Medo do grotesco: sobre dente do siso, sangue e morte

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Em 1999, meu dentista já dizia: "Você precisa arrancar os sisos”. Dez anos se passaram e, numa revisão, com os 4 sisos devidamente nascidos, ele conseguiu:

"Você não tem cárie, a não ser no seu único siso mais problemático."

Foi o único que nasceu torto. Perguntei qual seria a solução.

"Remoção. Não adianta obturar porque ele vai ser sempre complicado de limpar e a cárie pode voltar."

Três semanas se passaram e, na última, a ansiedade tomava conta do meu corpo. Eu não parava de comer. Na Internet, lia histórias de quem foi remover o siso e quebrou a mandíbula. Ou sentou na cadeira do dentista para a cirurgia e ficou tetraplégico.

Não achava nada que tranquilizasse. E só a ideia de uma interferência na boca já me arrepiava a espinha. Só conseguia me imaginar afogado em sangue na cadeira do dentista, sem conseguir respirar, enquanto ele puxava com toda a força meu dente problemático que resistiria em sair.

Sangue e pele

Sangue: dá pra viver disso.

Pavor a sangue eu sempre tive. Sangue, pedaços de corpos, bisturis, pele... Tudo que sempre fez parte do dia a dia dos meus pais, médicos.

Lembro-me de uns vídeos em VHS de cesarianas e lipoaspirações que meu pai trazia para casa. Eu assistia com uma curiosidade mórbida, mas não conseguia pregar os olhos na tela por mais de 5 minutos.

Não era nauseante. Era impressionante aos meus olhos mesmo, principalmente a ação do bisturi, que dissecava com facilidade uma camada de pele, que soltava, para depois chegar à camada mais espessa e já cheia de terminações nervosas que só não desesperavam o paciente de dor porque ele estava anestesiado – tarefa do meu pai.

Acidentes de carro

O tempo se passou, fui crescendo e o único contato que tinha com sangue e com o grotesco era por revistas.

A televisão nos poupava de imagens violentas, mas lembro de matérias da revista Manchete sobre acidentes de carro. Imaginava que um dia fosse ver algo do tipo nas viagens de Petrópolis à Região dos Lagos fluminense. O máximo que consegui foi ver uns corpos cobertos por lençóis brancos manchados de sangue, o suficiente para me atordoar.

Mas não a ponto de, por inércia, no primeiro ano do segundo grau, eu deixar de me inscrever na turma específica de ciências biomédicas. Num colégio em que só se falava de vestibular, você era obrigado, sem nenhuma orientação pedagógica, a escolher sua profissão para o resto da vida aos 15 anos de idade. “Vou ser médico”, pensei em 1993. Células, genética, química, tudo passava a ser estudado mais a fundo para as provas específicas de vestibular.

Em dezembro do mesmo ano, meu avô, que morava em frente à loja de discos que eu mais gostava de frequentar no Rio, perguntou:

– Quer o que de Natal?
– O Bleach, do Nirvama, e o Brujeria. Tem na loja em frente ao seu prédio.

Dia 25 estavam lá em casa os CDs que eu havia pedido. Era Natal e o clima de farra e união reinava sobre a família. No som do meu quarto, eu escutava pela primeira vez a fundo o CD de uma banda formada por mexicanos e americanos que tocavam um death grotesco e brincavam com satanismo e morte.

Brujeria, um pouco mais do grotesco

Link YouTube

As quase 20 faixas do primeiro CD do Brujeria discorriam detalhadamente sobre sacrifícios humanos com remoção de seios, remoção de pele para oferenda a bruxos, sexo com cadáveres embebidos em urina, sexo com prostitutas que seriam sacrificadas e sequestro de gringos para sacrifícios a satanás de forma violenta. Os detalhes das letras, em espanhol, eram escabrosos e criativos. Mas o que mais criava o clima para espanto eram a capa e o encarte do CD.

No andar debaixo da casa, o Natal corria solto. Peru, bebida, fios de ovos e bacalhau. No andar de cima, ao lado da minha cama, estava o CD que, por alguns dias, me atordoou. A capa eu rapidamente cobri com um plástico preto. Estampava a foto verídica da cabeça de um homem suspensa pelos cabelos com metade do rosto queimada e pele escorrendo pescoço abaixo. O encarte tinha um cheiro forte de tinta e era muito bem impresso com imagens, creio eu, do mesmo homem serrado ao meio.

Parecia ter sido um assassinato em uma linha de trem, pois o sangue nem escorria direito ao lado. Ele estava meio cozinhado. Lembro de uma foto dele de costas, com a bunda aparente e metade do tronco destruída complementada ainda pela imagem da parte inferior sem as pernas. Foi o suficiente para, em alguns dias, eu vender o CD.

Faces da Morte

Foi também no início da década de 90 que uma série em VHS chamada Faces da Morte excitava adolescentes de todo o Brasil. Uns amigos chegaram com aquilo em casa e eu lembro de ter visto alguns filmes quase que por inteiro. O fascínio que a morte empregava nos meus amigos me atordoava de uma forma que, inconscientemente, me alertava: “Sangue, cadáver, dor e óbito são coisas que não podem fazer parte do seu dia a dia”.

Dito e feito. No ano seguinte eu abandonava a turma de biomédicas e assumia vergonhosamente para meus amigos metaleiros o fato de ter vendido meu CD do Brujeria.

Lembra?

10 anos depois, na cadeira do dentista...

"Vou brocar um lado do seu siso porque eu não estou conseguindo liberá-lo do osso. Ele ainda está colando no dente da frente..."

Uma gota de suor frio escorria da minha testa. Meu coração quase que pulava do peito.

"Cuidado para não quebrar a sua mão", disse ele quando me viu apertando meus próprios dedos com medo de a agulha da anestesia espetar desagradavelmente uma terminação nervosa.

– Pronto, consegui. Você vai ver o tamanho do dente e do túnel que a cárie estava fazendo.
– Não, não quero.
– Então vamos para os pontos. Oops, a linha arrebentou, peraí... Esse lado dói um pouco porque eu não anestesio a bochecha para o paciente não correr o risco de mordê-la. Pronto, semana que vem tiramos os pontos.

Foi uma sexta-feira com sabor de sangue. Até o travesseiro ficou um pouco manchado quando babei de noite. Mas no sábado eu já não tinha mais a forma facial do Fofão. Só um pedaço de linha dos pontos que se soltou faz cócegas na minha garganta enquanto escrevo esse texto.


publicado em 02 de Setembro de 2010, 04:00
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Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. Formado em jornalismo e administração, trabalha há mais de 10 anos em mídia eletrônica segmentada. É autor do livro "Como Escrever na Rede - Manual de Conteúdo e Redação para Internet" e do blog "O Mundo em 2 Dias".


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