma vez para aquele estado de relaxamento longínquo após uma sessão de delícia que beirava o desespero. Tomou banho relembrando alguns pormenores dos toques, dos movimentos. Na saída do chuveiro, parou uns segundos para se olhar no espelho, conferir as tatuagens em formato de coração espalhadas pelo corpo, costas e pescoço, braços e no colo. Tudo em ordem. Estava se gostando um pouquinho mais e achou que merecia. Pegou o celular, ainda sem se vestir e mandou a contra senha: “terça-feira é sempre um bom dia. Vamos dançar sim”.

No trabalho, deixou umas planilhas de lado para matutar se o massagista poderia estar demorando mais que o normal para dar data da próxima sessão porque havia descoberto que ela às vezes ia ver secretamente ele tocar com sua banda em um bar. Ela só se esconde para não misturar as cenas daqueles momentos íntimos da massagem com o constrangimento natural do “se conhecer de novo”. Preferia manter intocado do mundo exterior aquele pequeno universo dos dois. Daí cogitava se ele poderia ter visto o ciscar dela pela plateia, mas tinha pequenos momentos de certeza que não fora descoberta ou, melhor, encontrada. Nisso o celular pisca novamente. Mais perguntas do cara chato. “Porra, mas que mala”, bufou em voz inaudível, como se desabafasse com o smartphone. Apertou os dedos contra a tela e marcou, pra antes do almoço, um encontro na esquina do trabalho. “Tá com uma cara de preocupada. Tá tudo bem por aí?”. A voz era do colega do trabalho e chegou como brisa boa pra dar uma amolecida na musculatura dos ombros. Eles se pegavam de vez em quando na hora do intervalo, algo mais pra sair um pouco do eixo do trabalho do que outra coisa. “Quer almoçar comigo? Dar uma volta?”. Inicialmente ela negou o convite, tava com a cabeça determinada a resolver sua situação com o chato perguntador. Mas, montando na cabeça previsões, resolveu deixar marcado um café nos últimos vinte minutos, num espaço que ia quase ninguém umas duas quadras dali. Duas tacadas em uma só.

Se encontrou com o pulha e disse que estava saindo com alguém (verdade), que estava pensando em ter algo mais sério com ele (mentira), que tinha um ex-namorado, lá das épocas da Bahia, que estava voltando e queria conversar (verdade) e ela estava mexida com isso (mentira), que ela estava com a cabeça em outras coisas (como na massagem, verdade), que o ex estava se mudando (mentira). Pediu espaço e educadamente comunicou-lhe que não mais o atenderia, que trataria de bloquear ainda hoje sua linha, inclusive no telefone fixo que ainda tinha em casa para urgências familiares. Saiu com o peito fechado e foi se abrir com o amigo do trabalho. Se engalfinharam por vinte minutos no corredor escuro que dava para os banheiros do café quase abandonado e botou a respiração no lugar outra vez. “Melhor que isso, só dançar mais tarde”, comentou enquanto passava as mãos na camisa para desamassar e passava de novo o batom na boca. Ele não entendeu nada e ela foi embora sorrindo.

Se encontrou com o colega “dançarino” depois de comer algo na rua e foram para a casa dele. Transaram uma foda carinhosa, toques e cheiros, uma coisa chegada. Ela não ficou para ver o dia nascer. Chamou o carro de viagens que a deixou em casa a tempo de outro banho para dormir algumas horas. Estava cansada, mas com uma justificável sensação de dever cumprido. Havia aproveitado mais um dia. Na volta para o quarto, novamente se deparou com a própria figura nua no espelho. Cheia de corações tatuados. Amor para dar e vender. Puxou bastante ar e deixou sair de pouquinho, como se tivesse o suficiente para o mundo todinho. Na cama, o celular apitou mais uma vez. “Ok, segunda-feira”. Era o massagista marcando sua próxima sessão. “Dorme bem”, ele mandou.

Ela obedeceu.

Esta é uma história real! Quer que eu escreva a sua?

O conto de hoje foi baseado em uma conversa real. Foi feita uma entrevista, encontramos a história ideal e eu a escrevi!

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“Quem precisa de ficção quando se tem a realidade?”. A gente brinca, no jornalismo, que as invenções da literatura nunca alcançarão a loucura que é a vida real. A gente cria, fantasia e dissimula, mas a realidade, as histórias de fato vividas, dão de dez a zero.

E é isso que eu quero fazer. Puxar as coisas que aconteceram na sua vida para transformá-las em história. Eu vou te dar uma versão única e exclusiva de algum fato importante e gostoso da sua vida, a visão de escritor que você quer dar a um pedacinho da sua vida.

Cartas de Amor é um projeto que sai do coração. Do olhar, ver e reparar. A gente vai se colocar nesta posição mais atenta para falar de forma genuína, para ouvir mais disponível. Vamos encontrar a faísca e fazer disso, fogo.

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publicado em 02 de Março de 2018, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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