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Meus 20 CDs perfeitos

Um compilado de trilhas que me marcaram

Há CDs (ou LPs, mas vou chamar todos de CDs) perfeitos: aqueles que você pode ouvir inteiro, sem pular nenhuma música, e são sempre relembrados em festas, viagens de carro ou em momentos de solidão.

“Como você não incluiu o CD tal?!”, me perguntaram muitos amigos a quem fui apresentando a relação. Sejam condescendentes: são meus 20 CDs perfeitos, não os 20 melhores de todos os tempos. Fui bem abrangente, pelo menos: são 47 anos de produção e 33 de audição, oito obras brasileiras e doze estrangeiras, abarcando diferentes estilos e épocas de música e de vida. As obras estão classificadas pelo lançamento, até porque a tarefa de colocá-las em ordem de preferência não seria fácil

1. Miles Davis – Kind of Blues (1959)

Há quem ache jazz difícil de ouvir ou de entender. A primeira faixa desse LP não é nenhum dos dois: Miles vai contando uma história e repetindo a mesma pergunta ao trompete: “so what?”. A obra traz um jazz mais melódico, bom para ouvir com muita ou pouca atenção.

2. The Beatles – Rubber Soul (1965)

Foi difícil decidir entre meus favoritos Revolver e Rubber Soul, o desafiante White Album e o aclamado Sgt. Peppers, tão elogiado que você se sente quase obrigado a gostar (mas não me toca tanto). Rubber Soul fica na transição entre a banda de iê-iê-iê dos discos anteriores e o que viria a seguir, em termos de estilo e criatividade. Pegue carona com Drive My Car, sente-se na sala feita de madeira norueguesa (no chão, porque não tem cadeira), preocupe-se com You Won’t See Me e lamente pelo Nowhere Man. Michelle e Girl, além de lindas, já me ajudaram algumas vezes em karaokês, quando todo mundo ao redor cantava bem, mas não em inglês – e foi nessa lacuna que eu sobrevivi.

3. Jimi Hendrix – Are You Experienced (1967)

Já não é surpresa que Purple Haze seja uma narrativa psicodélica, o relato de alguém tão chapado que não sabe se está “going up or down”, mas talvez seja novidade que a música batizou a variante da cannabis, e não o contrário. A letra poderia até se referir à paixão (“whatever it is, that girl put a spell on me”), mas provavelmente fala de alguém que tomou LSD – o que me lembra que a paixão pode ser uma droga em vários sentidos. Manic Depression retrata um sofrimento psíquico, e Hey Joe é muito conhecida pela versão de d’O Rappa – vale muito conhecer a original. Outra famosa é Foxy Lady, tocada enquanto Garth Algar baba pela garçonete no filme Wayne’s World.

Jimi Hendrix, aliás, está no grupo dos grandes músicos que morreram aos 27 anos – como Jim Morrison (The Doors) e Kurt Cobain (Nirvana).

4. Vários – Tropicalia ou Panis et circensis (1968)

É difícil descrever esse marco da música brasileira, símbolo de uma época histórica e exemplo dos diferentes entendimentos de nacionalismo - Frutos de um movimento que contava com as participações de Gal Costa, Gilberto Gil, Caetato Veloso e Os Mutantes. A diversidade de Tropicalia tem a cara dessa nossa lista. 

Para saber mais sobre o movimento e seus artistas, recomendo o documentário Tropicália, de 2012.

5. Janis Joplin – Pearl (1971)

Outra das artistas incríveis que morreram aos 27 anos, Janis Joplin é um símbolo da liberação feminina, e suas músicas traduzem isso. A Woman Left Lonely e Me And My Bobby McGee são duas belas canções de rompimento e resignação; já em Mercedes Benz, Janis se dirige a Deus como se escrevesse ao Papai Noel (quem nunca?), cheia de desejos consumistas.

6. Caetano Veloso – Transa (1972)

Gravado em Londres após uma breve e atribulada visita ao Brasil durante o exílio, o disco foi lançado quando o cantor voltou definitivamente ao país. É a música de um baiano na Inglaterra, um baiano longe de casa, um baiano saudoso, mas encantado.

Em 1991, o cantor disse que Nine Out Of Tem era sua melhor música em inglês, e a primeira música brasileira a trazer alguns compassos de reggae; como gravação, sua preferida do disco é Triste Bahia. Pra mim, Mora na Filosofia diz o que precisa ser dito, mas é impossível fazer um ranking. O CD se aplica muito bem ao título, aliás.

7. Novos Baianos – Acabou chorare (1972)

Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Moraes Moreira e companhia moravam em uma propriedade rural no Rio de Janeiro e viviam de forma um pouco anárquica. Produziram o que a Rolling Stone já considerou o melhorou LP brasileiro de todos os tempos.

Brasil Pandeiro e Preta Pretinha estão nos ouvidos desde criança, mas a primeira canção que me chamou atenção foi a faixa-título, que interpretei de várias formas diferentes até me decidir por um chamego de manhã no sítio, onde as imagens não trazem assinatura de sonho ou realidade.

Por que não viver nesse mundo?

8. Tom Zé – Todos os olhos (1973)

Esse provavelmente foi o LP que me deu pela primeira vez a ideia dos CDs perfeitos. De tanto ouvir sobre Tom Zé (e especialmente depois de ver o documentário Tropicalia, que sugeri lá em cima), cheguei nessa obra que só saiu do carro depois de ouvida inteira duas vezes seguidas, e de mostrar algumas músicas para os caronas. Lançado no “ano que reinventou a MPB”, as músicas têm estilos variados, arranjos ricos e letras que criticam a cena musical (Complexo de Épico) e a vida na grande cidade (Botaram Tanta Fumaça), e que lembram resignadamente que “a Brigitte Bardot está ficando velha... envelheceu antes dos nosso sonhos”. Uma das músicas que mais refletem o meu amor a São Paulo humaniza três ruas da cidade: Augusta, Angélica e Consolação.

