Nunca é um jogo qualquer

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Acordo atrasado. Já passa de 14h de um sábado escaldante. Ponho a tralha dentro no carro, um par de tênis velho, meias, camiseta e bermuda sobressalente.

É dia de jogo.

Parto rumo ao destino e chego minutos antes da coisa toda começar. Me convocam num canto e entregam aquela camisa laranja com o numero 89. O tecido sintético só aumentava o calor. Saio apressado do vestiário e vou em direção aos caras. Nenhum deles parecia saber exatamente o que estava fazendo ali e nem ter ideia de como aquilo terminaria, mas todos pareciam prontos.

16h. O sol não dava tréguas. Era nossa hora. Sorrisos e expressões preocupadas povoavam nossas faces. O meu, além de ressaca, era de pura preocupação. Um de nós parou e chamou os outros para uma roda. Foi nesse momento que tudo começou a fazer sentido. Ele nos olhou e começou a fazer um discurso desproporcional à ocasião. Porém, cada palavra e gesto exagerado era compreendido. Frases que começavam tímidas e até um pouco envergonhadas foram ganhando força e atitude. Falavam de justiça, de honestidade, de hombridade, de amizade, de honra.

Eu olho pra vocês e vejo homens. E lá fora, na arquibancada, vejo a filha do Glauber, a esposa do Junior, a namorada do Fernando, pessoas que vieram até aqui por nossa causa. Não é hora de passar vergonha. Vamos jogar por eles. Essa camisa laranja não representa nada em nossas vidas, mas quem vai usa-la será cada um de vocês. Se eles quiseram jogar sujo, foda-se, nós vamos entrar lá e fazer o nosso melhor.
Podemos perder. Foda-se o campeonato, foda-se tudo isso. Mas se for para perder, vamos deixar sangue nesse campo. Não vamos nos entregar. Vamos ajudar o amigo quando ele precisar. Hoje é o dia de tirar esforço da puta que pariu. Vale a nossa honra.

Ali, naquela roda, desapareceram trabalhadores comuns do dia a dia. Entre os companheiros de mesa e boteco e surgiram zagueiros, meio campos, goleiros, centroavantes, laterais, pontas, volantes, titulares e reservas.

Surgiu um time.

Não importava se o campeonato era de várzea, se o campo era ruim e se do outro lado haviam jogadores inscritos irregularmente. Ali dentro não seríamos humilhados. Se caíssemos, ia ser de pé.

Entramos em campo e assumimos as nossas posições. Nos olhos a cumplicidade daqueles que ouviram as palavras como uma convocação.

Todos posicionados. Bola no circulo central. Apita o juiz.

Naquele dia perdemos de 12x0.

Pastelaria Futebol Clube

publicado em 20 de Dezembro de 2011, 11:10
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Calixto Neto

26 anos, publicitário, cuiabano e insiste em acreditar que tem sotaque carioca. Fã de uma boa conversa e de uma boa cerveja, sonha em ser dono de botequim só para poder andar com um paninho no ombro e lápis atrás da orelha. Atende no @calixtobn.


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