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O dom do bullying!


A cena é simples e comum. Amigos na escola implicando uns com os outros. Então surge o mais baixo e, o que era uma implicância mútua, se torna focada. Não há brigas, não há crueldade, só a implicância que proporciona aos líderes um grande número de fãs e risadas. O pequeno detalhe dessa cena é que eu sou o baixinho zoado.
Quando nos tornamos o motivo da brincadeira, podemos tomar duas atitudes. Rir de nós mesmos e aceitar que somos diferentes, ou se enclausurar no próprio mundo afim de que outros não possam intervir. Eu fiz a segunda escolha pelo simples fato de não conseguir me ver como diferente, como estranho, como imperfeito.
Não aceitei a ideia de rir da minha própria cara, não via graça em ser colocado em latas de lixo simplesmente por caber nelas. Não achava interessante ser jogado dentro de outras salas só por ser o único que conseguiam segurar. Não conseguia exprimir qualquer outro sentimento que não fosse a raiva quando era jogado e trancado dentro da sala de material esportivo e ficava lá até o professor voltar para guardar as bolas.
Por isso, por tantas vezes preferimos a reclusão, o mundo próprio e assim nos incluímos nos grupos marginalizados pela classe. Os gordinhos, os nerds, os baixinhos e etc.
Nem todo gordinho gosta de rir de si mesmo

Já ouviram falar que todo baixinho é invocado? Pois entendam esse processo como defesa social. Aprendi a afrontar aqueles que me cercavam, com o único intuito de marcar presença, de mostrar que estando ali deveria ser respeitado. Digo isso porque, quando me tornei adolescente, cansei de ser o alvo e resolvi brigar com todo aquele que me provocava. Em pouco tempo eu tinha mais inimigos no colégio do que eu seria capaz de contar.
Apanhei tantas vezes nessas brigas de fim de escola que o orgulho, o grande motivo da briga, acabava em frangalhos, entre um chute e um tapa na cara. E o culpado de tudo isso morava dentro de mim. Eu precisava sentir aquele gosto de sangue, aquela dor lancinante, aquela mágoa no coração, pois isso me tornava um deles. Ali, brigando, eu mostrava que não importava, eu era um deles e batia como um deles, sangrava como um deles e sentia a mesma dor, como todos eles. Nessas brigas eu virava o foco da atenção. Os olhares ficavam comigo e o marginalizado se tornava o ápice.
Com o tempo a mente cresce e a violência fica perigosa. Descobri que já não podia desafiar, o resultado seria muito pior. Lembro-me da última briga e o que antes se resumia em socos e pontapés, agora envolvia pedras e por pouco não fui furado por canivete. A raiva entupida em minhas artérias ao longo do tempo me tornou insano. Desejei a morte de muitos deles por bastante tempo. Talvez se eu tivesse uma arma teria dado uns tiros nos responsáveis.
Embora a briga cessasse, ficou claro que o estrago mental estava feito. Tornei-me um cara explosivo com tudo e extremamente revoltado com meus pais. Afinal, minha mãe dava aula na minha escola e nunca se pronunciou sobre qualquer acontecimento. Hoje, mais velho, sei que ela nunca soube das brigas e suas motivações. Mas na época, eu não me conformava com o fato de não ser devidamente defendido por eles.
Perdi então o apego, o carinho, a vontade de estar em casa. Meu quarto virou um refúgio, assim como o esporte. Evitava conversas, brincadeiras, convivência familiar, qualquer comentário era respondido com agressão verbal. Eu era um jovem problemático. Na tentativa de me recuperar minha mãe me batia pelas minhas falhas. Apanhei muito e admito que todas elas foram merecidas. Mas minha mãe provavelmente nunca soube os motivos pelos quais eu cometia tais erros.

Link YouTube | A ação do valente e a reação do nerd. Eis a prova de que o bullying não é bom para ambos os lados
Nunca fui mal aluno, ao contrário. Notas boas sempre, esse era o lema lá em casa. “Se você não faz outra coisa na vida a não ser estudar, melhor tirar notas boas senão terá que se entender com a sua mãe”, dizia meu pai quando ficava preocupado com nosso estudo. Então eu estudava, assim evitava problemas e eles se iludiam achando que estava tudo bem.
Ainda não sei como não cai nas drogas, pois tive todas as oportunidades para isso. Na família, eu tinha tios e primos que poderiam muito bem me fornecer. Mas a força do discurso e o ótimo exemplo em casa foram válidos. Não desejei me incluir no grupo dessa forma.
Ganhei o apelido em casa, "o Bravo". Meus pais se revoltavam com a forma que eu transformava tudo em briga. Na forma como eu encarava qualquer coisa como discussão. Na maneira grossa e rude que lidava com qualquer objeção feita aos meus pedidos.
Percebem no que me transformei, prezado leitor? Depois disso, vi amigos gordinhos se afundarem ainda mais na comida por não saber como lidar com a rejeição. Vi nerds tentarem de tudo para serem aceitos, fazendo trabalhos e provas para outros, em troca de um pouco mais de participação naqueles grupos de cobiçados alunos. Presenciei a transformação de muitos deles. A forma como cada um se aceitou, a maneira como cada família lidou, a luta que cada um travou.
Eu afoguei meu passado na marra. Fiz faculdade e ignorei os fatos da minha infância e adolescência. Formei e vim trabalhar no Rio, fazendo o que gosto. Aos poucos retomei a rédea do futuro. Melhorei com a enorme paciência da minha esposa, que soube enxergar atrás da carcaça cascuda o cara que morava lá dentro.
Hoje tenho o enorme prazer de receber meus pais e irmãos e minha casa. Amo-os demais e meu carinho e respeito por todos eles é enorme. Jamais discutimos seriamente tudo o que aconteceu no passado. Somente alguns comentários esporadicamente.
Agora, casado com essa mulher linda e desejando ter filhos, eu fico me perguntando todos os dias: Como vou educar meus filhos ? Como ensiná-los o respeito ao diferente? O que é o diferente?

publicado em 06 de Setembro de 2011, 07:14
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Wagner Villa Verde

Biólogo e analista de sistemas, tem 32 anos e nasceu em Juiz de Fora. Mora atualmente no Rio de Janeiro. É apaixonado pela vida, seja ela qual for. Acredita em Deus, mas conversa com ele de forma particular. Ama as mulheres... mesmo tendo certa dificuldade para entendê-las.


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