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Nenhum motivo para explodir um prédio

Nehum mesmo

A praia estava vazia e estaria completamente escura não fossem os faróis do carro que atiravam dois feixes de luz meio amarelos na origem, mas brancos na extensão em que tocavam a areia. Meus olhos perdiam e encontravam a cachorra no horizonte de acordo com a sua posição em relação aos faróis.

Quando a enxergava, era a silhueta contente de quatro patas que saltavam na areia próxima à água, sem nunca ultrapassar a linha em que as ondas morriam e voltavam com o repuxo, deixando para trás quantidades ínfimas de uma espuma branca, galhos, conchas e algas, mas nada disso eu enxergava à distância. Nem tentava. Fiz um mínimo esforço para lembrar quando tinha visto ela movimentar tanto as quatro patas desde que ficara cega. Não lembrei.

Fiquei receoso de que morresse por exaltação ou coisa parecida.

Preocupação que seria suprimida por um assobio para chamá-la, possível a qualquer momento, com quaisquer dois dedos de qualquer uma das mãos; mas mantive os tênis firmes em cada uma delas e afundei os pés na areia ainda macia àquela distância do mar. Não queria a cachorra por perto, e não queria privá-la daquele momento. Se ela morresse por isso, minha consciência estava, desde já, em estado de aceitação. Meu senso de justiça estava adormecido desde o início da manhã anterior e estava longe de ser acionado no instante em que entrei no carro, acessei a interestadual e saí de Porto Alegre rumo ao litoral gaúcho.

A sensação da areia gelada em contraste à recente liberdade da pressão e do calor das meias e dos tênis fazia formigar os tendões da canela, livres do elástico que, até minutos atrás, impedia a plena passagem do sangue. As lentes de meus óculos estavam sujas. A cachorra seguia correndo em círculos a passos aleatórios.

Ela ficou cega primeiro de um olho, e dois meses depois parou de funcionar o outro. Logo que percebi a cadela dando focinhadas nas paredes e móveis e no portão de frente da casa e em mim, conversei com Alice, uma veterinária que conhecia das noites e a quem sempre concedia cigarros que ela insistia em crer que gostava, mas apenas os beijava desajeitada para então atirar, de forma desengonçada e dispersa, a fumaça nos narizes de todos em volta.

A clínica da Alice era lá para os lados da Assis Brasil, mas nunca chegamos a consultar. Nos contentamos com o diagnóstico por telefone de que poderia ser catarata, glaucoma, doenças de retina, ou lesão na córnea; como ela disse antes de perguntar se a Rafi — que era o nome da cachorra e achei generoso que Alice a tratasse pelo nome — tinha se envolvido em alguma briga, e qual era a idade dela; e para as duas perguntas eu respondi que, até onde sabia, não, e até onde eu sabia, de novo, cerca de doze anos. Primeiro porque a cadela estava sempre pulando o muro de um metro que circundava o terreno da casa para passar as tardes na rua enquanto eu trabalhava do outro lado da cidade, se brigou alguma vez, nunca teve registrada marcas de sangue que eu pudesse notar.

A idade me era incerta porque a cachorra já era grande quando, um dia, eu abri o portão e ela entrou junto. E ficou. Já havia passado oito anos desse dia, os outros quatro anos eu atribuía intuitivamente à maturidade de respeitar meu espaço que Rafi transmitiu desde o primeiro dia. Pode ser alguma doença transmitida por carrapato ou só velhice mesmo, a Alice falou.

Agradeci e desliguei. Naquele momento, a fadiga era parceira dos meus dias. E os motivos desse cansaço inerente podiam ser tantos quanto os da cegueira da Rafi, mas nenhum se apresentava em um diagnóstico tão lógico por uma breve ligação.

Seria bom, durante o banho, descobrir um carrapato atravancado em meu couro cabeludo sugando rastros de ânimo e objetividade que saíssem com o xampu e escorressem pelo ralo até o dia em que eu não aguentasse mais continuar acordando diariamente após quatro despertadores espaçados de quinze em quinze minutos para esperar de vinte minutos a uma hora um ônibus que podia ou não chegar para, então, finalmente, desembarcar, caminhar seiscentos metros, acessar o prédio com o crachá no leitor digital e sentar em uma cadeira sob dezesseis lâmpadas fluorescentes que davam ao ambiente um toque irretocável de clínica de aborto.

