Mochilão: a verdadeira arte de viajar

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"O que chamo de viajar não tem muito a ver com viagens de férias. Tampouco significa necessariamente desbravar terras virgens. [...] Viajar é isto: deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há, em nós, algo que não conhecíamos até então." –Contardo Calligaris

A Cultura Backpacker surgiu da necessidade do ser humano de buscar o novo, o inusitado, e explorar o desconhecido. Mergulhar em outras culturas, descobrir outros jeitos de viver, conhecer a si mesmo e livrar-se das limitações que colocamos em nossas vidas são apenas alguns motivos pelo qual a cultura de mochileiros teve iniciação.

Muitos dizem que os pioneiros da arte de "andar sem rumo" foram escritores e artistas da Geração Beat, nascidos nos EUA nas décadas de 50 e 60, que não acreditavam em empregos comuns, lutavam para sobreviver e viajavam sempre que pudessem. Porém, desde que o homem é homem, o desconhecido nos fascina.

No Brasil, essa cultura não é nem um pouco difundida, mas está crescendo lentamente. É fácil perceber como no Brasil isso é tão diferente apenas pela reação das pessoas ao ouvir que alguém viajou "de mochilão". Muitos – muitos mesmo – brasileiros acham que mochilão é sinônimo de pobreza, de nômades sem o que comer fazendo dreads e pulseirinhas, de albergues a la O Albergue (que, junto com Turistas, está no ranking de filmes mais deprimentes da história)... Enfim, uma visão totalmente distorcida da situação real de um mochileiro, do estilo de viajar e da diferença entre pagar a CVC e viajar por conta própria.

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Também não precisa exagerar.

Hotel x Hostel

Não, um albergue não é um pulgueiro – não se você se informar antes. Na maioria das vezes o mochileiro opta por viajar com menos “mordomias” pela experiência, não porque tem poucos recursos financeiros.

Particularmente, eu prefiro dormir num albergue e estender minha viagem a pagar três vezes mais num hotel e ficar apenas alguns dias. Num hotel, você nunca vai conhecer os outros viajantes, já no hostel (como são chamados os albergues) isso acontece todo o tempo. Sem exageros. Com um pacote, você nunca vai conhecer a cultura de um país, só seus pontos turísticos e os restaurantes afiliados. Vai conversar com meia dúzia de nativos, chutando alto.

São milhares de diferenças que fazem as pessoas optarem por este método alternativo (no Brasil ainda é classificado desta maneira) de viajar. Já viajei pelos dois métodos e claramente optarei por fazer um mochilão sempre que possível. É claro que milhares de imprevistos podem acontecer (como sempre), mas no fim se tornam boas histórias para contar. Bagagem que você só vai conseguir se fizer esse tipo de viagem.

Até eu mesma, após anos e anos lendo relatos e dicas de diversos mochileiros, tinha uma visão completamente distorcida do que realmente é viajar neste estilo. Vai muito mais além do que conhecer outro país e gastar menos do que uma viagem tradicional.

Você começa acanhado, com todos os seus pensamentos pré estabelecidos, e aos poucos, convivendo com outras pessoas no hostel, vendo as milhares de realidades diferentes ao seu redor, conhecendo outros tipos de pensamento, outras culturas, outros modos de ver e aproveitar a vida, e de repente você se dá conta que o sentimento de liberdade plena já tomou conta de você.

"Far Behind" (Eddie Vedder), trilha sonora de Into the Wild: excelente música para começar um dia na estrada

Não adianta ler muito sobre mochilar. Enquanto você não o fizer, nunca vai conseguir sentir a mesma coisa que alguém que está na estrada. Parece clichê, mas todas as suas regras, todos os seus padrões vão mudar, se ampliar. Quem coloca uma mochila nas costas e vai – muitas vezes sozinho – para uma cidade ou país desconhecido provavelmente já está querendo absorver ao máximo tudo que conseguir nesta experiência, então vai ser fácil sentir toda a descoberta e a liberdade que isso oferece.

É claro que não são todos que conseguem se tornar seres de pensamento livre e aberto para as diversas informações que as pessoas têm a lhe fornecer – uma pena. Diante de um mundo tão cheio de conhecimento, opiniões e ideias, aliado a uma oportunidade tão única como essa, a pessoa fica lá, no seu próprio mundinho fechado. Mas espero que todos os leitores PdH não sejam assim, por isso não vou focar nesta parte.

