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Minha experiência na Tailândia: quando uma viagem não dá tão certo assim

Tudo que eu queria era relaxar em praias paradisíacas, mas uma das memórias mais fortes que tenho da minha viagem pela Tailândia é a do dia em que tive que fugir de uma briga. Quem me chamou para a mão foi um motorista de tuk-tuk, aquele triciclo motorizado muito comum na Ásia.

Fugi assim que o motorista garantiu que era muito bom no Muay Thai. Eu, que briguei pela última vez aos oito anos (apanhei) e acho que só meninos da mesma faixa etária resolvem conflitos na mão, corri.

Fiz bem, já que certamente teria terminado com a cara no chão, exatamente como rolou quando eu era criança.

A confusão começou quando nosso grupo desceu do tuk-tuk e começou a juntar o dinheiro para pagar pela corrida. Impaciente, o motorista tentou tirar a carteira da minha mão. Eu, pensando que elevar o tom de voz fosse uma boa ideia na Tailândia, fiz isso. Estava armado o circo.

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Tuk-tuk tailandês

Não tenho dúvidas de que o choque cultural teve uma parcela de culpa no problema e que os tailandeses em geral não são como aquele motorista, mas a verdade é que quase toda minha viagem de 18 dias pelo país pode ser definida com uma palavra: perrengue. A ponto de termos tentado trocar as passagens e ir embora antes do planejado (não para o Brasil, mas para o próximo país do roteiro).

Sofremos diversas tentativas de golpes, do mais famoso deles, em frente ao Palácio Real de Bangkok, até versões muito mais criativas. Outro motorista de tuk-tuk ameaçou chamar a polícia pra gente, assim que contestamos um valor absurdo que ele estava cobrando pela corrida. Entre enfrentar a polícia (que não tem uma fama muito legal) e cair no golpe, preferimos a segundo opção.

Eu sabia que partes da Tailândia têm intenso turismo sexual, mas me surpreendi com o assédio e a presença de adolescentes fazendo programas nas ruas de Phuket, maior destino turístico do país.

Além disso, muitos dos passeios mais famosos da Tailândia são pegadinhas para turistas. O famoso mercado flutuante de Bangkok, por exemplo, é o tipo de lugar para gringo ver (e com produtos made in China).

A tribo das mulheres-girafa, nos arredores de Chiang Mai, poderia até ser um lugar legal. É exótico, né? Sim, mas o problema é que elas são obrigadas a levar aquele estilo de vida pelo governo, garantindo assim a atração turística e o dinheiro dos empresários. Um zoológico humano.

E ainda resta falar das atrações envolvendo animais. Templo de Tigres e passeio no lombo de elefantes, por exemplo. Eu fiz o último, e confesso, na hora gostei. Foi divertido. Até que voltei ao Brasil e, anos depois, descobri que há um mercado de tráfico internacional de elefantes para suprir a demanda turística da Tailândia, prática que colocou o elefante asiático em risco de extinção.

Desconheço um país em que o turismo de massa tenha causado um impacto negativo tão grande na sociedade como na Tailândia. Por isso, de todos os países que já visitei, a Tailândia foi o que menos gostei. E isso surpreende muita gente, afinal o país é o queridinho de quase todos os blogs, sites de viagem e viajantes em geral. Sabe aquela turma que viaja por anos e anos e trabalha na estrada? Eles não só amam a Tailândia. Eles se mudam para lá.

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Ilhas Phi-Phi

Por fim, sobravam as praias. Tipo as ilhas Phi Phi, famosas desde que o filme A Praia, com o Leonardo Dicaprio, transformou o local no maior cartão-postal da Tailândia. A experiência lá foi fantástica -- o lugar é mesmo absurdamente lindo. Mas só por um dia, já que nos outros cinco caiu uma chuva torrencial, daquelas que não permitem que você sequer deixe o hotel.

Eu sei que isso acontece, não é culpa de ninguém e muito menos do país, mas o fato contribuiu para coroar minha experiência desastrosa por lá.

Ok, mas qual o ponto? Você está dizendo “não passe as férias na Tailândia”, é isso?

Não. Muito pelo contrário, se você é um dos que sonha em conhecer o país, vá! E, se precisar de ajuda, é só falar comigo que estou disposto a te dar todas as dicas que puder. Note uma coisa: todas as dicas para que você não cometa os erros que eu cometi. Afinal, tenho consciência que muitos dos problemas que tive lá foram culpa minha.

Por exemplo, dicas para que você não vá aos lugares errados, onde o turismo de massa e mal organizado destruiu qualquer chance de uma viagem interessante. Ou então para que você não vá na época errada das temidas monções. Eu me planejei cuidadosamente para não viajar durante esse período, com base num dos maiores sites de viagem do Brasil. Só que a informação desse site estava errada, o que me levou diretamente para o período das monções. Culpa minha, que não conferi em outras fontes.

E também para que você saiba como se comportar numa sociedade tão diferente da nossa. Mais importante do que uma lista de coisas que você deve fazer na Tailândia é a de coisas e comportamentos que você não deve ter lá. A casa é deles. As regras também.

Acima de qualquer outra coisa, o objetivo deste relato é mostrar que mesmo a viagem mais incrível pode ser, em determinados momentos, uma merda. “Viajar só é glamouroso em retrospecto”, escreveu o norte-americano Paul Theroux. Em muitos sentidos ele tem razão. Não há nenhum glamour em ser desafiado para uma briga numa rua de Bangkok.

Apesar dos problemas, sempre é possível tirar algo de positivo de uma viagem ( e de qualquer coisa da vida). Eu tirei. Por exemplo, passei a perceber que nem todo turismo vale a pena. É claro que o turismo sempre vai causar algum impacto negativo na sociedade, mas é preciso saber quando esse impacto passa dos limites aceitáveis.

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O Wat Phra Kaew, ao lado do Grande Palácio

E, claro, mesmo a viagem mais problemática tem bons momentos. Tipo quando a chuva me fez sair mais cedo da praia e Ayutthaya, uma cidade histórica que foi capital da Tailândia antes de Bangkok, entrou no roteiro. Ou quando fizemos rafting num rio próximo de Chiang Mai. Ou quando visitamos templos inacreditáveis em Bangkok.

Viagens nunca são perfeitas - só mesmo nas fotos postadas no Facebook. Mas raramente são desastres completos.


publicado em 21 de Outubro de 2014, 07:00
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Rafael Sette Câmara

Virou mochileiro ao mesmo tempo em que se tornou jornalista. Desde então, se acostumou a largar tudo para trás - inclusive empregos - e cair na estrada. Ele escreve sobre viagens no 360meridianos, mas pode ser encontrado também no Facebook e no Instagram.


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