Nem todo mundo é bonito e tudo bem

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Como todo mundo, frequentemente me deparo com histórias e imagens inspiradoras nas várias mídias sociais. Entre elas, o Facebook, ao que parece, é a mais melosa no que diz respeito a coisas que tocam o coração. Toda hora vemos esses posts queridinhos sobre gente superando fraquezas e grandes dificuldades para viver a vida de forma mais plena. Esse tipo de coisa que sua tia gosta de “curtir” e “compartilhar”.

Algumas vezes pairam na tela do computador como se fossem um gigantesco pôster de “história de sucesso”. Mas a maior parte do tempo até ficam do lado mais charmoso do brega, e raramente soam totalmente horríveis em sua quase fetichização do triunfo daqueles percebidos como “por baixo”. Ocasionalmente, no entanto, se apresentam como algo que creio ser claramente insalubre, e em geral isso ocorre quando estão focadas na aparência física.

Muitas vezes surgem imagens de menininhas ou jovens com doenças congênitas tais como a progéria, doenças que destroem seus corpos, e que fazem suas vidas cotidianas serem extremamente difíceis. Não há nada de errado com celebrar estes triunfos, mas há algo inerentemente errado na forma com que são apresentadas – vestidas em roupinhas arrumadinhas com o obrigatório “ela é tão bonita! Tão linda!” Os comentários, é claro, se esforçam em apoiar o máximo possível, e ecoam esses sentimentos. Na sessão de fotos inspiradoras do Facebook todos se mostram uma grande família unida, e todo mundo é bonito.

A finalidade de reforços desse tipo é clara: todo mundo quer se sentir atraente, adorável, e se apresentamos da melhor forma possível. Ninguém quer ser algo desagradável de se encarar. E quando nos sentimos belos, radiamos certo tipo de confiança.

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Essa confiança, é claro, nos deixa mais atraentes, mais divertidos. É um tipo de profecia autorrealizável, até que o mundo lá fora nos lembra que não somos, de fato, tão fisicamente atraentes quanto insiste algum grupo de apoio na internet ou uma pessoa que apenas quer nos consolar.

É fácil aceitar o fato de que a maioria das qualidades positivas não é universal. Quando falamos de coisas como inteligência, senso de humor, sagacidade nos negócios, habilidades interpessoais, e vários outros atributos que nos tornam interessantes, geralmente conseguimos aceitar que cada um de nós tenha fortes e fracos em termos destas qualidades. Seria ridículo implicar— ou dizer abertamente — que todos nós sejamos um gênio, ou um comunicador excelente, ou que sejamos dotados de uma capacidade enorme de ouvir o outro com empatia.

Parece estar resolvido que, embora seja possível deliberadamente melhorar a competência em certos âmbitos da vida, as pessoas não são dotadas de traços como estes em quantias iguais. Com relação a beleza física, no entanto, parece quase uma exigência dizer que toda pessoa – não importa que aparência tenha – é belíssima.

Claro, podemos argumentar que a “beleza” implica um apelo interior mais radiante, que torna quem quer que o possua uma visão aprazível. Mas sabemos bem que não há muitos reality shows de “total makeover” (mudança total de aparência) que operem no nível de reparação da alma. A beleza física é um fator visto como extraordinário, e todos nós, universalmente, o tentamos atingir de alguma forma.

É exatamente isto que separa mais claramente a beleza física de todos os outros traços que reconhecemos como não estando universalmente presentes: a ideia de que devemos constantemente reafirmar para nós mesmos, que somos, de fato, atraentes. Embora problemas de saúde, flutuações de peso, ou qualquer uma variedade de problemas possa impedir que manifestemos o melhor em termos do jogo da aparência, sempre nos é repetido, em primeiro lugar, que mesmo assim somos “bonitos.”

Mesmo quando se está profundamente deprimido, e, pelo menos temporariamente, se perdeu o interesse em manter o valor estético — somos “bonitos”. Não afirmamos algo sobre inteligência, ou sobre a capacidade de fazer algum trabalho, ou sobre como se é capaz de ouvir os outros, ou como os faz rir. Falamos da beleza, porque este é o bálsamo que aplaca a dor de qualquer ferida emocional. É a qualidade que todos supostamente possuímos, e que nos lembra que ainda temos valor.

No entanto, não interessa o quanto insistimos que uma pessoa é bela, há pessoas que nunca serão reconhecidas dessa forma pelo mundo. Há uma escala que vai de “horrível” até “deslumbrante” e a maioria de nós está em algum lugar entre os extremos. Mas todos nós, não importa onde a percepção da sociedade nos encaixe, vamos ouvir incontáveis vozes bem-intencionadas, vindas de todas as direções, dizendo que somos adoráveis.

