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O caso Eluana Englaro e a discussão sobre Eutanásia

A batalha judicial que ocorre na Itália atualmente reacendeu a discussão sobre a eutanásia, algum tempo após o caso Terri Schiavo. O cenário não poderia ser mais perfeito para uma discussão desse nível, um país católico que abriga o Vaticano, altamente tradicional, e no momento regido por um governo conservador.

O caso Eluana Englaro

Em 1992, a jovem Eluana Englaro, então com 21 anos, sofreu um grave acidente automobilístico. Entrou em estado vegetativo e sobrevive “à base de aparelhos”. Coloquei o termo entre aspas pois eu não vi a paciente, além de que normalmente fica à base de aparelhos aqueles pacientes com morte cerebral constatada (Ex: A jovem Eloá, assassinada pelo ex-namorado Lindenberg, poderia ser mantida com as funções vitais à base de aparelhos, porém jamais recobraria a consciência).

Seu pai, Beppino Englaro, trava uma batalha judicial contra um sistema conservador, no afã de abreviar o sofrimento da filha. Recentemente conseguiu uma liminar que garantiria o direito de suspender gradualmente a alimentação e hidratação de Eluana, o que culminaria com sua “morte”.

Como de praxe, o Vaticano levantou a voz contra tal decisão. E querendo fazer uma média, o “honesto e íntegro” governo do dublê de 1º ministro e dono do Milan tenta aprovar uma medida impedindo a eutanásia de Eluana. O presidente Giorgio Napolitano já acenou que não assinará a medida.

Aliás, eu faço um questionamento sobre a posição do Vaticano, pois me lembro perfeitamente que não foram feitas tentativas de prolongar a vida do Papa João Paulo II, caracterizando a chamada ortotanásia. No popular: No dos outros é refresco, não é, Senhor Ratzinger? Ué, a posição da Igreja não é a manutenção da vida a todo custo?

Por que não colocaram o então Papa ligado a aparelhos?

Pesquisei alguns fóruns de discussão na Internet sobre o assunto. Vi basicamente 3 tipos de opinião:


  • A laica/ateísta, que não considera o que se passa com Eluana como vida, dizendo que na verdade ela morreu há 17 anos atrás.

  • A cristã/religiosa, dizendo que só Deus tem direito a tirar a vida.

  • E uma que me surpreendeu, a espírita, que justifica sua posição contrária, dizendo que tudo o que passamos na Terra faz parte de um karma, uma provação, algo que precisa ser “vivido” para atingir-se a elevação do espírito.

A grande questão: vale a pena viver sem poder sair da cama?
A grande questão: vale a pena viver sem poder sair da cama?

Cheguei à conclusão que não dá pra impor seu ponto de vista, pois todos partem de premissas diferentes. Não adianta eu expor meu ponto de vista para um cristão, dizendo que o Deus dele já tirou a vida de Eluana há 17 anos. Não adianta alguém tentar me convencer que isso que se passa com ela é vida. Eu ainda ousaria argumentar que a vida dela pode continuar, no corpo de outra pessoa. Por que não doar os órgãos dela após a “morte”?

Outro argumento é o clássico “Você já viu quantas pessoas acordam de um coma prolongado?”. Já. Conto nos dedos.

Em compensação, o que ninguém comenta (até porque não dá notícia) é que para cada caso desses, existe mais um trilhão de outros similares que o paciente não acorda mesmo. Francamente, no meu entender uma exceção não pode justificar a regra, ainda mais uma exceção que ocorre em porcentagem irrisória. Mas como a regra não dá Ibope, o noticiário faz parecer uma situação comum. Numa situação desesperadora como a de ter um parente nesse estado, muitos podem tentar se agarrar a qualquer fio de esperança. O que me leva ao próximo ponto, a vontade individual.

Na França. O caso Vincent Humbert.

Citarei aqui o caso do francês Vincent Humbert, que levou toda a sociedade francesa a rediscutir a lei local sobre eutanásia. Vitima de um grave acidente automobilístico aos 19 anos, em 24/9/2000, Vincent ficou tetraplégico, mudo e cego, e só conseguia movimentar um de seus polegares, com o qual se comunicava com a mãe. No auge da discussão, Vincent “escreveu” uma carta ao então presidente Jacques Chirac, pleiteando o direito de morrer e solicitando a descriminalização da eutanásia.

