Memórias reais do SUS. Tudo que você nunca escutou. - Parte II

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Continuação do relato Memórias reais do SUS. Tudo que você nunca escutou. - Parte I . Leia antes de começar por aqui. (crédito foto)

(...)

Por falar em ambulatório (consultório onde faz-se o acompanhamento pós-emergencial), conseguir um acompanhamento é uma novela.

Exemplo: uma fratura que só necessita de gesso.

Teoricamente, o paciente deve ser atendido na emergência, feito o tratamento inicial, e depois marcar uma consulta no ambulatório para o acompanhamento. Mas ninguém consegue marcar uma consulta ambulatorial. Algumas patologias requerem 4 semanas de tratamento, pelo menos umas 3 consultas, sendo a 1ª na semana seguinte, e a consulta só é marcada para dois meses depois. Isso quando consegue.

Por isso eu nunca trabalhei em ambulatório do SUS. Ia ganhar mal para me estressar, isso já sabia. Muitas vezes, com pena dos pacientes, acabava fazendo o acompanhamento na emergência mesmo. Porém, se fizesse para todos, iria prejudicar o atendimento emergencial. É de partir o coração, cara, eu podia ali estar escolhendo quem iria ficar aleijado e quem não iria.

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Antes que se confudam, este é um texto sobre salvar vidas. Não é choradeira.

Nem todos se incomodam...

Tive colegas que não ajudavam também, fruto de vícios do sistema. Brigando contra tudo isso, muitos se acomodam. Era o caso de um colega do Getúlio Vargas, picareta total. Num plantão de 12 horas, seu almoço durava umas cinco. Alegava não saber operar para não ir ao centro cirúrgico. Empurrava os casos mais complexos para mim. Não resolvia nada. Culminou ao ponto do chefe de plantão me dar esporro, porque “eu havia deixado o cara sozinho, e tinha obrigação de supervisioná-lo”.

Amigos, eu havia acabado de concluir a residência, era inexperiente e o cara era muito mais velho que eu. Em tese, quem tinha que ser supervisionado era eu. O cara era um  perigo para a sociedade. O pior é que, para suprir vagas em locais mais afastados, contratam qualquer um que se diz especialista. Eu, que cumpri minhas obrigações com a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia devidamente, sendo aprovado num exame laborioso como membro desta, e que principalmente, por não gostar de fazer coisas malfeitas, ainda mais em se tratando da saúde alheia, cansei de pegar seqüelas causadas por tratamento inadequado.

Mau coleguismo também me deixou numa saia justa uma vez. Ligaram de um hospital afastado pedindo autorização para a transferência de um paciente com fraturas de úmero e tíbia, pois não havia ortopedista e este precisava de avaliação. Teoricamente, eu deveria pedir autorização para o chefe de equipe, mas como o colega havia me garantido que não era fratura exposta, ou seja, era só tratar e liberar o paciente, achei que não havia mal em autorizar e o fiz.

Para ouvir o seguinte:

“Aí tem buco-maxilo?”

“Tem.”

Tu-tu-tu-tu (sinal de ligação caída)

Estranhei. Quando o paciente chegou, realmente ele tinha fratura de úmero e tíbia, conforme me informaram. Só que a cara do paciente estava destruída, mandíbula arrebentada. O buco-maxilo de plantão iria me matar por ter autorizado aquela transferência, e o chefe comeria meu fígado. O médico da ambulância pedia pelo amor de Deus para que aceitássemos o paciente, porque ele não agüentava mais rodar os hospitais, ninguém aceitava.

Para minha sorte, o buco-maxilo após a avaliação disse que a cirurgia não era de urgência e que o paciente poderia ser levado para a unidade de origem. Se ele encrespasse comigo, eu estava lascado.

Depois disso, nunca mais atendi o telefone no hospital. Só quando me chamavam.

De outra feita, uma garota de 14 anos foi atropelada e cogitamos amputar sua perna para salvar-lhe a vida (membros muito esmagados podem sangrar até a pessoa morrer, e não é possível conter o sangramento, só amputando). Do nada chega um telefonema do gabinete de um deputado estadual, dizendo para não amputar a perna da garota. No final, não amputamos, mas imagina a m... que ia dar se fosse necessário?

Lembro-me dos dilemas quando tinha que operar bandidos.

Era meu dever consertá-los. Eles podiam voltar lá para me matar se eu fizesse algo errado, não é? O paradoxo de estar cuidando de um indivíduo que me causava raiva foi das situações mais interessantes que já vivi. Não me culpem por botar o bandidão inteiro para assaltar de novo. Eu prestei um juramento ao me formar.

EPÍLOGO

Foi gratificante quando pude fazer a diferença para muitos pacientes, como a modelo de 15 anos, que teve as duas pernas e o cotovelo quebrados e foi operada de madrugada por nós, e que reencontrei numa festa mais pra frente, linda e andando bem.

A senhora que perdeu o braço num atropelamento, onde não foi possível o reimplante, e ao reencontrá-la uma semana depois, estava feliz e agradecida aos céus por estar viva, mesmo sem o braço.

