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O filho eterno (Cristovão Tezza*) | Livros pra macho #6

Salvo algumas exceções, a maioria das pessoas planeja ter filhos um dia. Algumas nem planejam e já têm enquanto outras planejam por tanto tempo que, quando decidem ter, encontram dificuldades na semeadura. Porém, uma coisa parece clara: a continuidade biológica da espécie está na reprodução.

Quando o desejo de ser pai – ou mãe – aparece, ou quando a vida força o indivíduo a ser um deles, uma pergunta surge na mente. Uma pergunta que, por mais madura que a pessoa esteja, insiste em exigir atenção:

Estou preparado para tamanha responsabilidade?

As respostas podem seguir diversos caminhos, desde o total desprezo ao fato de que, no futuro, terão que criar e educar seus filhos, até um apego desproporcional que gera a tão criticada superproteção paterna.

Com essas questões (e muitas outras mais) na cabeça é que Cristovão Tezza escreveu a obra O filho eterno, romance premiadíssimo no ano de 2008, incluindo o Prêmio Jabuti de Melhor Romance.

Seu livro conta a história de um pai que, em meio a um momento de forte crise individual, conjugal e profissional, vê nascer seu filho, Felipe. Por muito tempo desejada, essa criança era perfeita, exceto por um pequeno detalhe: ela tinha síndrome de Down. É então que o personagem enfrenta seu primeiro desafio. Deve resolver o “problema” da criança ou entender qual o espaço que ela terá em sua vida a partir dali?

É com o enredo construído em cima da relação entre um pai e o filho com Down que Cristovão Tezza apresenta uma reflexão sobre como as expectativas em torno do futuro podem prejudicar o momento presente, principalmente quando nesse momento está incluída uma relação familiar.

Um escritor frustrado – com vários livros guardados e não publicados – e um ativo militante sem causa, o pai busca na bebida e no cigarro a fuga para a frustração de não encontrar no filho as mesmas “qualidades” que as crias de seus amigos e conhecidos têm.

Assim, vai se afundando na solidão, e, ao mesmo tempo, vai deixando de curtir a sensação mágica que é a vida plena em família.

Enquanto isso, Felipe vai vivendo alheio às crises existenciais do pai. Com a amabilidade e o carinho que normalmente as pessoas com síndrome de Down possuem, consegue, aos poucos, conquistar o coração do seu progenitor e sutilmente lhe mostra que, na verdade, é uma pessoa como outra qualquer, com qualidades e defeitos comuns a todos. Tem apenas uma característica que o torna diferente. Mas, no fundo, não somos todos diferentes?

É com essa pergunta que o autor estimula a reflexão do leitor. Quem seria então o filho eterno? Seria Felipe, que precisou, e sempre precisará, da ajuda do pai para viver dentro da sua inocência de menino? Ou seria o pai, que busca eterna e incessantemente uma resposta para a falta de programação da vida e que se recusa a aceitar o filho como ele é?

O filho eterno é um livro que nos permite o transporte para uma situação que, dentro dos padrões estipulados pela sociedade, não é desejada por ninguém. A maioria dos pais, se pudesse escolher, não gostaria de ter filhos com quaisquer distúrbios, incluindo a síndrome de Down. A frustração do personagem é apenas uma emulação do processo que um pai precisa passar para começar a compreender que quase 100% das coisas que acontecem no mundo não dependem de sua vontade, e nem ao menos vão se importar pelas lágrimas que caem quando não são feitas as suas vontades.

Cristovão Tezza

O que resta, não apenas para um pai frustrado, mas também para todos os seres humanos é a única coisa que depende das nossas decisões: o que fazer com o que a vida nos dispõe?

Entender que um filho com essa síndrome é apenas um filho é a chave para fugir de sentimentos tristes. É também curtir e aceitar o que o sistema natural – ou a perfeição do cosmo – oferece. Muitas infelicidades vão surgir dentro do ciclo de existência de uma pessoa, e se apegar a elas, é uma perda da tempo.

A síndrome de Felipe era um problema? Para muitos, a resposta pode ser “sim”. Realmente, ele não conseguiria jogar futebol como os filhos do amigo de seu pai. E isso, pelo menos para o personagem Pai, foi uma frustação. Mas, com o tempo, ele descobre que o filho pode ter inúmeras qualidades que fazem com que todos ao seu redor fiquem convencidos que a vida, para ser bela e bem curtida, depende apenas da vontade de cada um e da maneira como a pessoa encara as disposições do cosmo.

*Cristovão Tezza nasceu em Santa Catarina, Brasil. É um dos mais importantes da literatura brasileira da atualidade e, com o Filho Eterno recebeu em 2008 reconhecimento de público e crítica com o Prêmio Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura de Melhor Livro do Ano e o Prêmio Jabuti de Melhor Romance. Entre outros livros, também Trapo, O fantasma da infância e Breve espaço entre cor e sombra.


publicado em 01 de Março de 2013, 21:00
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Filipe Larêdo

Filipe Larêdo é um amante dos livros e aprendeu a editá-los. Atualmente trabalha na Editora Empíreo, um caminho que decidiu seguir na busca de publicar livros apaixonantes. É formado em Direito e em Produção Editorial.


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