Os melhores discos de 2015 | Eu ouvi pra você #19

O que não faltou foram bons lançamentos neste ano que se vai

Cá estamos. Mais um ano chegando ao fim.

E, quando isso acontece, começamos a olhar para o mundo com olhos de nostalgia e espanto. Lembramos de tudo o que se passou, sonhamos com o futuro.

2015 foi e ainda está sendo um ano intenso, cheio de reviravoltas. E nenhum dia amanhece sem que o anterior não tenha roubado o fôlego e a sensação de segurança. Especialmente os últimos dias têm se mostrado ainda mais difíceis.

Mas a vida segue.

Na música, o ano foi recheado de coisa boa. Tanto na esfera nacional quanto mundial, há inúmeros lançamentos dignos de nota. Nunca se ouviu música tanto quanto agora. E, arriscando um palpite grandioso, nunca houve tamanha qualidade e consistência.

Artistas fodas em produções belíssimas. Dá pra suspirar de amor, respirar aliviado e esperançoso e até se revoltar com o status quo, tudo apenas ouvindo as canções de 2015.

Sabendo disso, saí interrogando os amigos sobre qual o disco lançado em 2015 que tocou os ouvidos de cada um.

O resultado é a lista abaixo.

Coming Home, de Leon Bridges (Luciano Andolini)

Esse foi um ano difícil, tenso. Ainda carrego comigo um certo ranço de abrir o navegador e começar a me deparar com as notícias. Não está fácil de acompanhar o que vem acontecendo no mundo.

Mas o Leon Bridges me fez ter esperança. Em tempos tão complicados, a música dele traz uma leveza digna de nota.

É por isso que recomendo esse como meu disco favorito de 2015, para que vocês também possam se sentir esperançosos e felizes.

To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar (por Jader Pires)

Eu poderia escarafunchar pra vocês um discão que ouvi pra cacete este ano, mas nenhum iria superar o To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, o melhor disco de 2015 e o que eu mais ouvi. Saiu em março e ficou nos meus aplicativos de música o tempo todo. Não dá pra se deletar um disco desse. 

E não caia na armadilha de não querer ouvir esse disco porque é de rap. Antes de mais nada, o momento conturbado com as questões raciais e de violência nos Estados Unidos estão aqui, empacotados numa história incrível e bem cuidada em 16 faixas. Só coisa fina. Jazz, funk, balanço, rock'n roll, hip-hop. Tá tudo aqui dentro. Declamações poderosas, refrão que virou hino de protestos, "we gon be alright", potente, político, social, dançante, pancada nos ouvidos.

Necessário. 

Vem comigo que faz sol, amigo. E o To Pimp a Butterfly é luz pura.

"I Don't Like Shit, I Don't Go Outside", de Earl Sweatshirt (por Rafael Nardini)

Não se engane pelo tecladinho estilão ginásio de NBA de "Huey". O segundo álbum de estúdio do prodígio do rap da Costa Oeste - Earl tem 21 anos - pesa uma tonelada. A Los Angeles retratada aqui não tem praia e morre de medo de sair de casa.

A claustrofobia está na capa e diluída pelos 29 minutos. Surgem nas rimas o medo de decepcionar a mãe, a saudade do pai que o abandonou (o poeta e ativista sul-africano Keorapetse Kgositsile) e a puta responsa que é carregar o selo de astro do hip hop desde moleque. "Faucet", "Grief" e "AM/Radio" são outros pontos altos.

Se doer, insista. O beat é pesado, a rima é lenta, mas o disco é gigantaço.

Sound & Color, de Alabama Shakes (Rodrigo Cambiaghi)

Você é o tipo de pessoa que passa mais tempo ouvindo bandas antigas do que atuais?

Lá dentro no seu coração tem uma vozinha que insiste em dizer que as bandas de hoje não fazem mais música como antigamente?

Então dá uma chance pro Alabama Shakes, principalmente para o Sound & Color.

Eles tem toda a roupagem e o balanço do Soul e R&B clássico com um tempero contemporâneo nas guitarras. Sem contar a voz da Brittany Howard que é um show a parte.

Pega sua bebida favorita, desliga o celular, aperta o play na melhor caixa de som que tiver na sua casa, equaliza os graves pro balanço da música te conduzir e aproveita a viagem.

