Vamos oferecer um curso de equilíbrio emocional para homens. Começa nesta quinta e ainda há vagas.

O cinzeiro sujo da alma: uma reflexão sobre o noir | WTF #59

A sujeira humana do noir e porque somos mais ligados nisso do que na trama Poliana resolvidinha

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O film-noir é um dos assuntos favoritos do ensaio. É próprio da construção da pós-modernidade no que é um lótus negro que nasce da polpa vulgar da ficção e ascende ao repertório acadêmico. É arte popular de doodle-dandies pitorescos para francês ver – foi exatamente a reflexão refinada do continente sobre as películas californianas que elevou a discussão a esse tipo de patacoada refinada que “gente que lê livro” aprecia.

Out of the Past (1947)

E então, temos, para um leitorado sempre incerto e heterogêneo, a tarefa da definição. Negro porque sem esperança, e por em alguns casos se tratar mesmo de filmes luminosamente escuros. Mas, além disso, há o leque de estereótipos – a femme fatal, o detetive cínico, o homem da hora e do lugar errados, o cigarro, crimes e golpes, o double-cross (enganar quem supõe estar enganando), os flashbacks, o herói que drogado pelo vilão acorda numa lata de lixo, a chuva, o duplo sentido e as segundas intenções, a trama convoluta e a intensa estilização. “Estilizar” aqui significa exagerar os elementos estéticos (tanto pictóricos quanto dramáticos) – assumir o estereótipo e brincar com ele, mas não a ponto de parodiá-lo ou caricaturá-lo, e sim como auto-homenagem, o “meta” pós-moderno, ou ainda reconhecendo o elemento farsístico e o assumindo descaradamente como outra forma de autenticidade.

O noir pode, e muitas vezes é, assistido pela sensação – uma montanha-(ou roleta)-russa de crime, sugestão sexual e aventura. Ele ganha profundidade na conexão com Kafka e o existencialismo niilista, que por sua vez oscilam entre a caracterização (possivelmente acurada) do mundo atual (e principalmente do séc. XX em diante) como distopia ou pelo menos a ideologia predominante no cidadão reflexivo diante dessa “realidade”. Porém, ufa, não é preciso coadunar com as distorções do mundo ou a reflexividade depressiva para apreciar o noir, nem mesmo como algo mais do que entretenimento. A ficção não é mero espelho de nossos medos e desejos: é também exercício de empatia, alongamento emocional. Ou, no mínimo, o gosto cultivado por um tipo específico de sensacionalismo amargo e provocante, em que se lambe o fel da brincadeira onírica do fio da navalha do glamour niilista. (Ah!)

Ainda assim, o noir pode sem dúvida ser culpado da forte tendência de glamorização  de certo cinismo niilista que é característica do modus pensante daquele que seria interessante chamar de ‘mínimo denominador comum que levanta o pescocinho’; isto é, o sujeito que até para para refletir o mundo e a si próprio, mas só o suficiente até topar com a primeira camada de superioridade aparente e desgosto com a situação da vida, assumida como sem sentido (e com tudo ao redor também igualmente assumido como sem sentido). A cultura abdicou das tradições e, com a ideação liberada, ou falsamente presumida liberada, muitas vezes se fixa nas rebarbas de uma ausência da luz artificial da ideia de Deus – uma noção reativa às visões de sentido eterno, e que abdica de qualquer referência. É mais um jogar o neném fora com a água do banho, mas ironicamente ficar com a água suja e a glorificar em desgosto: a apoteose do materialismo individualista. Já passamos o século do punk espiritual, e aos poucos começamos a construir novos sentidos – mas ainda está cheio de consciências Bob Cuspe por aí – habitantes do noir, seres permeados pela ideação da obsessão com a falta daquela luz inventada. A primeira e mais rasa estratégia para lidar com o dilema de K., agora universal.

E então temos a espiral.

