Memórias reais do SUS. Tudo que você nunca escutou. - Parte I

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Caros, não é meu intento meter o malho em nosso sistema público de saúde, embora seja difícil não fazê-lo. 

Tenho algo a registrar antes de iniciar o relato das experiências aqui descritas  - que transformaram um sujeito antes idealista e sonhador em relação à profissão, no frio e pragmático cara que sou hoje.

Ao contrário do raciocínio geral de “concurso público dá estabilidade, bla bla bla”, muito me orgulha ter pedido exoneração de dois concursos para ser médico ortopedista de hospitais públicos de emergência no Rio de Janeiro, um pelo Estado, e outro pelo Município.

Ressalto também que esta é uma visão da minha prática, na minha especialidade. Não tenho como falar de outras áreas médicas, a não ser de coisas que vi por estar presente. Muitas áreas no SUS funcionam bem, sem problemas.

A minha não é uma delas.

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ambulancia
Aperte os cintos.

A filosofia, o projeto, e as motivações que criaram o SUS são dignas de aplausos. Acesso integral de todo e qualquer cidadão, ou mesmo não-cidadão (qualquer estrangeiro é atendido no SUS, sem problemas), à saúde.

Basta chegar a um hospital que você será atendido. No papel é lindo. Reitero também algo fundamental para o funcionamento de tudo: o material humano. Tive sorte de ter profissionais de enfermagem, auxiliares, maqueiros, gesseiros, auxiliares administrativos, enfim, gente do mais alto gabarito, que tornava nossa vida menos difícil naquela guerra.

Mas saúde requer DINHEIRO, e muito. Pela saúde de sua família, você não economiza, certo? Mas não é isso que acontece no SUS. Ministros brigam por recursos, a maldita da CPMF que era para resolver o problema da saúde era realocada para o Bolsa Família e outras coisas, só para exemplificar.

E definitivamente, saúde não dá voto. Não mesmo.

O que a politicagem requer é o mínimo para uma assistência básica, e administrar o déficit. Certa vez uma raposa felpuda da política carioca, conhecida do meu pai, resumiu assim o que é a saúde:

“Um poço sem fundo. Quanto mais dinheiro você joga, mais dinheiro você perde”.

Some-se isso à política de “administrar recursos”, e quem paga a conta é a população. Mas quem sofre a ira desta diretamente são os profissionais que estão lá no front. Quando um administrador realoca recursos visando a economia, isto se reflete no atendimento.

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Some as figuras acima. O resultado chega no sistema público de saúde.

Corte recursos de manutenção, aí o aparelho de raio-x quebra por falta desta. Você precisa do exame e não tem. Você explica isso para o paciente. Quem vai ser xingado, o administrador? Nada disso, nessa hora do plantão, o cara está lá na casinha dele. No calor da emoção, é você mesmo.

Na minha área de atuação, há um agravante, a necessidade de material cirúrgico. Placas, parafusos, hastes intramedulares, fixadores externos, fios metálicos, furadeiras, enfim, uma espécie de marcenaria para ossos. Esses materiais precisam ser repostos, precisam estar à disposição. Nós dependemos destes materiais para fazer nossas cirurgias de acordo com os protocolos corretos de tratamento. Dependemos também de um centro cirúrgico adequado, com anestesista à disposição.

Estes materiais não são baratos. O custo de uma internação ortopédica pode ser elevado, há a necessidade de antibióticos, por vezes caros, períodos prolongados de recuperação, etc. Uma das políticas “administrativas” adotadas pelo SUS (Especialmente no âmbito do ESTADO do Rio de Janeiro, e em menor grau, do MUNICÍPIO), é não acompanhar a evolução dos materiais ortopédicos, pois os mais modernos são mais caros.

Neste século 21, as placas, parafusos e implantes utilizados sofreram transformações e inovações técnicas que tornaram os implantes mais antigos um tanto quanto obsoletos, embora ainda funcionem.

