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O hipster dissecado

Ontem comprei um pacote de cerveja e de brinde levei uma bola de futebol. Amanhã nós vamos encher a bola, combinei com o Theodoro ao chegar em casa.

Hoje ele lembrou do trato, queria então sair para cumpri-lo. Convidamos a Cecília, que aproveitou para levar a bicicleta com os pneus murchos.

Todo sábado, uns três ou quatro marmanjos estacionam seus carros quase em frente à portaria do nosso prédio. Vendem e trocam brinquedos antigos. Mais do que qualquer outra coisa, eles querem exibir os tais brinquedos.

Em suas conversas, que a gente ouve bem por alto, eles compartilham um certo orgulho de pertencer àquela turma, apreciam muito a nostalgia materializada em brinquedos como o do boneco do E.T, o extraterrestre.

Na bicicletaria, a Cecília me perguntou “o quê” era aquele homem de calção com as barras dobradas, bigodinho e enormes óculos com aro de tartaruga a bordo de uma bicicleta de corrida da década de 60.

"É um hipster", respondi.

"O que é um hipster?", perguntou o Theodoro.

O hipster

Eu não sabia a resposta. Se ele tivesse perguntado o que é um punk eu saberia responder. Um hippie também. Evidente que eu sei identificar um hipster quando vejo um. Explicá-lo, no entanto, é um pouco mais sofisticado.

O Felipe Santana havia me passado o link do artigo da Christy Wampole, originalmente publicado no ótimo blog Opinionator do The New York Times e traduzido pelo site da revista Serrote.

A leitura do artigo de Wampole foi uma pequena epifania porque ela conseguiu explicar com clareza estarrecedora exatamente o que eu sempre soube mas não sabia que sabia. Conseguiu dizer por que os hipsters incomodam tanto.

Wampole começa assim (a tradução é de Adriano Scandolara):

“O hipster assombra todas as ruas da cidade e cidades universitárias. Manifestando uma nostalgia por épocas que ele mesmo jamais viveu, esse arlequim contemporâneo se apropria do que há de mais ultrapassado no que diz respeito à moda (bigodes, shorts minúsculos), quinquilharias (bicicletas de marcha única, toca-discos portáteis) e hobbies (produção artesanal de bebidas, tocar trombone). Ele cultiva a esquisitice e o constrangimento e passa por várias etapas de autoavaliação antes mesmo de tomar qualquer decisão. O hipster é um pesquisador das formas sociais, um estudioso do que é cool. Ele estuda implacavelmente, escavando em busca daquilo que não foi ainda descoberto pelo público geral. Uma citação ambulante, suas roupas referem-se a algo muito além de si próprias. Ele tenta negociar o antigo problema da individualidade, não por meio de conceitos, mas a partir de coisas materiais.”

Agora também tem o seguinte: se a minha avó que mora em Mirassol visse um hipster, acho que ela não saberia identificar. Tenho a impressão de que talvez ela fosse sacar o seu tradicionalíssimo “marmota”, o vocábulo preferido para designar pessoas esquisitas e vestidas de maneira inadequada.

Mas, como diz Wampole, rir do hipster não leva a lugar nenhum, é preciso entendê-lo. Até porque eles já riem de si mesmos e de tudo. Você conhece o Hipster do Brega e o Hipster da Depressão? A chave para entendê-lo: a ironia é seu modo primário de lidar com a vida.

Nada é 100% sincero, 100% direto, porque para ser sincero e direto você precisa se expor. Mais um trecho do artigo:

“Tomemos como exemplo uma propaganda que se anuncia como propaganda, faz piada com o próprio formato e tenta atrair seu público-alvo para rir dela e com ela. Ela já reconhece, preventivamente, o próprio fracasso em produzir algo com sentido. Nenhum ataque pode ser feito contra ela, pois ela própria já se mostrou vencida. O molde irônico funciona como um escudo contra a crítica. O mesmo vale para o estilo de vida irônico. A ironia é o modo mais autodefensivo que existe, pois permite que a pessoa evite a responsabilidade das suas escolhas, estéticas ou não. Viver ironicamente é esconder-se em público. É uma forma, flagrantemente indireta, de subterfúgio – que significa etimologicamente “fugir em segredo” (subter + fúgio). De algum modo, tornou-se insuportável, para nós, lidar com as coisas de maneira direta.”

O Suicide Girls é o site que reúne o maior número de garotas hipsters tatuadas. Elas acham super normal tatuar na pele coisinhas engraçadas como lacinhos irônicos na parte de trás da coxa

Ou seja, o marmota autêntico, também chamado brega ou cafona, quase sempre é o resultado visível de algumas escolhas sinceras. Ele usa aquele short, aquele bigode, aquele óculos porque acha realmente que aquilo é uma escolha estética acertada ou pelo menos se esforça para isso. O hipster, não. Ele não concebe vestir roupas “normais” porque há aí um enorme risco de parecer cafona. Por isso ele escolhe roupas que não são apenas roupas, mas referências estéticas. Suas escolhas nunca querem dizer exatamente aquilo. A ironia, aliás, é isso: dizer uma coisa querendo dizer outra.

Christy Wampole, a autora do artigo,  tem 36 anos. Posso considerá-la como sendo da minha geração. Como eu, ela sempre se sentiu um pouco incomodada pelos hispters, mas às vezes se pega agindo como um.

Quando penso no nome que dei a meus filhos, Theodoro e Cecília, por exemplo. Quando compro cervejas amargas artesanais. Quando compro um tênis que é réplica de um modelo da década de 70. Quando compro um Macbook branco. Quando me vanglorio de minhas habilidades digitais. Quando gosto de Azealia Banks. Parece puro hipster.

Se nada é 100% sincero, é possível que o legado dos hipsters venha a ser pífio. É difícil imaginar uma produção artística e/ou intelectual, por exemplo, nascendo exclusivamente da ironia. Embora alguns dos melhores romances já escritos contenham alguma ironia.

Wampole termina assim:

“Com certeza, a vida irônica é uma resposta provisória aos problemas do excesso de conforto, do excesso de história e do excesso de opções, mas minha convicção firme é a de que esse estilo de vida não é viável, e oculta em si muitos riscos sociais e políticos. Deixar que um amplo segmento da população anule sua voz cívica, por meio do padrão de negação que descrevi, é sugar as reservas culturais da comunidade como um todo. As pessoas podem escolher continuar a se esconder atrás do véu da ironia, mas essa escolha significa render-se às entidades comerciais e políticas que ficarão mais que satisfeitas em assumir o papel de pais para cidadãos autoinfantilizados. Por isso, em vez de rir do hipster – um hobbie favorito, especialmente entre os hipsters –, tente determinar se as cinzas da ironia não se assentaram sobre você também. É preciso algum esforço para espaná-las.”

Estou muito impressionado com Wampole, vou escrever mais sobre ela.


publicado em 26 de Janeiro de 2013, 22:00
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Edward Pimenta

Edward Pimenta é jornalista e trabalha na Editora Abril. Autor de O homem que não gostava de beijos (Record, 2006), escreve mimosidades em EPIMENTA.


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