A trama do noir começa com uma pequena dissonância num mundo de um cotidiano medíocre e sem sentido – mas que até ali é operacional, que “segue em frente” (rumo ao iceberg? Até aí não sabemos). Quando essa dissonância é investigada, ou elaborada por qualquer meio, descortina-se uma trama cada vez mais inescapável de “doom”. Embora todos conheçamos o velho joguinho, essa palavra não encontra tradução precisa no português: é um destino, uma sequência de inevitabilidades que se desenrola de forma desastrosa. Usa-se “perdição”, que embora não represente 100% precisamente o espectro semântico de “doom”, vale. Perdição: perante Deus, na “carne”, no jogo, no crime, na corrupção, no suor gosmento ou no frostbite, e na decadência moral generalizada – ou, à la Sunset Blvd na velhice, no esquecimento, na fama passada. 

Desgraça, ruína, fracasso. Coisas que são curiosamente democráticas ao atingirem todas as classes sociais  até nas “melhores famílias”. O noir é um tabloide ficcional, mas ao contrário do melodrama ou da tragédia, ele lida com o mesquinho  com aquilo que não pode ser sublimado. 

Não temos só o fim, o trágico que encerra o horror existencial numa beleza kantiana “sublime”, ou ao menos o melodrama, que romantiza o sofrimento de outras formas. Aqui é justamente a vertigem (não por nada o termo que nomeia o ainda maior filme noir colorido) do fim sabido, que se desenrola inexoravelmente, ou ainda, mais do que isso, piora inexoravelmente. Pouco interessa se os viventes no noir sejam culpados ou vítimas inocentes: o instrumento de tortura é o que estiver disponível na consciência, esteja ela limpa, e produza um “por que tudo isso?”, ou suja e produza um “eu mereço”. O que é pior, e motivo de tanta disputa acadêmica, n’O Processo de Kafka – que, aliás, ganhou tratamento noir por Orson Welles – , a possível (provável, subentendida, explícita, improvável) inocência de K.? Ele se sentir culpado, ou ele ser culpado...? O que é pior, ou que diferença faz?  

Casablanca (1942)

Isso é próprio da arte do século XX, e é claro, hoje o noir está embutido em todas as formas de drama com um mínimo de sofisticação. Darren Aronofsky, por exemplo, quase sempre descamba no noir – o centro é o melodrama, mas a estilização é tão extrema que a distinção se torna fútil (The Wrestler, Requiem for a Dream, Black Swan). Breaking Bad é outro exemplo contemporâneo gritante – com alguns dos mesmos elementos humorísticos, as subtramas aparentemente não tão conexas, e as mesmas brincadeiras com o formato, que no noir clássico eram causadas pelos técnicos fugidos da Europa, muitos deles gênios super artísticos, refletidos, refinados, se vendo trabalhando com o que era para ser enlatados, e com o efeito colateral inevitável de os engrandecer fora das medidas. 

No noir queremos ver o personagem sofrer na pequenez de sua húbris – e observamos as sombras, os marginais e perdidos de todo tipo, nas suas vidas “fáceis”. Schadenfreude? É certamente mais complexo que isso: o noir pode não prover a redenção de um Crime e Castigo, mas ver o desespero e não virar o rosto é uma forma natural de desenvolver empatia. E nesse caso não se trata do desespero pontual e gráfico (ou incerto) do horror, mas o desespero propriamente existencial, da vida perdida, da perspectiva niilista.

Os grandes noirs dos anos 80 – American Gigolo, Body Heat, Blade Runner, e os grandes noirs dos 70, Chinatown, The Long Goodbye, Taxi Driver – refletiam ainda uma homenagem cinematográfica, de referência ao grande cinema do passado. Hoje, no presente sem tempo da internet, o noir, como todas as referências de todos os tempos, é usado como língua franca do drama, do thriller e até de outros gêneros. O que nunca foi fácil de precisar, diluiu-se ainda mais: quando se presta atenção no lusco-fusco, mais as formas distorcidas do noir necessariamente aparecem, tal como um pesadelo da cultura.

Por que a espiral de (auto-)destruição de uma vida é interessante de assistir? Claro, novamente é preciso frisar que as sensações extremas do noir são divertidas por si só, e pelos motivos gerais que tornam a ficção entretenimento. O escândalo, o sadismo, as drogas e a sexualidade sugestiva são interessantes, modo geral, porque temos os receptores dramáticos correspondentes: ver o sofrimento ou prazer do outro, mesmo em se tratando um outro falso, nos ensina a lidar com o próprio prazer e sofrimento. Ensina, vamos dizer assim, “certo ou errado” – para nosso benefício ou não  não é didático ou pedagógico, faz parte dos nossos automatismos. Mas esse aprendizado, de acordo com nossas conexões, é o que nos faz vibrar internamente; nos vinculamos com esses conteúdos por motivos bastante pessoais – mais que isso, esses elementos narrativos constroem ou ao menos justificam nossa identidade.