Parece papo de louco (e talvez seja), mas é realmente incrível chegar ao patamar de se desprender das regras que as pessoas fizeram você engolir, estar de peito aberto para o mundo e sorrir para as oportunidades que aparecem. Tornar-se simplesmente a essência do ser humano como ele deveria ser, sem pré-conceitos, pré-julgamentos ou recriminação é uma das melhores coisas que você pode sentir mochilando – seria ingênuo, porém, pensar que é sempre assim.

Ninguém vai te chamar de sujo caso sua blusa acabe manchada, nem se você dançar de uma maneira que você nunca dançou na vida. Você tem a liberdade de agir da maneira que quiser porque ninguém vai estranhar. Você pode ser você sem medo de julgamentos pelas atitudes que você tomava dias atrás.

Para quem deseja viajar de mochilão...

Fiquei mais de um ano planejando meu mochilão até finalmente conseguir sair. A melhor coisa que eu fiz foi não ter planejado fielmente nada. Meu único planejamento de quando saí do Brasil era que dormiria 4 dias em um hostel em Buenos Aires. De resto, fui descobrindo na hora, conversando com as pessoas, colhendo opiniões, conhecendo gente, me divertindo, conhecendo lugares, e “deixando a vida me levar”. Não sabia nem exatamente que roteiro eu faria. É aí que começa a sensação de liberdade, que fica cada vez melhor.

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Parque do Aconcágua - Mendoza - Argentina (foto da autora)

Obviamente não sou (ainda) uma expert em viajar assim; mesmo se fosse, acredito que não teria muitas dicas para dar, pois mochilar é um processo muito pessoal.

De início, selecione os lugares que você gostaria de visitar e os que seriam viáveis para você. Pesquise bastante para ter uma noção de quanto você pode gastar por dia e se isso é suficiente para pagar sua estadia, transporte e almoço – além do transporte para outras cidades ou países.

A principal dica que eu posso dar é: ouse!

Se você quer ir, mas não conseguiu companhia, não desista de viajar!  Este foi o meu caso. Normalmente não é muito comum as pessoas seguirem em frente com essa “loucura” (sic). De início, se animam, mas depois acabam dando pra trás por diversos motivos. Não tenha medo de viajar sozinho. Você vai conhecer muitas e muitas pessoas dormindo em hostels. Como todos estão viajando, a conversa flui muito fácil, mesmo se você for tímido. Além disso, é ótimo passar um tempo sozinho, conhecer como você é sem precisar pensar em como você foi ontem, afinal ninguém ali o conhecia ontem. É realmente um estudo de si mesmo.

No mais, é isso. Aproveite o que o mundo tem a lhe dar, compartilhe o que você pode oferecer aos outros. Aprenda a descascar laranja de outra maneira, a cumprimentar em armênio, a dançar valsa creola ou a marinera. Conheça a cultura do lugar que você vai, não apenas os pontos turísticos. Vá a uma festa tradicional, converse com os moradores, ouça histórias, incorpore o que puder da cultura local.

Fique um dia sem sair do hostel, apenas conversando com aquele grupo de pessoas, cada um de um país diferente. Dê-se o direito de conhecer o que você quer, ir onde você quer, e não onde aquele local "obrigatório e imperdível" dos cartões postais. Faça o que lhe dá vontade, quando lhe der vontade, não quando a excursão estiver saindo.

Numa próxima oportunidade conto um pouco da minha experiência mochilando, mas não conseguiria falar disso sem antes falar da experiência que um mochilão pode trazer.

Se você quer mais informações sobre mochilar, acesse o fórum www.mochileiros.com, o site www.mochilabrasil.com.br, a comunidade "Mochileiros" no Orkut e os milhares de blogs espalhados pela web que tratam do assunto. Se souber inglês, compre um Lonely Planet que você já pode se perder pelo mundo.


publicado em 19 de Fevereiro de 2010, 11:07
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Debora Corrano

Debora Corrano cursa Publicidade e Propaganda, é protetora dos animais e um dia pretende ser beer sommelier e mochileira. Um de seus hábitos preferidos é teorizar sobre o comportamento humano. Também escreve no Le Desordre C’est Moi.


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