Também teremos, sem dúvida, momentos em que perceberemos bem claramente como a sociedade nos vê. Não é segredo que para algumas pessoas que de fato são muito belas, num sentido universal, o tratamento que a sociedade lhes concede pode, de alguma forma, as arruinar. São tratadas com tanta ênfase no valor de sua aparência que acabam não desenvolvendo ou não prestando atenção a outras características pessoais que, quando o brilho físico empalidecer um pouco, se mostrarão mais essenciais do que nunca. Há pessoas para quem a retórica do “deslumbrante” é verdadeira, mas isso claramente tem seus próprios dilemas.

O problema, claro, não diz respeito a sermos arruinados pela beleza ou sermos estapeados por não a possuir logo ao cruzar a porta – o problema está totalmente no peso que a sociedade coloca nela em primeiro lugar. O fato de que crianças (especialmente garotinhas) ouvem quase incessantemente que grande parte de seu valor como pessoa está na aparência – e que essa forma de pensar é repetidamente reforçada, com as melhores intenções, ao longo da vida – esse é o problema.

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Dizer que se pensa que alguém é bonito porque honestamente se acredita nisso é uma coisa, sentir a necessidade de dizer isso porque se trata de um certificado que consideramos necessário ter que passar a todos de forma a confirmar seu valor, isso é bem outra coisa.

Não me irrita que as pessoas postem vários comentário sobre como “bela”, “adorável” ou “bonita” é a garotinha sofrendo de leucemia ou progéria na minha linha do tempo do Facebook. Sei que os corações estão nos lugares certos, e que eles realmente veem beleza na força  e felicidade perante a adversidade. Sei que todos – o comentador, a pessoa que postou a foto, e mesmo a garotinha – se sentirão mais felizes com isso.

O que de fatome irrita é que quase ninguém se esforça em conhecer qualquer coisa sobre a garota (o que ela gosta de comer, seus livros favoritos, um talento ou passatempo que ela possa ter), nada além do fato de que ela é fofa sorrindo naquele chapéu florido. Seu esforço em ir para a escola, desenvolver um senso de humor, engajar-se em atividade extracurriculares — estas são todas coisas claramente mais impressionantes do que a capacidade de se “ter boa aparência” enquanto sofre de uma doença dessas.

E ainda assim, ficamos satisfeitos de confortá-la afirmando que continua adorável. Isso vai realmente evitar que um colega provocador faça um comentário desagradável sobre sua pele, ou sobre o fato dela ser careca? De forma alguma. E nossa obsessão com sua aparência não fará esse comentário doer ainda mais, uma vez que lhe foi incessantemente ensinado que seu maior valor está na aparência? É bem possível.

É razoável pensar que o realismo sobre a própria aparência é possivelmente uma das melhores coisas que podemos fazer por nós mesmos em termos cotidianos. Seja sob o ângulo de reconhecer que talvez se tenha que trabalhar mais duro do que uma pessoa mais atraente ou alta para obter os mesmos resultados, que desenvolver outras partes da personalidade apenas aumentará sua chance de sucesso ou felicidade na vida, ou simplesmente reconhecer que a beleza que se tem hoje não vai durar para sempre – temperar as expectativas com relação à aparência física pode fazer com que lidar com a vida cotidiana se torne mais fácil e que ela se torne menos cheia do estresse de tentar se ater a um padrão de beleza impossível.

Vemos mulheres de reality show que, em seus quarenta ou cinquenta anos, se voltaram a cirurgias plásticas, tentando puxar e cortar aqui e ali para voltar a sua beleza juvenil. Vemos essa situação e ficamos desconfortáveis, não só porque acabam não parecendo jovens (só mais puxadas), mas porque há certa tristeza em seu apego por algo que cedo ou tarde todos perdem.

Quando vemos o desespero por beleza e afirmação física se apresentando de forma tão visualmente impressionante e imediata, não há como nos equivocarmos quanto ao dano causado pela necessidade de se ser “belo”. Podemos ver como isso nos aleija e nos torna invejosos, até mesmo temerosos, perante que reconhecemos como mais bonitos – e como isso dissipa nosso desejo de desenvolver outros aspectos que não sejam tão dolorosamente efêmeros.

Não há nada errado com querer se sentir bem sobre si mesmo, mas há algo claramente insalubre em fazer a felicidade depender tanto da aparência. A verdade é que nem todo mundo – nem mesmo são a maioria – é visto pelo mundo como “belo”, fisicamente falando. E tudo bem com isso. De fato, alguns dirão que o melhor é abandonar essa dependência da aparência o quanto antes, porque ela claramente não vai durar, de todo modo.

Mas talvez devamos considerar bem antes de fazer elogios, de não tornar nosso principal elogio o quão “adorável” alguém é. Somos muito mais do que nossa aparência, e é uma vergonha nos permitirmos pensar que ao constantemente nos afirmarmos bonitinhos, e afirmarmos que os outros são, que com isso estejamos fazendo qualquer favor no longo prazo a quem quer que seja.

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Nota da tradução: este texto foi originalmente publicado no Thought Catalog e publicado sob autorização da autora.


publicado em 15 de Novembro de 2014, 11:29
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Chelsea Fagan

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