Em certo sentido, é bem verdade, nós que já vimos o fim da história de algumas pessoas não (muito) fictícias, sabemos que o noir é real. Muita gente leva vidas amargas, faz decisões erradas uma atrás da outra e termina, no melhor dos casos, infernizando a vida da família ou de quem quer que esteja por perto, num hospital, por exemplo. Em outros casos cometem suicídio, seja diretamente ou via crime, drogas ou “acidentes” bem previsíveis. E agora, como cultura, além dessas experiências pessoais e as histórias de celebridades caídas nos sites de fofoca, temos o antissocial terrorista, aquele que quer esfregar o niilismo dele em nossas fuças com muita morte, via TV. Não o conhecemos pessoalmente, mas ele de tempos em tempos penetra em nossas vidas pela mídia e enegrece nossas perspectivas. Só quer levar todo mundo junto de encontro a montanha maldita de seu ressentimento.

Não tem explicação, somos vítimas da trama convoluta e injustificável na mente de alguém que caiu numa espiral de escurecimento de si próprio.

The Night of the Hunter (1955)

O noir não é, como qualquer ficção da modernidade em diante, moral. Quer dizer, ele não é deliberadamente moral, não foi elaborado com esse fim – não está dizendo para ninguém agir assim ou assado. Pelo contrário, a graça está em encarnarmos o gângster na tela e, com os óculos de segurança do laboratório cinematográfico, assistir a metralhadora de Scarface. Nem eu aqui estaria cometendo a boçalidade de pregar que assistamos o noir como advertência, embora, em certo sentido, e em alguns casos, advertências possam funcionar, e o noir também possa entrar nesse papel. O interessante aqui é examinar o fascínio dessa espiral vertiginosa, já que, em certo sentido, por mais virtuosa e boa que seja nossa vida, quase ninguém escapa de tramas convolutas, problemas inesperados e indesejáveis fins inexoráveis (o niilista pode querer tirar o quase da frase anterior, mas há exemplos do oposto, e no fim, era só tela e projetor, em todo caso).

E a ficção Poliana, com final feliz e toda resolvidinha, não é a mais profunda. Como também apenas melhorar a vida, aperfeiçoar sonhos, não é o ponto. O exemplo no caso é um meta-exemplo: a própria origem do noir. Como já citado, da ficção vulgar, popularesca e de baixo calão, surgiu vasta e complexa crítica, que por sua vez interagiu com seu objeto e o refinou. O mesmo ocorreu com a ficção científica, e o padrão mais antigo, e fonte da modernidade mesma, já estava em Cervantes. Afinal de contas, essas coisas, ora, populares, são populares porque apertam botões mais universais. E a divisão entre popular e erudito, low-brow e hi-brow, se pode ser uma espécie de desagradável “questão de classe”, é devorada pelo “comunismo” (o materialismo niilista, o caos qua Cristo) do pós-moderno. Onde, ao longo das décadas, o que já foi retrô, ressignificado, rejeitado, ironizado e normalizado se torna qualquer dessas coisas, dependendo da boa ou má vontade do interlocutor.

The Lady from Shanghai (1947)

O noir libera o pesadelo, assim como a tragédia, que tinha função de catarse. Mas ao contrário desta, o noir não é sublime. O noir é um cinzeiro sujo da alma humana – é encontrar filosofia no seriadinho enlatado, ser fanboy dessa ou daquela marca de entretenimento, e ler A.V. Club ou participar de fórum do IMDb. E nada de errado nisso, inerentemente. A vida vulgar pode sempre ser ressignificada como arte descomunal, da mesma forma que o almofadinha vivencia suas duas horas de gangster em frente à tela.

Obs.: se você quer recomendações de film-noir, aqui vão os que assisti e votei no IMDb.


publicado em 16 de Abril de 2015, 00:00
File

Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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