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O homem cinza e o moleque não-parnasiano

A calçada tem duas ou seis mil pedras retangulares. Um moleque insiste em pular e não pisar em linha alguma. Já fui esse moleque. Hoje, nem olho para baixo. Firme, piso em linhas, lajotas, pontas de cigarros e, se uma barata entrar no caminho, vai junto. Quando eu era o moleque, sabia o número exato de lajotas e brincava de desafiar a mim mesmo.

Se pisar na linha, o fogo consome tuas pernas.

Se pisar na linha, os tubarões te arrancam a perna direita.

Se pisar na linha, cai num abismo.

Dá até para imaginar o frio na barriga. A pessoa deve morrer caindo de uma altura assim.

Hoje, do alto da minha roupa semi-social, se pisar na linha, pisou na linha. E assim vai. As coisas como elas são. As linhas por elas mesmas. Sendo pisadas e tal.

Gosto quando a música não soa diferente aos meus ouvidos. Sigo com as mesmas canções nos meus fones. Isso diz muito sobre mim e o ponto de mediocridade que cheguei. Ouvir sempre a mesma canção não chama sensações novas, não me distraí de uma maneira única e diferente. Vou nos mesmos passos, sem métrica alguma, mas totalmente simétrico nos demais aspectos. Rotineiro como as poças que se formam nas laterais das avenidas quando chove. Rotineiro como a falta de rotina do moleque que pula todas as linhas.

Eu encaro o moleque ao passar. Desejo voltar a ser ele.

O moleque me encara entre um pulo e outro. Por alguns segundos, para de pular, me encara, estou atrapalhando seus pulos. Quase consigo ouvir seus pensamentos. Pensa que, se um dia crescer e se tornar alguém como eu, vai pisar em todas as linhas de propósito. Para que um tubarão arranque sua perna direita. Para que o fogo consuma seu caminhar. Para que caia num abismo. E morra na queda.


publicado em 12 de Abril de 2014, 07:00
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Sergio Trentini

Cursou psicologia, administração e jornalismo. Não terminou nenhuma das três. A última já passou da metade, e essa, jura que vai acabar. Assim como todas as histórias que começa a escrever. Escreve lá no Medium


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