A masculinidade é uma história? | Caixa-preta #5

Os homens andam carentes de espaços que os ajudem a levar vidas melhores e questionar o que nunca questionaram. Como podemos dar mais apoio a eles?

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Me identifico com cada segundo desse relato do Gustavo. Queria eu ter assistido esse vídeo dez anos atrás, nos meus vinte e dois.

Decerto teria evitado uma baciada de babaquices que fiz comigo mesmo, com amigos e com as parceiras com que me relacionei, pela minha necessidade em provar ser homem. E pior, racionalizava e arranjava mil justificativas pra persistir no auto-engano de que muitos de meus comportamentos não tinham nada a ver com minhas noções de masculinidade.

Já me recusei a deixar a parceira dirigir o carro. Fui bruto com inúmeros colegas de trabalho, sem necessidade alguma, pois achava que líder de verdade tinha que bater forte. Quebrei portas, garrafas, telefone e os objetos mais inusitados em acessos de raiva. Qualquer comportamento imbecil e estereotipado de um homem machista que não se achava machista, é bem capaz que eu tenha tido.

Entretanto, aos trinta e dois, não penso que haja resposta definitiva para a pergunta que dá título a esse texto. Acredito haver uma tendência em naturalizarmos comportamentos que são mais influenciados por nossa cultura do que imaginamos. Como afirmou podemos ler no excelente Histórias dos homens no Brasil, “não se nasce homem, torna-se um”.

Não creio, de modo algum, que isso descarta a influência da biologia na construção de nossa identidade. Mas quanto mais estudo e vivo a busca por entender como os homens se constróem e como podem levar vidas mais satisfatórias, mais observo a profunda influência do ambiente em quem somos.

Conheci o Gustavo faz dois anos, no início de nosso trabalho de pesquisa com a ONU, que desembocou no documentário que fizemos com eles e a maioria de vocês já assistiu no YouTube (se ainda não viu, tá em tempo). Teria sido impossível prever o quanto esse projeto tocaria nossas vidas. E o episódio de hoje da Caixa Preta retrata parte desse impacto.

É difícil um dado mexer mais conosco do que vivermos algo na pele. Quando você viaja pelo Brasil e vê o quanto homens e mulheres sofrem pelo modo como vivemos nossos papéis — fomos em três estados e escutamos mais de 20.000 pessoas online —, algumas crenças se rompem.

Talvez você resolva ir ao médico fazer um check-up, pra não se juntar aos 81% de homens que gostariam de cuidar melhor da própria saúde. Ou quem sabe note como se expressava com agressividade exagerada e decida mudar isso, como 45.5% dos homens também sentem vontade de fazer. Pode ser que você seja pai ou apenas queira conversar com sua parceira, ou parceiro, sobre ficar mais tempo em casa e dividir com o peso em ser provedor do lar (54% deles gostariam de ter mais tempo pra hobbies e prazeres da vida) — ou até mesmo entrem em acordo sobre trocar quem carrega essa responsabilidade. Tudo isso falando apenas de fatores que impactam a vida dos homens diretamente. Há vários outros.

Nem sequer toquei em como questionar certos padrões pode beneficiar a vida das mulheres, que sofrem com assédio constante (52% delas já passou por isso no ambiente de trabalho), medo de andarem na rua sozinhas em certos locais e horários, descrédito profissional ligado a vieses inconscientes, baixíssima representatividade na política e na liderança dos negócios.

Dentro, tudo que é usualmente esperado 
Fora, o que seria supostamente mal visto, à partir de uma perspectiva mais limitada e sufocante de masculinidade

Nos perguntar se certas masculinidades são histórias que nos contaram pode ser libertador.

É ok ser chucro, assim como é ok ser sensível. E não há problema algum em oscilar e ter diferentes comportamentos de acordo com o contexto no qual estamos inseridos e nosso momento de vida.

O que não é ok é andar por aí com medo de não ser homem suficiente, nos provando a todo instante — medo que o Gustavo admite em seu relato e com o qual também me conecto.

Um desafio: compartilhe esse vídeo no grupo de homens do whatsapp

Vamos nos abrir pra conversar com quem pensa diferente de nós?

Aposto no caminho do acolhimento e das boas conversas. Ninguém obriga ninguém a se transformar, no máximo podemos oferecer espaços, práticas, diálogo e sugestões. E os homens brasileiros estão carentes desse apoio.

Nossa pesquisa mostrou que 66.5% deles não abrem seus maiores medos e dúvidas nem com os melhores amigos.

Por isso a sugestão de hoje é compartilhar esse vídeo no grupo de whatsapp dos amigos do futebol, do churrasco, da faculdade, dos pais, o que for. Compartilhe no grupo de homens do seu whatsapp (sim, eu sei que tem um). Em seguida pergunte se alguém se identifica o do vídeo ou se acham tudo isso uma besteira. Escute as respostas com abertura, sem tanto julgamento — se tiver dificuldade, leia esse pequeno guia que preparamos.

Questione também, mesmo que a maioria do grupo não goste do vídeo, se alguém por lá gostaria de mudar algum aspecto da relação que possuem hoje com saúde, sexualidade, trabalho, paternidade, ou ainda, com as mulheres.

Aposto uma cerveja que vai render bons papos. Aguardo os relatos de vocês nos comentários.

* * *

Caixa-preta é uma série de relatos em primeira pessoa, na qual homens quebram o silêncio e discutem momentos importantes de suas vidas ou do masculino. Sai toda quinta, aqui no portal e em nosso canal no YouTube.  


publicado em 06 de Abril de 2017, 18:10
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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