O charme das velhas trilhas de games

Acho que na verdade eu nunca gostei de videogame. Quer dizer, eu podia ficar o dia inteiro na frente da televisão, arrebentando meus dedos no joystick, tentando passar de fase ou brigando com o meu irmão quando perdia dele num desses Street Fighter da vida. Mas hoje, quando olho pra trás, percebo que poucos desses jogos me capturaram pelos gráficos ou jogabilidade. O que realmente me segurava eram as trilhas sonoras.

Naquele tempo, não fazia a mínima ideia de quanta genialidade estava escondida ali. Tudo o que eu sabia era ficar sentado, assoviando as músicas. O dia inteiro.

Ouvindo agora, dá para perceber que tinha alguma coisa diferente ali. Um charme especial. E não estou falando só do som que vinha da palheta de midi dos consoles.

O homem e seu teclado

Quando pude novamente ouvir as trilhas dos tempos dos 8 bits, fiquei realmente impressionado. Como pode um tema dar vontade de ficar repetindo em loop infinito? Ainda mais nessas condições – nada de surround, nem som em alta definição, muito menos instrumentos reais.

Fico imaginando, quanto trabalho um desses músicos deveria ter para compor essas trilhas? Imagine, criar um tema que funcionasse em loop infinito, muitas vezes algo que girava em torno de dois minutos e que ao mesmo tempo não soasse repetitivo? Sem poder escolher quais instrumentos entrariam, já que o hardware dispunha apenas de um pequeno leque de timbres artificialíssimos e muitas vezes doloridos aos ouvidos. Pra piorar, o som era mono e você não podia usar nenhum daqueles truques de distribuição entre os canais que os Beatles ou The Who tornaram famosos. A música tinha que ser tão boa a ponto de falar por si só, mesmo em estado bruto.

Naquela época, sonhar com uma orquestra dentro de uma sala do Abbey Road era algo impossível. Não havia sequer tecnologia nos consoles para reproduzir algo desse porte. Não havia outra alternativa a não ser sentar o homem e o seu teclado, noites a fio, compondo partituras para serem executadas em apenas 4 faixas.

Tempos difíceis.

Então, eu ouço faixas como essa, do Megaman 3. Não é apenas uma trilha para a pessoa ter algo a ouvir enquanto atira em alguns robozinhos coloridos. Não! Você pode sentir toda a energia e heroísmo necessários para salvar o mundo.

A trilha sonora de Kirby, por exemplo, transformava toda a experiência do jogo em um grande passeio pelo parque durante o melhor dia da sua vida. Uma trilha extremamente atraente, divertida, infantil sem ser bobinha. Impressionante como elas eram não só animadas, mas animadoras. A impressão que me dá é de que, se não fosse por ela, mais da metade da diversão seria perdida.

Avançando alguns anos, as coisas mudaram um pouco. O SNES veio com estéreo e a possibilidade de se mixar muito mais faixas, além de se escolher entre uma gloriosa palheta de instrumentos providenciados pelo hardware. Já era possível até mesmo aumentar esse leque com timbres pré-gravados. O Megadrive também tinha seus truques, com timbres mais eletrônicos e bem característicos.

Algumas destas antigas músicas também têm lendas girando ao seu redor, como a trilha de Sonic 3, a qual supostamente conta com criações de Michael Jackson. Dizem que o nome dele não foi creditado por causa dos escândalos com pedofilia, que começaram na época do lançamento do jogo. Há uma outra hipótese também, a de que ele simplesmente detestou o áudio que saía do Megadrive.

Uma coisa certa é o fato de que a trilha sonora do Sonic 3 foi um grande responsável pela fama de que o porco-espinho da Sega era muito mais descolado que seu rival da Nintendo. Talvez, com razão.

Nesta época, no entanto, acho que poucas trilhas tiveram a supremacia em termos de elegância e adequação da série Donkey Kong Country no SNES. Os samples de sons da floresta, tambores, ecos, sintetizadores, climas de mistério cavernosos, atmosferas profundas, quase dá para se sentir a umidade e o cheiro das árvores molhadas. Tudo tão bem pensado que só pode ter sido composto por um macaco no meio do mato.

As trilhas dos jogos do Mario são um ponto pacífico. É clichê, mas é obrigatório citá-las. O clássico Super Mario World, por exemplo, é impressionante por ter um único tema que é explorado em diversos ritmos e arranjos diferentes, passando por modificações sutis de todo tipo que fazem toda a diferença. Fui notar que o jogo inteiro martelava esse tema apenas há pouco tempo.

Dentro da franquia, no entanto, há um jogo um pouco menos popular e nem por isso menos genial. O Yoshi's Island era um puta conceito. A história contada pelos olhos do bebê Mario sendo levado nas costas do Yoshi. Então, nós temos gráficos todos desenhados em rabiscos infantis com textura de giz de cera e, o melhor, a trilha sonora, com um clima de aventura no melhor estilo Ewok.

A minha lista

Separei uma pequena lista com algumas das minhas trilhas favoritas. Recomendado para quem já passou algumas horas hipnotizado por esses games.

Nós crescemos, bola para frente

Essas trilhas eram maravilhosas, tinham sua própria dinâmica, funcionavam muito bem na época. Porém, não penso que deveríamos ficar aprisionados a qualquer coisa dessa ou de outras épocas passadas. Mesmo que tudo continuasse igual, nós mudamos, nós crescemos. Hoje não temos mais tempo para ficar na frente da televisão cantarolando.

Ainda assim podemos usar o que vimos e aprendemos com estes velhos jogos como ingredientes para nossa habilidade alquímica, transformando o que sentimos em mais diversão para outras pessoas que compartilham das mesmas memórias. Um exemplo disso são esses caras, da Bit Brigade, tocando a trilha do Megaman 2 enquanto alguém joga, ao vivo, em tempo real. Incrível, não?

Eu não arriscaria dizer que as trilhas ou os próprios games atuais são piores. Mas não dá para negar que são diferentes. Algo perfeitamente compreensível, já que este universo cresceu, começou a ser um negócio lucrativo e agora há muitos milhões envolvidos em cada etapa de produção, mesmo nos jogos mais simples.

Talvez cada coisa deva mesmo ficar no seu tempo. Convenhamos, é muito melhor ter tantos recursos tecnológicos para fazer tudo o que podemos fazer atualmente. Ainda assim, mesmo com tantas limitações e, na maior parte das vezes, mesmo soando toscas, cheias de pequenos defeitos oriundos da falta de tecnologia, estas trilhas tinham seu charme, não?

Seguimos nos comentários. Quais as músicas de velhos games fizeram suas vidas mais felizes?


publicado em 02 de Julho de 2012, 16:49
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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