Não gosto do meu pai | ID #59

Como a relação entre pai e filho desanda desde o início

"Gostaria que você falasse sobre porque alguns homens não se dão bem com o pai.

No meu caso, meu pai sempre fez tudo pra mim, ele não é dos mais carinhosos, mas sempre esteve presente dando apoio e mostrando preocupação.

Mas mesmo assim, ajo de maneira indiferente com relação a ele, não sinto a mínima conexão entre nós dois, tenho que me esforçar pra desenvolver uma conversa. Algumas vezes o ignoro e sinto raiva por motivos fúteis ou simplesmente sem motivo.

Esse sentimento não é uma coisa nova, vem desde a infância e sinceramente tem me incomodado bastante ultimamente, pois  não consigo descobrir a razão disso.

Durante conversas, alguns amigos também disseram não se dar muito bem com seus pais, alguns casos eram 'justificáveis' porém outros eram tão sem sentido quanto o meu.

Por que alguém seria indiferente ou teria raiva de alguém que só quer seu bem? E mesmo se esforçando para gostar não consegue?"

* * *

Caro Filho,

Vamos pensar juntos para ajudar você e milhares de homens que carregam esse fardo de trazer na memória afetiva um pai distante, alheio, autoritário, às vezes até bom, mas negligente e sem real conexão.

Os homens conseguem reconhecer o aspecto lamentável da maneira com que são educados quando param para pensar nos seus pais. Afinal, são homens como eles próprios e não é à toa que essa relação torta acontece com maior frequência do que com as mães, mulheres educadas para cuidar, acolher, tocar e se aproximar.

Prisão emocional de um pai de primeira viagem

Já falei das prisões emocionais masculinas e como elas criam um ponto cego na percepção dos homens, mas gostaria de descrever detalhadamente como um pai despreparado se constrói no mundo em que vivemos.

A notícia da gravidez é algo que o assusta. Ele sente um frio na espinha e sente como se uma bola de ferro foi repentinamente acorrentada à sua alma. Ele terá uma pessoa que depende dele emocional e financeiramente para o resto da vida, além de criar um vínculo perpétuo com a mãe da criança (que em última instancia ele nem sabia se seguiria muito tempo por perto).

Ele pensa em fugir. Alguns usam o pó de ninja e desaparecem, outros permanecem por causa da pressão social, contrariados e assustados. Ele até já tinha pensado em ter um filho, mas não naquele momento (com uns 74 anos talvez) e jura que queria fazer diferente do que o pai dele fez. Mas parece que a mesma maldição começa a rondar seus sentimentos.

A barriga vai crescendo, ele se alegra, mais ou menos, já não pode transar do jeito que gostaria, aquilo cria raiva, certa ansiedade do tipo "nasce logo que eu quero transar". Além disso, há a culpa por ter pensado uma bestialidade dessas (ainda que não admita que pensou). A gestação vai avançando e ele coloca o sorriso no rosto para não parecer chato ou insensível, ele não consegue ter essa conexão toda que a mãe tem e talvez culpe os hormônios ou o fato de não ter a criança no ventre, mas sua capacidade imaginativa só ganha fôlego no ultrassom.

A criança nasce, ele toma um susto, parece que um sentimento transborda, algo milagroso misturado com o desespero de não saber onde por a mão e os desejos. Ele começa a fazer uma função suportiva (quando faz) à mãe de seu filho e só consegue pensar em comprar a camiseta do time e jogar futebol com o "moleque". Mas a criança mal consegue segurar o próprio pescoço, o futebol terá que esperar e ele amarga uma espera de muitos anos só testemunhando aquela conexão visceral do seio-criança, enquanto ele fica com a parte chata. Nem se atreve muito a assumir para si a participação afetiva. Isso cria ressentimento na parceira e ele se afasta um tantinho mais.

De recuo em recuo começa a surgir um abismo. Aquela criança que teria a mesma predisposição de estender os braços para o pai só consegue fazer isso com naturalidade com a mãe. Para se defender dessa rejeição mútua ele adota uma posição mais enérgica, da autoridade que esbraveja e se faz "respeitar". Não consegue sequer nomear o que sente, apenas reage e entende que a contribuição financeira é o seu maior legado.

Ele terceiriza o seu amor na mesada, mas como não consegue trocar afeto, começa a controlar o dinheiro, quase que para submeter aquela criança que no fundo ele gostaria que o amasse. Ele se "conforma" oscilando entre uma tristeza que chama de cansaço físico com uma raiva que ele nomeia de disciplina.

O menino vai lentamente se transformando num jovem e não consegue olhar direito para o pai. Não entende o motivo, parece se sentir culpado por não amá-lo. Se tenta entabular alguma conversa mais profunda ouve resposta prática e conselhos estereotipados de como é ser "homem".

A verdade é que muitas vezes o pai nem sabe o que responder e se sente emparedado com essa fase nebulosa da adolescência. Aquele moleque faz perguntas que ele nunca se fez e que uma pesquisa no Google parece responder com mais propriedade.

O pai já não é fonte de afeto, de sabedoria, de inspiração e depois nem financeira. O dia dos pais parece um dia meio amargo, ambos não se conhecem, nunca trocaram paixões genuínas, talvez o futebol ou temas políticos e profissionais. O filho até sente algum orgulho do pai, mas talvez só por perceber que ele sobreviveu a um diabetes ou ataque cardíaco. 

Então o filho olha para outros homens inspiradores, líderes em suas áreas de atuação (profissionais ou religiosos) e projeta neles o que gostaria de ver em seu pai, um senso de integridade genuína (não a rigidez de quem seguiu normas) associada com liderança pelo exemplo de vitalidade. Parece que o único meio que o pai tem de gerenciar sua vida é com um copo de alguma bebida na mão, meio deprimente.

E isso causa aversão no filho, pois sem perceber já se sente meio anestesiado e se justificando sobre as próprias quedas por conta do exemplo paterno.

Sente raiva, culpa e medo por ter colocado a roda para girar nesse ciclo interminável de desconexão e falta de empatia. Se por ventura recebe uma notícia entusiasmada de que será pai, parece sentir com um frio na espinha que suposta liberdade que possuía é agora percebida como uma bola de ferro no próprio pé.

Acho que essa descrição, caro filho "sem" pai, ajuda a gente a entender um pouco porque parece ser difícil um abraço, uma conversa e uma vida do lado desse homem que você gostaria de chamar de guerreiro, mas que parece mais um sobrevivente.

* * *

Nota: a coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas). É apenas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão ampla, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta, leia as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa. Se ainda assim considerar sua dúvida benéfica, envie para id@papodehomem.com.br. A casa agradece.


publicado em 02 de Junho de 2016, 00:05
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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