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Não existe amor em SP

Semana passada teve uma briga de bar em frente ao meu prédio. Começou com aquela velha gritaria de bêbado contestando bêbado e deu no que deu: pancadaria entre uns três ou quatro que eu nem sei da índole. Vou lá eu chamar esses caras de vagabundos? De encrenqueiros ou beberrões que não têm um pingo de dó da família?

Não conheço nenhum deles. Acabou tudo com um indo pra um lado... outro descendo a rua limpando a roupa...

Um deles ficou lá, no bar, xingando quem quisesse ouvir xingamentos. A polícia apareceu, anotou uma coisa aqui e outra ali, naquela ficha padrão. Apareceram pela contramão, luzes vermelhas acesas. Ficaram lá por uns minutos até que o maiorzão, aquele que estava dirigindo, acendeu um cigarro e resolveu que queria ir embora. Subiram os dois policiais no carro e zarparam. Menos de 15 minutos depois do início da briga, era como se nada tivesse acontecido. É nesse mesmo bar que o pessoal vara madrugadas deliciosas tocando Cartola e Noel Rosa no violão.

Eu moro em São Paulo. Uma terra que chegou aos seus 458 anos. Moro na megalópole do país, em uma cidade com mais de 11 milhões de pessoas zanzando e passando aos tropeços, correndo na faixa para não serem atropeladas pelos carros, fumando na porta dos bares que é lugar aberto, chutando calcanhares no metrô, no trem, tomando cotovelada no ônibus e tirando o sarro um do outro por conta dos sotaques.

Ou alguém pensou que em São Paulo só tem paulistano errando os plurais e puxando os “enes”? Convivo, aqui no QG do PapodeHomem, com gaúchos (do sul e, acreditem, de Cuiabá), caipiras do interior de Marília, homens com os trejeito e alma de Belo Horizonte e ainda budistas que, querendo ou não, foram nascidos e criados em Mauá, no Grande ABC.

Quando fui fazer minha pós-graduação em jornalismo cultural, conheci um piauiense e, assim que vi uma amizade forte ali, alertei de imediato: “Moleque, São Paulo é a terra da solidão”. Isso pouco antes de não ter dado carona pra esse teresinense, mesmo estando na rua da casa dele.

São Paulo coleciona pessoas e coleciona solidão. Quem não sabe lidar com São Paulo, acaba só, sozinho e solitário, como diria o mesmo Caetano Veloso que pirou o cabeção com a deselegância discreta das nossas meninas. SP é o lugar certo para quem quer se isolar, mesmo estando no olho do furacão. São Paulo assusta e São Paulo anestesia qualquer medo, trauma e suspeita. Depois de morar em Sampa, nunca mais se anda na rua sem olhar pra trás. Não se desacostuma a estar com fome às três da madrugada e achar normal sair na rua pra comer. Quando em São Paulo, o dia precisa de 72 horas pra se ter tempo hábil pra fazer as tarefas diárias. Fora de SP, o dia parece ter 72 horas.

São Paulo é a cidade dos chiques da Oscar Freire, que acompanham tendências e trocam guarda-roupas como quem troca o chiclete que perdeu o gosto. São Paulo é a cidade dos manos que idolatram suas periferias, enaltecendo a Zona Sul, a Zona Leste, a Zona Norte e a Zona Oeste, todas unidas pelo bem do hip-hop, movimento musical que dominou os tocadores de MP3 de todo o país no último ano.

Ou vai me dizer que você nunca, nem uma vezinha assim, deu o play pra ouvir o Emicida ou o Criolo, que foi plagiado por esse escritor maldito no título desse manifesto odioso-amoroso ao aniversário da cidade de São Paulo? Se não, pena de ti sentimos nós, paulistanos que ouvimos as melhores rimas do ano, as melhores batidas do ano, os melhores protestos do ano e os melhores artistas do ano.

Aqui, nesse velho quilombo de todos os brasileiros, crescem desordenadamente os bairros e a vontade de viver aqui. Quando brota o amor por São Paulo, aí fudeu. São Paulo vicia, tanto ou mais do que todas as pedras que a cracolândia tem pra oferecer. Chega até a dar um orgulho estranho e torpe daquilo que é feio. “É violento, tá estragado, só sujeira, mas é nosso”. E quem ia poder julgar?

Por isso que não existe amor em SP. Nessa cidade que se orgulha de ter como lema o tão severo e valente “Non dvcor dvco” (“não sou conduzido, conduzo”), não há espaço para aquele famoso meio-termo. Tem gente que odeia, não se adapta, perde o gosto e vai embora. E quem fica, por vontade ou necessidade, faz de cada dia, um dia a se lutar. Quem tá em SP, tá acostumado com os tapas e os sopros da vida.

E nem tentem, detratores, falar de confusão na minha linha de raciocínio. Desde quando uma fala de febre de amor tem linearidade, começo e fim? Uma declaração apaixonada nada mais é que um emaranhado de pensamentos doidos que colidem, espirram, sujam e pedem desculpas, assim como as pessoas transitando pra lá e pra cá no horário de pico.

É trânsito, é enchente, é assalto, é barzinho, é balada, é negócios, é prédio alto, é centrão velho, é periferia, é marginal aqui e acolá, urbanismo inexistente, é festival, referência, é gastronomia e atendimento sem igual, é busão que chama por nome e não por número, é a vanguarda e é tradição. Tudo começa aqui, menos o catchup na pizza (só que a gente tem, sim, churrasco na grelha).

Choveu em São Paulo nessa semana toda. Como sempre acontece em janeiro. E eu adoro chuva. Odeio só ter que ficar molhado no ir e vir de casa, do trabalho ou do hostel. Mas de ficar na janela, olhando as gotas caindo, ouvindo o impacto no asfalto, no concreto e nos telhados, eu acho bom demais. Só é ruim quando os caras do bar resolvem sair no tapa enquanto eu tô vendo as luzes e a água da minha cidade.


publicado em 24 de Janeiro de 2012, 22:11
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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