II.

Era uma Porto Alegre vazia quando o prédio explodiu. Aquele edifício havia sido arquitetado tão rápido quanto os interesses da financiadora de preenchê-lo com escritórios de advocacia, dentistas, psiquiatras e corretoras de seguro, e uma agência de publicidade descolada que teria um cachorro de estimação. Um cachorro que nunca ficaria cego, claro. Primeiro, achei que esse exercício de projeção era outra maneira de empurrar o cotidiano com a barriga então não sei o exato instante em que a fagulha de inconsequência e tensão pré-apocalíptica que eu vinha respirando em forma de um diagnóstico-não-muito-sofisticado de depressão se acendeu.

Todos os dias, nos seiscentos metros que caminhava pela Avenida Independência do ponto de ônibus até o trabalho, a única coisa que podia enxergar de qualquer ponto do trajeto era o monumental e tenebroso empreendimento comercial — como eles gostavam de chamar. Vinte e cinco andares levantados no mesmíssimo local em que costumava existir o teatro da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Não me entenda rápido demais: minha obsessão em nada estava ligada à revolta cultural. Apenas comprei a ideia de que havia esgotado a paciência para examinar outras alternativas interessantes para aplacar a existência.

Tudo que precisava era estar convencido da própria estupidez. E nisso, a internet teve papel fundamental. Duas pesquisas no google e se descobre como acessar a deep web. Mais duas pesquisas e se domina o mecanismo básico de funcionamento. Mais duas, agora já dominando preliminarmente a ferramenta, e lá está: informação suficiente para preparar uma surpresa que faça explodir auditórios, circuitos internos de TV, elevadores, estacionamento rotativo, gerador de luz, portaria vinte e quatro horas, salas de reunião, acesso para catracas com biometria, salas comerciais padrão premium, lojas térreas e todo combo que acompanha o pacote.

O prédio nem fora inaugurado e nunca precisaria ter ajuste na taxa de condomínio, ou se preocupar com qual fornecedor de conteúdo iriam preencher as imagens das telas do elevador, ou o que fariam com aquele vigia que estava liberando algumas vagas para seus conhecidos ou com qual postura lidar com os estagiários da agência publicitária que riscavam Morte ao sistema nas paredes do banheiro comum do edifício. Nada. Todas as possíveis intempéries estavam resolvidas.

O ouvido esquerdo foi misericordioso e desentupiu enquanto eu me afastava do farol do carro e caminhava para mais perto do mar e da cachorra. O ouvido direito havia alcançado a façanha de se abrir para o mundo quando parei num posto de gasolina, logo antes do túnel formado por inúmeros eucaliptos nos acostamentos da RS-040 que se entrelaçam por cima para formar o espaço de quase dois quilômetros, chamado de túnel verde, local em que sazonalmente meu pai solicitava que minha mãe encostasse o carro para que mijasse no pé de uma das árvores.

Uma tradição que naquela noite fiz questão de seguir, após comprar duas cervejas e um pacote de fósforos no posto.

As cervejas para mim, os fósforos pela incerteza de ter energia elétrica na casa que meus pais foram locatários durante os verões de 1989 à 1997. O posto de gasolina não tinha velas para vender, mas eu nem sabia se a casa ainda existia; e se existisse, como iria entrar nela; e se entrasse, quais eram as possibilidades de ser habitada agora pelos proprietários já idosos o suficiente para terem tomado a decisão de viver seus últimos anos em uma praia abençoada com uma mesmice cíclica incomparável; mesmo quando repleta de gente durante o verão. Pensei que isso era problema para mais tarde, o que me deixou entusiasmado por estar tratando ou destratando de alguma forma os problemas imediatos resultados de escolhas, ainda que incoerentes ou inconsequentes, feitas por mim.

Estacionei, abri a segunda cerveja e enquanto mijava em um eucalipto, olhei para trás para me certificar de que a cachorra continuava dormindo no banco do carona. A bexiga sendo esvaziada e o sono firme da cachorra dentro do carro e o cheiro das árvores e o efeito de uma garrafa de cerveja no estômago vazio me deixaram sem opção a não ser sorrir.

