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Minha amiga roubou meu namorado| Do Amor #26

Ou quando amores e amizades se confundem e atrapalham toda a brincadeira

Era tão real que, no começo, até eu mesma acreditava em algumas partes. O tempo eu tinha de sobra, depois da escola, a tarde toda estava à disposição da minha imaginação para colocar fatos em ordem e tentar minar qualquer furo inverossímil. Com treze anos, a gente não tem real noção do quão cruel o acaso pode ser quando quer nos dar uma lição.

Acho até hoje que a Rebeca não acreditava numa palavra das que eu contava, mas adorava sentar pra me ouvir falar. Eu descrevia o cheiro do cabelo dele, passeios que fazíamos nos finais de semana em que ele ia me visitar de bicicleta ou que a mãe dela deixava a gente no shopping pra tomar sorvete. Tudo balela, eu só tirava a vantagem de a mãe dele conhecer a minha e, por isso, ganhar alguns "ois" dele na escola. Uma série à frente, mais velho, não haveria porque de ele se enturmar com o pessoal mais novo, que incluía a Rebeca e eu, então eu tinha o cenário ideal pra dizer que ele me namorava, mas não podíamos ficar de sassarico no colégio por advertência dos nossos pais.

Era um prato cheio. Ele me acenava com a mão e eu sorria de volta. Logo, me virava para a Rebeca e tirava da gaveta mental alguma das situações românticas que eu tinha premeditado. Suspirávamos juntas, ela e eu, com as lindezas que eu relatava. Fui ficando cada dia mais apaixonada pelas coisas que eu mesmo fantasiava, deveria ser gostoso demais viver todas aquelas aventuras amorosas juvenis com o garoto filho da amiga da minha mãe. Eu comprava as roupas que ele gostaria que eu usasse, se realmente ele fosse quem eu dizia que ele era, pedia para minha mãe me levar nos lugares em que supostamente a gente se encontrava. Somava cada vez mais e mais histórias do meu namoro que nunca aconteceu. Se a Rebeca botasse cada relato meu em uma linha do tempo, eu precisaria de mais de oitenta anos pra conseguir efetivamente fazer tudo o que eu narrava com ele. 

De tanto contar, enojei. 

Falei pra Rebeca, certo dia, que não estava mais namorando, que tínhamos terminado. Não expliquei como foi. Depois de uns dias, ela me relembrou da história que mais gostava de nós dois e eu disse "magina, você acha que isso aconteceu mesmo?", e rimos. Parece que ela tinha entendido. Me senti leve para ir abrindo toda a farsa até contar para a Rebeca que eu nunca tinha namorado ele, que tudo era fantasia e momentos de diversão pra gente sair um pouco da chatice desse mundo. Ela entendeu completamente, não disse que já sabia e nem se fez surpresa. 

Acho que a Rebeca foi a melhor amiga que eu tive. Pena ela ter começado a namorar no ano seguinte, o nosso oitavo e último juntas. Nos afastamos porque, durante as férias de final de ano, ela começou a namorar com um garoto que conheceu no clube. Passou, ela, a me contar histórias de como foram as férias, de como namoravam nadando juntos, a maneira com que ele a pediu em namoro na última semana, atrás da arquibancada do campinho de areia. Me incomodava um pouco muitas das coisas que ela relatava serem parecidas com as que eu fala antes, eu não sabia bem se ela estava brincando comigo, me cutucando, ou apenas querendo ter as mesmas boas sensações que eu tinha. 

E eu poderia ouvir tudo de volta, ser agora a menina que escuta, que deixa a amiga fantasiar. Mas ela estava namorando de verdade, com foto dos dois dentro do caderno e tudo. Quando ela me mostrou o retrato foi quando paramos de nos falar. Era uma imagem dela, vermelhazinha de sol e usando um vestidinho azul, sendo abraçada pelo filho da amiga da minha mãe. 

Roubou minhas histórias não vividas pra viver nas dela. Nas histórias deles.

O amor, essa farsa.

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publicado em 26 de Fevereiro de 2016, 00:10
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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