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O céu é aqui. O inferno também

Com as mãos molhadas, fez a baliza mais rápida de sua vida. Trajava uma camisa cinza, encharcada de suor e cansaço. Dirigira há meia hora. Ao invés do tiro de largada, a corrida de sua vida começara com um grito:

— A bolsa estourou!

Saiu sem carteira, sem celular e carregando toda a alma que coube no corpo. Esbaforido, ajudou sua esposa a descer. Era loucamente apaixonado por ela, mas vez ou outra questionava a intensidade da recíproca. Num misto de alegria e preocupação, gritava pela enfermeira, duvidando que pudesse existir algo mais urgente do que o nascimento de seu filho. José, ele seria. Como o pai. Queria assistir tudo, como se todas as atenções que um dia ele poderia dar à todo o resto estivessem alí, trancafiadas naquele instante. Mas não pôde.

Tamborilava os dedos da mão esquerda no braço da cadeira, roía as unhas da mão direita, batucava os dois pés em ritmos distintos e desconfiava que seu coração estava pulsando no pescoço. Sua jugular parecia um canudo. De milkshake.

Foi até o banheiro e olhou-se no espelho. Quem diria, seu José. Você vai ser pai. Retornou à sala de espera e encontrou o médico.

— Parabéns, José. É um menino saudável!

Urgente, escancarou a porta do quarto. Tomou-o para sí com toda a ternura que seu jeito desajeitado permitia. Fora feito para caber alí. Sentia o cheiro de sangue, a pele delicada e a mãozinha indefesa, que segurava seu polegar com determinação, como se todo o resto dependesse disso. Ensopado, sujo, exausto e carregando seu filho, teve a certeza que aquele era o melhor momento de sua vida. A felicidade não cheirava bem, não estava bem vestida, não sabia falar, mas estava lá.

Era o céu.

 

Nada poderia estar melhor

Ninando seu pequeno, passeando descalço pela casa, esbarrou em algo. A mesa rangeu e o som lhe remeteu à lembrança mais sexual de sua vida. Ele lembrava como se fosse ontem. Num final de tarde ensolarado, José trepava com sua esposa sobre a mesinha da sala. Fora um sexo inusitado, instintivo, sem planos, sem lingerie especial. Com o rosto grudado no pescoço de sua mulher, sentindo o final de um perfume já misturado com rotina, José remexia o quadril enquanto ela o enlaçava com as pernas, como se pedisse mais, sempre mais. Terminaram, saciados e exaustos. Com dois ou três solavancos, foram para o sofá e por lá ficaram até o dia seguinte.

Junior já estava na escolinha e José geralmente passava em casa antes de ir ao encontro de seu pequeno. Antecipara-se dessa vez. Queria surpreendê-la. Abriu a porta vagarosamente, pé ante pé. Ouviu a mesa rangendo. Dessa vez mais ritmada. Talvez até mais violenta. Olhou pela fresta da porta. Seu mundo desabou. Viu sua mulher deitada, enlaçando a cintura de outro homem. O filho da puta cumpria seu papel com maestria. Ela suava rios e carregava toda a malícia do mundo em um olhar só.

Não sabia o que fazer. Seria capaz de matá-los. Seria capaz até de tamborilar com a mão esquerda, roer os dedos da mão direita e batucar ritmos diferentes com cada um dos pés, enquanto sentia seu coração pulsar no pescoço, com sua jugular do tamanho de um canudo. De milkshake.

Saiu de casa ouvindo os gemidos de sua esposa. Sentia a chuva deixando-o ensopado. Tropeçou. Até poderia se reequilibrar, mas preferiu se deixar cair. De cara no chão.

De bruços, seus braços cruzados contornavam seu tronco. Parecia que havia sido feito para caber alí. Estava ensopado, sujo, abraçado ao próprio corpo. O cheiro do sangue que saia de seu nariz era familiar. Era o pior momento de sua vida. Aquela porção de tristeza não cheirava bem, não estava bem vestida, não sabia falar, mas estava lá.

Era o inferno.


publicado em 09 de Outubro de 2011, 04:32
Eduardoamuri

Eduardo Amuri

Autor do livro Dinheiro Sem Medo. Se interessa por nossa relação com o dinheiro e busca entender como a inteligência financeira pode ser utilizada para transformar nossas vidas. Além dos projetos relacionados à finanças, cuida também da gestão dO lugar.


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