O amor que já se foi | Do Amor #4

Quando o amor é tanto que nem vemos as pessoas ao redor

  • Nossos atuais Mecenas:
  • Vivara130x50 jpg
  • Selo dorel jpg

Ela sempre achou sexy demais. Eu achava meio triste, mas gostava de vê-la com as cadeiras soltas quando tocava essa do Elvis. Então eu fui até a jukebox e coloquei para ela escutar. Voz e guitarra, o grave de Heartbreak Hotel ecoou por todo o bar. 

Na ponta do balcão ao lado, uma mulher me deu um sorriso e acenou positivamente com algum drink na mão, desses enfeitados com algum palito, alguma fruta. Mas nem deu tempo de eu retribuir o aceno, já que voltei rapidinho rapidinho na minha mesa para pegá-la com os olhinhos fechados e ensaiando um remelexo enquanto cantava baixinho "I get so lonely I could die".

Eu sempre fui louco por ela, especialmente naquela noite, enfiada em um shortinho preto, as pernas nuas, musculares, blusinha sem sutiã e uma jaquetinha de couro por cima. Brincos grandes e um coque exibido no alto da cabeça. Ah, a nuca dela exposta, o queixo pungente, pontudo que deixava seu sorriso ainda mais oblíquo, sempre malicioso.

Ela arriscava algum rebolado sentada, eu pedia mais uma rodada pra gente, a clássica. Era sempre uma cerveja grande, pra nós dois, e um copinho da cachaça da casa para ela. Esquentava a goela com o destilado e esfriava com a cerveja. E me ria um riso sempre hipnótico. Naquela noite ela estava me contando o quanto era apaixonada por mim, como a gente fazia bem um para o outro. Eu apenas acenava com a cabeça e deixava as ideias dela preencherem o espaço da mesa, seus gestos com a mão segurando o copo, o olhar tímido de quem se abre demais e olha para a mesa, a coragem de olhar nos meus olhos depois de contar o que apenas se sabe, mas pouco se diz. Abriu de todo o coração suas coisinhas e me deixou suspirando.

Que mulher, gente. Que mulher.

A garota que estava sentada no canto do balcão passou por nós e olhou novamente. Mas eu não conseguia me desprender da imagem dela. "E aí? Mas a gente vai ficar só conversando ou você vai pular para este lado da mesa e me dar um beijo?". Ela perguntou isso provavelmente se antecipando em marcar algum tipo de território e me fez rir. A essa altura do campeonato já deveria saber que não havia chance alguma para qualquer outra pessoa.

Eu estava completamente fisgado.

"Mas espera. Antes de você me atacar, eu preciso ir ao banheiro... retocar a maquiagem". Se levantou e rumou ao toalete feminino. No caminho, as duas garotas do bar se cruzaram. Uma delas, a que tomava drink de fruta no balcão, sumiu pela porta de entrada, indo para algum outro lugar que eu nunca saberei qual é. A outra, a minha garota, sumiu quando a porta do lavatório se fechou na minha frente.

Meus olhos pesaram e parecia que o ar entrando nos meus pulmões se agarrava e não queria sair. O peito pesado. Mão na testa, dois murros na mesa. Chamei o garçom e pedi a conta e a saideira. "Uma cerveja, por favor". Dispensei a cachaça porque, afinal, não havia ninguém para bebê-la comigo, já que havia mais de dois anos que ela terminou o nosso namoro.

 

O amor é um fantasma que aparece de quando em quando.

E faz a gente vacilar.

O livro Do Amor está à venda!

Gente, finalmente o livro Do Amor está pronto e no jeitinho pra ser vendido! Quer um? É só entrar na minha página do PagSeguro e fazer a compra! O livro está com o preço de R$39,90, mais nove reais para o custo de frete por item!

Qualquer coisa, me chama no Instagram (@jaderpires) ou manda e-mail pra jader@jaderpires.com.br pra eu te enviar um exemplar com dedicatória bem bonita e tudo.

Beijo!

Assine a Meio-Fio, a newsletter do Jader Pires

Pessoal, saiu hoje mais uma Meio-Fio, minha newsletter semanal com contos e crônicas, mais um monte de coisa boa, recomendações e links que vou pegar por aí. 

Sempre às sextas, vai chegar quentinho no seu e-mail. Basta se cadastrar com nome e e-mail aqui.


publicado em 03 de Abril de 2015, 00:00
13350456 1045223532179521 7682935491994185264 o

Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Nossos atuais Mecenas: