O ciúme que espanca o amor | Do amor #10

s.m. 1. Sentimento penoso; medo de perder algo ou alguém amado. 1. Despeito, inveja. (dicionário criativo)

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Sexo e um bom café da manhã. Era assim que eles gostavam de começar o sábado, uma trepada logo cedo e uma refeição matinal completa para recompor os ânimos. Ele lavava a louça do desjejum ainda pelado e ela o assistia só de calcinha no canto da mesa. 

Sorridentes, claro, corpos saciados e com o estômago forrado, restavam as piadas e planejamentos para o final de semana. Logo mais ele iria buscar o filho na casa da ex-mulher para que passassem juntos o sábado, ida ao parque e depois almoço no restaurante. Ele pediu que ela verificasse em seu celular o endereço do parquinho para planejar um trajeto. Ela pegou o aparelho e saltou em seus olhos umas notificações de Whatsapp. Bateu o dedo de unhas rosas e o aplicativo abriu sozinho. Sem querer mesmo.

Nele, uma bolinha ostentava a foto com uma mulher dos cabelos muito bonitos, uma juba bem negra e cheia, toda cacheada. Exibia um sorriso largo, impossível de não se olhar. Não leu a conversa, não achou por direito, mas o tempo de encerrar o app deixou os olhos correrem pela última frase dele: "É. Eu consigo imaginar sim". Ela ficou com o pulmão gago, o ar não entrava todo e não saia por completo. "Eu vou pro banho". Se levantou enquanto ele questionava sobre o endereço e caminhou mole até a ducha, levando consigo aquela fêmea na cabeça. Quando ele se despediu dizendo que iria buscar o garoto, recebeu um "tchau" metálico, mas não percebeu. 

No parquinho, bem pouco antes de saírem para o almoço, ela o viu mexendo no celular e o rabo-de-olho foi mais forte. Estava no Whatsapp e já não tinha mais a janela de conversa com a tal garota. Antes de colocar os pensamentos na boca para perguntar porque apagou o papo com aquela vagabunda, ela ponderou: "Espera. Ok, eu também apago as minhas conversas que não importam, só deixo as mais recorrentes, mamãe, ele". Enquanto pensava, enquanto trocava o cruzar de pernas, enquanto seus olhos iam ficando cada vez mais semi-vivos, meio mortos na simples ação de olhar, conseguia sentir o cheiro da cabeleira da outra garota, ouvia o risinho de escárnio dela, a alma acalentada de quem se deparava com aquela beleza na rua. Quando ele chamou o pequeno para irem embora, ela se levantou e foi sozinha até o carro.

Ao chegar no restaurante, ainda no estacionamento, um outro carro tocava Cartola. Dava para ouvir, de onde estavam, o "Vai chorar, vai sofrer... e você não merece. Mas isso acontece".

Logo em seguida, duas meninas ocuparam uma mesa ao lado. Uma delas tinha um filho também. A operação seria a mais natural possível em qualquer outro contexto, mas não naquele. Não nesse dia. Assim que o filho dele pegou o celular para se distrair enquanto a comida não chegava, o pai aproveitou e chamou o garoto da mesa ao lado para que brincassem juntos e tirou o aparelho meio apressado da mão do moleque. O diabo do ciúme mordia as canelas dela feito o cão e acabou que ela cismou com a mãe do outro menino. Não exatamente com ela, mas com ele em relação a ela.

Ele olhava o cardápio e as crianças brincavam enquanto ela o imaginava olhando para as pernas da mãe, comunicativo demais, peito aberto, olhos também. Ficava atenta ao ângulo do olhar dele, sempre vigilante no maldito celular. As meninas da mesa ao lado elogiam a beleza do filho, perguntam se ela era a mãe, mas foi ele quem respondeu que não. Muito solícito para o gosto dela. Mal comeu, só via as coxas dela e o ângulo do olhar dele. Começou a imaginar que ele faria um melhor casal com a mãe do outro fedelho, ambos com filhos, quase a mesma idade, mais coisas em comum. Repetia para ela mesma que as coxas da mãe eram muito mais bonitas que as dela, lindas no shorts curto. "Eu não uso shorts curtos assim. O mundo é muito mais bonito do lado de lá mesmo".

Voltou para o carro murcha feito balão de sopro em fim de festa. Lá fora, o Cartola ainda cantava aconselhava: "De cada amor tu herdarás só o cinismo. Quando notares, estás à beira do abismo. Abismo que cavaste com os teus pés". 

O amor é uma música feliz que deixa a gente triste.

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publicado em 26 de Junho de 2015, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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