Não leve suas algemas no próximo voo

Qualquer sujeito decente sabe que as algemas vendidas em casas de prazeres da carne são de péssima qualidade. Feitas de plástico, com pluminhas ridículas, se espatifam fácil. Foi com isso em mente e embuído da melhor das intenções, que adentrei uma loja de acessórios militares em Foz do Iguaçu.

Estava por lá a serviço, participando de uma convenção nacional da Natura. Trezentas gerentes regionais estavam sedentas por escutar "quem é o novo homem?", nós fomos escalados como espécimes debatedores tendo Marisa Orth como mediadora – isso por si só daria outro texto. Negócios à parte, adentrei no estabelecimento com itens militares e efetuei a compra da legítima algema de metal.

— Essa algema, quanto custa?
— R$39,90 . — respondeu a vendedora.
— Vou levar.

Ela me deu uma sacolinha enquanto observava o mancebo a meu lado. Era Rosalvo, meu amigo e fundador do Rei da Barba. A vendedora certamente tirou outras conclusões.

Corta.

No dia seguinte a Polícia Federal me para após o check-in. Como estava com uma daquelas sacolas do Duty Free argentino, deduzi ser algo rotineiro. Carregava nela uma tequila Patron, Kit-Kats, um perfume e um barbeador elétrico. Dentro da necessaire na mochila, as algemas. O sujeito do Duty Free me perguntou porque eu carregava algemas:

— Porque está com isso, é policial ou militar?
— Nenhum dos dois, é um presente.
— Hmmm, vou ter que chamar um fiscal da Polícia Federal. Isso é proibido. - disse ele, enquanto dava uma risada.

Chega o fiscal. Eu estendi a mão para cumprimentá-lo, ato solenemente ignorado. Reproduzo nosso diálogo, na íntegra:

— Por que está carregando isso? - perguntou.
— É um presente.
— Pra quem?
— Uma dama.
— Lazer?
— Lazer.
— Me acompanhe.

Me levou até uma sala particular, sentamos.

— Veja bem, não podemos cumprimentar os civis durante uma rotina de inspeção. Onde comprou essa algema?
— No lugar xpto.
— Elas vão ficar retidas. Nós vamos lá dar uma dura neles. Não podem ficar vendendo esse tipo de artigo.
— Retidas? Isso é uma infelicidade. Qual o motivo?
— Você não tem prerrogativa de cargo.
— Em que sentido?
— Não tem autorização pra entrar com esse tipo de artefato no avião. Pode fazer alguém refém. Uma pessoa não vai conseguir sair com essa algema.
— Essa é a intenção. Intenção do lazer, digo. Err... posso despachá-las como bagagem?
— Não, vão ficar retidas.

Dito isso, me levou até a saída e encerrou o contato.

Putaqueopariu, como fui juninho...

Na sequência, embarquei no avião uma algema e R$39,90 mais leves, com minhas pretensões putanhescas castradas pelo insensível fiscal aduaneiro. Vou ter que encontrar outro lugar em SP mesmo. Caralho.


publicado em 02 de Julho de 2011, 17:09
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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