Beleza de Baile, do Trio Dona Zefa (Eduardo Amuri)

Tempos que um trio da nova geração não soltava algo que me cativasse tanto, um monte de releituras lindas.

Destaque para "Pra tirar côco", clássico do Messias Holanda, "Bandinha do macaco", baião que ficou famoso na voz do Genival Lacerda, e "Lá vai forró", da Anastácia.

Pra dançar o disco todo, sem pular nenhuma.

Peace is the mission, de Major Lazer (Alberto Brandão)

Major Lazer é bem diferente de tudo o que sempre ouvi. Não é um rap arrastado com letras fortes, não é um metal com guitarras e técnica instrumental, não é intelectual ou aumenta minha auto-imagem de pessoa estudiosa. Major Lazer é da zoeira.

Conheci os caras no álbum anterior e, desde então, só vi as produções melhorarem e alcançarem um público cada vez maior.

Peace is the Mission parece ser o auge do trabalho dos caras, uma galera que era desconhecida até pouco tempo e agora toca em todos os cantos. Pode parecer a música clichê do momento, mas ouvir este álbum me deixa alegre e disposto.

Carrie & Lowell, de Sufjan Stevens (André Felipe Medeiros)

2015 foi um ano de muito volume, seja no quesito som ou no acúmulo de acontecimentos. Sufjan optou por cantar baixinho e se concentrar "só" no falecimento da sua mãe para criar a obra que falou mais alto nesses últimos meses, de maneira extremamente sensível e plenamente agradável.

A mulher do fim do mundo, de Elza Soares (Ismael dos Anjos)

Esse disco foi uma produção foda que realçou uma das vozes femininas mais importantes da história do Brasil. As letras respeitam a história e a integridade da Elza, uma mulher que, apesar de não falar abertamente da idade, fez questão de aproveitar muito bem cada ano que viveu.

Sour Soul, de BADBADNOTGOOD & Ghostface Killah (Leonardo Soares)

Novo álbum do trio de future jazz canadense BADBADNOTGOOD, em parceria do destacado rapper Ghostface Killah e outros pesos pesados do rap norte-americano como DOOM e Danny Brown.

Com arranjos belíssimos e carregados de uma atmosfera soul, que lembra os antigos filmes de Blaxploitation americanos, e acompanhadas das letras ácidas e de forte crítica social, Sour Soul é certamente uma dos mais belos álbuns do gênero lançados esse ano.

Duo de DJ's "Selvagem" (Guilherme Valadares)

Nota do editor: sim, não é um disco, mas foi a recomendação do Guilherme. Resolvi deixar.

Minha descoberta musical de 2015 foi o duo brasileiro "Selvagem" – encarando por Millos Kaiser e Trepanado. Mistura de eletrônico com sons do Brasil e outras coisas que não sei bem identificar e com muito groove.

Recomendo começar pelo excelente set que eles tocaram no Paribar, no aniversário de São Paulo.

"Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa...", do Emicida (Breno França)

Confesso que não foi amor à primeira vista. Na verdade, conheci primeiro algumas faixas que estouraram como "Passarinhos" e "Boa Esperança", mas depois fui ver o álbum completo e aí percebi um Emicida que se aproximou da fórmula que o D2 já consagrou e que eu, particularmente, gosto. As músicas misturam samba, pop, reggae, tiraram o caráter pesado que o rap geralmente carrega sem negar a origem de abordar questões fundamentais como o preconceito.

Para finalizar, além de parcerias que vão desde sua mãe, Dona Jacira, passando por Vanessa da Mata até chegar em Caetano Veloso, o ponto alto do disco, na minha opinião, é a enxurrada de referências fodas que as músicas contemplam. Ouça "Casa", ouça "Amoras", ouça "Mãe". É uma brisa muito boa, cara.

Bônus: Playlist Sucessos Brasil no Spotify 

Como falei ali em cima, interroguei todos os amigos. E a Marcela, nossa estagiária de conteúdo, me respondeu assim:

Ouçam os álbuns que recomendamos. Não sejam a Marcela. ;)


publicado em 03 de Dezembro de 2015, 17:53
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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