Em 2003, Vincent escreveu - com auxílio de um jornalista - um livro, intitulado “Eu lhe peço o direito de morrer”, no qual dizia:

“Eu nunca verei este livro porque morri em 24 de setembro de 2000.... Desde aquele dia, eu não vivo. Me fazem viver. Sou mantido vivo. Para quem, para que, eu não sei. Tudo o que eu sei é que sou um morto-vivo, que nunca desejei esta falsa morte"

Diante do desejo de seu filho de se ver livre do sofrimento provocado por sua condição, Marie Humbert, no mesmo dia do lançamento do livro de Vincent, teria misturado aos alimentos ministrados a Vincent através de uma sonda uma mistura de barbitúricos, que teriam provocado o coma e morte do jovem um dia depois do lançamento do livro.

Foi presa e aguarda julgamento em liberdade.

Para alguns juristas, apesar do caso configurar crime perante o ordenamento jurídico francês, há que se aplicar a ponderação de princípios. De um lado, o direito à vida. De outro, a noção de dignidade humana, que foi retirada de Vincent no momento do acidente, e sendo assim, a admissão do sacrifício do direito à vida em prol da dignidade humana seria uma boa solução para esse choque de princípios.

A máquina de eutanásia foi usada entre 1995 e 1997 na Austrália. Os pacientes respondiam um questionário que definia se ele estava de fato ou não pronto para o ato.
A máquina de eutanásia foi usada entre 1995 e 1997 na Austrália. Os pacientes respondiam um questionário que definia se ele estava de fato ou não pronto para o ato.

Com isso, passou-se uma lei protegendo a ortotanásia para pacientes terminais.

O caso Chantal Sebire

Porém, tal lei mostrou-se insuficiente, como viria a comprovar o caso da professora Chantal Sebire (link com imagens fortes, cuidado).

Portadora de um tumor raro que causou deformidade horrenda e intratável em seu rosto, também perdeu olfato, paladar, visão e sentia dores atrozes. Ciente da intratabilidade e de seu sofrimento, Sebire entrou com um pedido de eutanásia na Justiça Francesa, e por questões jurídicas este foi negado. Apesar de disposta a viajar para a Suíça, onde a eutanásia é legal, Sebire ingeriu dose excessiva de barbitúricos em março de 2008 e foi encontrada morta em casa.

Concluindo...

Tendo em vista todo esse choque de opiniões, eu pergunto: Por que as pessoas têm tanto gosto em se meter na vida alheia? A cena foi patética, manifestantes se jogando na frente da ambulância que levava Eluana para a clínica em Udine, e gritando:

“Acorde, Eluana, querem te matar!”

Eu bato na mesma tecla, se você me diz que só Deus tem o direito de tirar uma vida, eu digo que ele está tentando fazer isso (no caso dela) há 17 anos, e nós homens é que não estamos deixando. Um defensor da eutanásia jamais iria na casa de uma Eluana fazer protesto para convencer o pai a deixar a coitada morrer.

Na humilde opinião deste que vos escreve, há que se respeitar a vontade individual.

O pai de Eluana diz que era a vontade dela. Se você, na pele de Vincent Humbert ou de Chantal Sebire, acreditasse que isso faz parte de um karma ou então que só Deus tem o direito de tirar sua vida, maravilha, “vida” que segue, continue na sua luta. Agora, eu imagino o quanto eles não penaram (Vincent nem tanto) com o bando de gente que você nunca viu na vida, querendo impor suas convicções sobre eles. Uma instituição a qual não reconheço e não dou a menor bola (a Igreja Católica, por exemplo), vir querer apitar em cima de um direito que eu julgo ter?

O que é mais cruel, deixar a pessoa morrer, ou prolongar o sofrimento dela?

Reflitamos.


publicado em 16 de Fevereiro de 2009, 13:00
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Mauricio Garcia

Flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico e o nosso grande Dr. Health.


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