Faço duas perguntas ao leitor:

1 – Que tipo de implante você gostaria que fosse utilizado num parente seu? Um moderno, mais eficaz... ou um antigo?

2 – Um doce para quem adivinhar quais implantes você encontra nos hospitais públicos (daqui do RJ, pelo menos). Isso se encontrar, claro. Muitas vezes nem tem.

Outro fenômeno relacionado é a sobrecarga de atendimento. Não há como prover atendimento bom num volume tão grande. Vivo numa cidade violenta. Muitos acidentes de trânsito e moto. Tiros de fuzil estraçalhando membros. Ortopedistas daqui tiram o Iraque de letra.

Mas os prefeitos das cidades vizinhas também dão uma força. Quando eu trabalhava no Getúlio Vargas, hospital localizado no bairro da Penha, onde fica o Complexo do Alemão, uma das favelas mais violentas daqui, a gente cansava de atender pacientes advindos de cidades vizinhas. Sempre com a mesma história:

“O hospital de lá não tinha centro cirúrgico, não tinha ortopedista de plantão, não tinha gesso, não tinha raio-x, não tinha isso nem aquilo”.

Genial, não? Tira a grana da saúde e deixa a bomba para o grande centro vizinho. Como administrador, eu não faria melhor.

doutor
Não é surpresa quando os doutores se tornam... "brutos".

Descendo um pouco na hierarquia, passamos aos diretores de hospital e chefes de plantão, colegas de profissão. Mas cuja função é apagar pequenos incêndios diariamente.

Na minha época de Lourenço Jorge, um hospital municipal localizado na Barra da Tijuca, só haviam 2 ortopedistas de plantão no meu dia, eu e outro cara. Contávamos com a ajuda dos residentes para o atendimento. Se chega uma cirurgia de emergência, o procedimento é dar prioridade a esta, suspendendo cirurgias menos urgentes.

Enquanto nós plantonistas estávamos preocupados com o paciente, a preocupação da direção era:

“Quem vai ficar atendendo enquanto vocês operam?”.

O residente não é ainda ortopedista, em tese não pode ficar sozinho atendendo, tem que ser supervisionado. Com esse déficit de pessoal, eu cansei de ir fazer cirurgias grandes, como fraturas de fêmur, onde são necessários dois auxiliares, com apenas um. Saía do procedimento em frangalhos, a cirurgia demorava mais, o paciente sangrava mais por isso, aumenta o risco de infecção. E quem responde perante o capa-preta não é o hospital, é o salafrário do dotô que fez o procedimento. Isso te desgasta.

Esse caos também se refletia no andamento do serviço.

Pouco material + superlotação = engarrafamento na hora de fazer as cirurgias.

Pacientes que no particular são operados no dia seguinte, podem levar 30 dias no SUS. Uma máquina de criar seqüelas. Porque você não conseguia dar andamento à fila. Falta sangue para tal cirurgia, não tem material para a outra, tem poucos médicos para fazer a rotina. Mais desgaste.

Isso se reflete até em centros de excelência, como no INTO (Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia), referência nacional na área, e que, por ser federal, dispõe de todos os materais adequados. Foi o único emprego do SUS (sou médico concursado do INTO) que mantive.

Mas por causa da deficiência de todo o sistema, acaba que tudo vai parar no INTO. As filas dos ambulatórios de coluna são imensas, a agenda de consultas para 2009 já está fechada, para vocês terem noção. O pessoal que lá está é insuficiente para dar vazão ao volume que chega. O INTO foi concebido para tratar patologias ortopédicas de alta complexidade, mas acaba tratando tudo, porque a rede não consegue fazê-lo.

(...)

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Na segunda parte do relato brutal de nosso caríssimo Dr. Health, mais sobre o SUS, suas memórias e suas experiências por lá. Aguardem...


publicado em 16 de Outubro de 2008, 14:52
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Mauricio Garcia

Flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico e o nosso grande Dr. Health.


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