A foto da capa era para parecer um olho, parece um ânus, mas é uma boca segurando uma bolinha de gude. Se você olhar direitinho, vai entender as diferenças...

9. Jorge Ben – A Tábua de Esmeralda (1974)

Tábua de Esmeralda foi o último LP de Jorge Ben Jor (naquela época Jorge Ben) gravado apenas com violão acústico. Em Solta o Pavão (1975), Jorge incluiu algumas canções em guitarra elétrica, trocando definitivamente o violão pela guitarra em África Brasil (1976).

10. Luiz Melodia – Maravilhas Contemporâneas (1976)

“Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais”... Como aconteceu com Tom Zé a partir de Augusta, Angélica e Consolação, foi Congênito que me fez conhecer Luiz Melodia para além de Juventude Transviada, também presente no LP.

11. Nirvana – Nevermind (1991)

Meu primeiro CD do Nirvana foi o MTV Unplugged, cuja escuta sempre alternei com Nevermind. No acústico, sinto falta de Smells Like Teen Spirit – compensada pela presença de Where Did You Sleep Last Night e The Man Who Sold the World. A capa é quase tão famosa como o conteúdo, e já foi parodiada pelos Simpsons.

12. The Presidents of the United States of America – The Presidents of the United States of America (1995)

Lump e Peaches fizeram muito sucesso, mas o CD traz boas canções (algumas mais punk, outras mais country) como Kitty, Dune Buggy e Body.

13. Manu Chao – Clandestino (1998)

Esta lista traz obras que tratam de cidade e exílio, e Clandestino é um pouco dos dois: uma coletânea sobre migrações e (in)adaptações. Desde a faixa título até Welcome to Tijuana, passando pela história do Rei do Bongo que não tem plateia na cidade grande e por Desaparecido, boa parte das canções tratam de passagens e (não) lugares. 

A versatilidade de Manu Chao cantando em inglês, espanhol, francês e português é um destaque.

14. Offspring – Americana (1998)

O CD abre com uma faixa que diz apenas “Welcome to Americana. Please make your selection followed by the pound sign now”. A partir daí, são quarenta e poucos minutos de pauleira, com arranjos variados que cobrem lembranças da infância, “garotas com questões” e a vida na prisão, numa grande ópera punk.

15. Red Hot Chili Peppers – Californication (1999)

A proposta do CD é exatamente a que o título sugere: falar da vida numa cidade internacional, de luxo e luxúria. Fosse um CD brasileiro, se chamaria Rio Fornicação – porque Rio 40 Graus já tinha sido usado. Os destaques são Otherside e Californication, a lúgubre Porcelain e a envolvente Road Tripin’, acústica, ótima para compor a trilha sonora de qualquer viagem.

16. Silverchair – Neon ballroom (1999)

Jovens fazendo música adulta, o CD inteiro pulsa e desafia. Boa (e testada) sugestão pra uma noite mais hard.

17. Los Hermanos – Bloco do Eu Sozinho (2001)

Há quem diga que segunda-feira é um dia tão chato que deveria se chamar Los Hermanos, e que o Brasil só vai pra frente quando superar a banda. Ainda assim, não se pode negar que os rapazes trouxeram fôlego e criatividade a um cenário que há muito não via grandes novidades. Sensíveis mas despolitizados, trazendo metais e efeitos, misturando samba e rock sem ser samba-rock, e ainda com boas letras – mas não tão boas quanto algumas fãs acham.

18. Franz Ferdinand – Franz Ferdinand (2004)

Famoso pela contagiante Take Me Out, a obra também tem destaques como Auf Asche e a incendiária This Fire. Não acho que tenham superado essa obra de estreia nos CDs seguintes, de pegada mais dançante, embora You Could Have It So Much Better tenha trazido boas canções.

19. Zeca Baleiro - Baladas do asfalto e outros blues (2005)

Zeca é um grande poeta nesse CD, com letras bastante melancólicas (como Cigarro e Muzak) e outras mais espertas (como Meu Amor, Minha Flor, Minha Menina e Alma Nova). A coletânea Perfil do cantor é uma segunda sugestão para quem quiser conhecer seu trabalho anterior. Em tempo, o apelido “Baleiro” vem do hábito de consumir muitas balas e doces durante a faculdade de Agronomia, virando alvo de quem estava atrás de uma guloseima.

20. Amy Winehouse – Back to black (2006)

Me incomoda que essa lista tenha poucas mulheres, talvez porque todas que curto eu tenha conhecido através de coletâneas (como Ella Fitzgerald e Billie Holliday) ou duetos (como Maria Bethânia e Chico Buarque, no ao vivo de 1975). Amy Winehouse lembra algumas delas pela voz, outras pela expressão, outras ainda pelo sofrimento na vida. Back to Black é o segundo e mais conhecido CD da cantora, falecida aos 27 anos, como Janis Joplin. O documentário Amy, de 2015, sugere que ela não deu conta da fama e das influências do pai e do namorado.

 


publicado em 10 de Setembro de 2016, 12:00
Aadm sol

Antônio Modesto

Médico de Família e Comunidade. Iguaçuano de nascença, carioca de sotaque e paulistano de coração, vive entre a Praça São Salvador e a Rua Augusta. Escreve poesia quando está triste, prosa quando está feliz, e adora entender não ditos.


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