Os “gatos” que colocávamos no plantão (gato = cirurgia não-urgente que nós dávamos um jeito para operar em prol do paciente).

E todas as vezes que aquela população, tão carente, te olhava de forma respeitosa e agradecida, por você ter feito algo por eles. Mesmo alguém já endurecido pela realidade, como eu, se comove.

O que me motivou a sair?

Mas ao voltar de férias, aconteceu a situação que me levou à abandonar aquela guerra. Além de estar num momento que técnica e financeiramente aquela situação não era mais compensatória para mim, e além de ter voltado de uma viagem maravilhosa ao Nordeste, me acontece  o seguinte fato:

Chegando no plantão, fui avisado que não dispúnhamos de fixador externo. Fixador externo é aquela galhada que fica presa por pinos nos membros, com os ferros para fora, para manter o osso no lugar. Uma emergência sem fixador externo = fábrica de seqüelas.

Preocupado, avisei ao chefe de equipe, que me informou que a reposição não seria possível naquele dia. Então solicitei que fosse avisado ao Corpo de Bombeiros para não trazer doentes com fraturas expostas de fêmur e tíbia para o hospital. Sem fixador externo, eu não tinha como fazer um bom serviço, pior, estaria fazendo iatrogenia. Para meu ultraje, o responsável pela Chefia dos Bombeiros questionou minha formação. Teve que engolir em seco quando ouviu as letras U, F, R e J. Pois bem, até as 4 da tarde, o acordo foi cumprido.

Lá para as cinco da tarde, eis que os bombeiros trazem duas fraturas expostas de membro inferior para o plantão. Questionados por mim, disseram que nada foi passado a eles. Chamei o chefe, e este, lavando as mãos, mandou eu me entender com a chefia dos bombeiros. Onde ouvi um dos maiores absurdos da minha vida. Transcrevo o diálogo abaixo:

Eu: “... Então, estou sem fixador externo, não tenho como operar esses pacientes, eu tinha avisado para não trazer, bla bla bla”

Bombeiro: “Meu amigo, você tem centro cirúrgico, você tem anestesista, leva para lá, lava a fratura e imobiliza.”

Eu, puto: “Olha só, isso é erro médico, eu tenho obrigação de fixar essa fratura e estou sem material... Não vou receber esse paciente, depois dá problema, vou ser processado e assim eu não tenho defesa.”

Bombeiro: “Não tem essa de processo. Você vai fazer o seguinte, leva o paciente para o centro cirúrgico....”

Eu: “Peraí, você está me dizendo como fazer meu trabalho?”

Bombeiro: “É só levar o paciente para o centro cirúrgico, lavar a frat....”

Nesse momento eu desliguei o telefone na cara da cidadã, era uma mulher. Senão eu a mandaria tomar vocês sabem aonde. Não achei meu CRM no lixo.

Lembrei de um staff meu dizendo: “Maurício, trabalhar nesses hospitais é pedir para se f..., você opera um paciente, ninguém faz um pós-operatório decente, e no final o capa-preta vai voar em cima é do doutor que fez o procedimento. Sai dessa, é loucura.”

Me dei por vencido. Ele tinha (e ainda tem) razão.

saude-publica
Teve preguiça de ler o post. Preferiu algum vídeo no YouTube? Então leia a foto acima.

Muitos acharam loucura, pedir exoneração de concurso público, mas tem horas na sua vida que se você não mudar seu rumo, naquilo ficará para sempre. Ano passado, pedi exoneração de dois concursos, do Estado e do Município. Ganhar mal vá lá, mas ganhar mal e ter que aturar tudo isso, é demais para mim.

Este ano, fui chamado para o INTO, lá tem vícios do sistema, lá tem defeitos do SUS, lá tem aporrinhação, o salário não é dos melhores, mas lá eu tenho condição e material para trabalhar, que é tudo que preciso para prestar um bom serviço.

A vida no meio particular também não é das mais fáceis, mas tendo material e condição de trabalho, e vislumbrando crescimento na carreira, estou satisfeito.

Meu intento com este post não foi fazer ninguém sentir pena de mim ou de meus colegas, nada disso, não estou aqui para ficar chorando as mazelas do SUS. Pelo contrário, por não aceitar passar por tudo aquilo, eu fiz o que muitos colegas deveriam fazer, ao invés de prestar serviço de porco. E quem tem pena é galinha.

Mas só passar uma visão geral do que acontece na Saúde deste país. Especialmente no meio ortopédico. Isso me endureceu e me tornou mais frio como ser humano, eu me achava uma pessoa melhor antigamente. Mas ou era isso, ou eu enlouqueceria.

Quem sabe um dia a saúde será tratada com a dignidade e respeito que merece e essas situações não mais ocorrerão. No fundo todos nós somos humanos e bem intencionados.

O sistema é cruel e nos transforma. Lamentavelmente.


publicado em 17 de Outubro de 2008, 15:12
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Mauricio Garcia

Flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico e o nosso grande Dr. Health.


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