O "B" de LGBT

Aqueles que não estão confusos.

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Nos últimos tempos a gente conversou muito sobre causas importantes aqui no PdH; batemos um papo sobre questões que merecem um espaço enorme de discussão no coração de cada um de nós. Eu sei que esses assuntos em excesso podem se tornar maçantes, mas, especialmente hoje, peço licença pra compartilhar algo que é muito importante pra mim e pra várias outras pessoas.

Essa é uma história sobre a Marina. 

Marina namorou um homem por quatro anos e foi muito feliz. Eles dividiram a batata frita do metrô, correram atrás do ônibus errado e deram risada até se beijarem. Transaram na sala, na cozinha, no quarto, fizeram planos.

Depois de algumas questões e vários tempos ruins, Marina resolveu terminar o namoro.

Sete meses, oito festas e alguns encontros depois, Marina se apaixonou por Amanda. Elas conversaram sobre os almoços de domingo com a família, sobre os professores que cuspiam enquanto falavam, riram das fotos de RG, dividiram as contas do bar, encostaram o pé gelado nas costas uma da outra, foram conhecer um restaurante vegano no centro da cidade. Transaram na sala, na cozinha, no quarto, estão fazendo planos.

Marina não sente falta de um homem enquanto está com uma mulher.

Marina não saiu de um relacionamento hétero para um lésbico.

Marina não é mais propensa a fazer ménage

Marina não quer chamar atenção

Marina não está perdida.

Marina não é indecisa.

Marina é bissexual.

Marina existe.

E ela faz questão de repetir isso porque se recusa a ser invisível.

Hoje, 23 de setembro, é o dia mundial da visibilidade bissexual e várias questões continuam sendo ignoradas.

O “B” de LGBT ainda é sufocado como se fosse uma fase de transição, um período de incerteza; e isso ronda o imaginário tanto do vale dos homossexuais quanto dos héteros. 

Mas somos muitas Marinas. Somos famosos e anônimos. Carlos, Carolinas, Brunos e Alines. Somos muitos e as histórias são, provavelmente, muito parecidas. 

Ilustração de Carol Rossetti
 
 

Todas as cores do arco-íris

A coisa toda começa na heteronormatividade. Quando se cresce em um mundo no qual o casal homem e mulher é lido como o óbvio, imaginar outros cenários não é uma tarefa comum. Os pares românticos das novelas, dos filmes, dos desenhos, das ruas: é como se fosse um molde a ser seguido. E não há nada de errado em ser hétero: mas não deveria haver nada de errado em não ser. 

O simples ato de pensar, falar baixinho e reconhecer pra si mesmo que aquele molde não cabe em quem você é, já é um pesadelo dos grandes. Porque você sabe que vão querer te fazer caber lá. 

Magenta, lavanda e azul

23 de setembro é o dia mundial do orgulho bissexual

Uma vez se enxergando dentro da bandeira LGBT surge, para alguns, a necessidade de ir além. Foi assim com Mariana. Ela sabia que não era hétero, mas também sabia que não era lésbica. E muitas das dificuldades desse caminho nascem por conta do guarda chuva monossexual sob o qual vivemos, ou seja: a crença de que só é possível se atrair por um sexo. 

É aí que a história dela começa a ter os tons de confusão que tanto gostam de aplicar à sua orientação. O namoro  com um homem durou um baita tempo, já estavam até colocando ela no véu e grinalda. Mas terminou. Quando ela começou a namorar Amanda, todos ficaram confusos.

Todos, menos Marina. ​

​Não demorou muito pra ela ouvir as primeiras "piadas" sobre fidelidade.

"Não vai sentir falta de uma fruta quando estiver comendo a outra?"

 A ideia de que uma pessoa não monossexual está a procura do melhor de dois mundos, ou de que é incapaz de estabelecer uma relação monogâmica, é tão falsa quanto a falácia do bissexual nascido para ménage, muitas vezes vendida por filmes pornôs e disseminada culturalmente.

Essa é outra das grandes máscaras que empurram no rosto de Marina: a suposta predisposição em realizar fetiches, transas a três e todos os tipos de experimentações sexuais possíveis.

Transar a três ou tornar real a fantasia do seu parceiro/parceira não tem absolutamente nenhuma relação com orientação sexual. Não é legal supor que, só por ser bi, uma pessoa está mais propensa a fazer aquela posição do kama sutra ou aceitar outro companheiro no relacionamento. 

Pra ser bissexual não é necessário fazer uma carteirinha que preencha esses requisitos, entende? Nem esses, nem outros. A Marina pode estar em um relacionamento monogâmico, poliamoroso, com uma mulher, com um homem, com quem e como ela quiser. 

Acho que o grande lance é entender que, ao conservar certos esteriótipos, as pessoas ajudam a invisibilizar cada vez mais o "B" de LGBT, seja na roda de amigos, no trabalho, na família ou nos relacionamentos amorosos. 

Esse link, por exemplo, tem um apanhado de coisas que bissexuais vivem escutando e não aguentam mais.

Caso você tenha se identificado ou só esteja curioso, quero compartilhar esse vídeo, que pode ajudar a tirar muitas dúvidas e dar informações concretas, além de ser um bate papo super legal sobre o tema.

 

Deixo pra vocês meu abraço cheio de purpurina, junto do desejo de que esse texto se torne cada vez mais desnecessário.


publicado em 23 de Setembro de 2016, 14:37
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Carol Rocha

Leonina não praticante. Produziu a série Nossa História Invisível , é uma das idealizadoras do Papo de Mulher, coleciona memes no Facebook e horas perdidas no Instagram. Faz parte da equipe de conteúdo do Papo de Homem, odeia azeitona e adora lugares com sinuca (mesmo sem saber jogar).


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