Onde o farol do carro estacionado na entrada da praia começava a perder a potência luminosa, eu parei de caminhar. Esse era o ponto intermediário entre o carro e o mar. A noite era daquelas em que o verão se precipita e despenca seu calor em pleno setembro, mas na beira da praia, às duas da madrugada, o vento intenso tem potencial para diminuir pouco a pouco a temperatura corporal. Mais trinta minutos e estaria tremendo de frio; motivo que me convenceu a não avançar mais, parei ali, era melhor que não molhasse os pés. Era melhor que deixasse a cachorra correr mais um pouco.

Eu não tinha mais trinta minutos. Quando se empreende uma explosão a um estabelecimento comercial dessa ordem, baseado em valores e má administração de valores morais, as consequências pesam, mas não somam ao peso do desentendimento perante a vida. Até onde eu sabia, a construção estava quase pronta e completamente vazia, mas, então, pensava na possibilidade de um senhor que após meses de desemprego, tinha assinado a carteira em uma equipe de segurança privada, dessas que trabalham em quase todos os condomínios comerciais.

E, por agora, um segurança era o suficiente, esse senhor, recém-contratado, podia estar lá quando o conjunto de explosivos colocados junto aos pilares do estacionamento no subsolo causaram o estardalhaço todo que eu assisti de dentro do carro, estacionado no outro lado da rua. Procurei a cachorra mas o pensamento não se afastou. Por isso, quando vi os dois faróis vindo na direção de onde estaria a plataforma de pesca da praia, achei que pudesse ser a polícia.

De imediato corri até o carro e desliguei todas as luzes possíveis. Respirei fundo e senti o desespero tomar conta primeiro da respiração e depois das pernas. Foram dois segundos em que analisei conturbado as opções. Ligaria o carro e sairia imediatamente dali.

Percebi a ausência da cachorra quando contemplei pelo vidro frontal a escuridão densa de um céu de nuvens pesadas o suficiente para encobrir a lua e as estrelas. O estômago se embrulhava quando desci. O carro estava agora há menos de um quilometro, e apesar de agora ter certeza que não era nada comigo, a voz não saiu quando, com a porta aberta e metade do corpo pra fora, abri a boca para gritar por Rafi. Imediatamente coloquei dois dedos na boca; ela sempre respondia aos assobios, mas nem isso consegui fazer, pois as mãos cheia de areia das solas do tênis me fizeram apenas cuspir para o lado.

Em 1999 quando o divórcio de meus pais fez aniversário de dois anos, minha mãe já tinha superado a fase da bebida e do sexo casual. Era uma mulher firme, mas gostava de homens perturbados, e houve um verão em que se envolveu com um desses caras que tem carros rebaixados e o banco traseiro mais porta-malas abarrotados de caixas de som que repercutem batidas graves o suficiente para tremer os vidros de três casas. Espremido entre as caixas de som do banco de trás, eu achei o máximo quando, fora de época, aquele namorado da minha mãe, que era Jorge ou Márcio, nos fez subir no carro e nos levou à praia no final da tarde para aproveitarmos um dia abafado de setembro. E quando o sol caiu, entramos todos no carro, e na escuridão da praia ele acelerou pela areia, passou marchas, ganhou velocidade e puxou o freio de mão para fazer o carro girar sobre o próprio eixo. Fez isso repetidas vezes antes de perguntar se minha mãe queria tentar. Ela disse que não, achava perigoso. Que perigo tem uma praia vazia?, ele disse.

Eu ouvi o som abafado dos graves dissipados no ambiente aberto só quando ele estava muito perto. O vento estava no sentido contrário e impediu que ouvisse a música antes. Eu estava de novo entre o meu carro e o mar quando um desses caras como o Jorge ou Márcio, diminuiu uma marcha, puxou o freio de mão e girou a direção completamente no outro sentido. Eu nem vi acontecer. A cachorra também não viu. E depois a praia ficou completamente escura.

Obs.: originalmente publicado no Medium do autor.


publicado em 21 de Dezembro de 2016, 00:00
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Sergio Trentini

Cursou psicologia, administração e jornalismo. Não terminou nenhuma das três. A última já passou da metade, e essa, jura que vai acabar. Assim como todas as histórias que começa a escrever. Escreve lá no Medium


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