"O homem é mais simples do que a mulher, né?"

Passou da hora de questionarmos o mito do gênero masculino simplório

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Estive semana passada na sede de uma grande empresa de cosméticos palestrando para a cúpula de comunicação e suas agências parceiras.

Enquanto não chegava a hora de minha fala, me engajei numa conversa e a certo momento uma das mulheres presentes, envolvida com uma das marcas masculinas da casa, soltou:

"Mas assim, os homens são mais simples, né."

Dei um sorriso:

"Olha, acho que não necessariamente."

"Ah, ao menos mais simples do que as mulheres vocês são, vai!"

"Hmm, vou ser obrigado a discordar. Acho que esse é um dos maiores mitos que rodam por aí."

Após a palestra corri para o aeroporto e não conversei mais com ela, mas esse diálogo me marcou.

Al Bundy, o pai de família bobão, tipicamente masculino, da extinta série "Married with the children"

O que significa quando dizemos que os homens são mais simples, será que é algo inofensivo, apenas uma brincadeira?

Essa noção do homem chapado me incomoda há bastante tempo. Parece algo naturalizado, aquilo que é porque sempre foi e sempre será. 

Homens são binários, monocromáticos, racionais, retos, resolvedores, estreitos. Mulheres são mais intensas, emocionais, complexas, confusas, imprevisíveis, amplas. Ponto.

Infinitamente indecifráveis, verdadeiras esfinges diante da qual se postam os homens, coitados. Se ao menos fossem um pouco mais profundos, talvez tivessem alguma chance de entendê-las.

Ao reforçar estereótipos como esses, reforçamos também a distância entre os gêneros. Como se de fato as mulheres viessem de vênus e os homens de marte, alienígenas destinados à eterna guerra dos sexos.

Minha aposta: os homens não são tão simples quanto parecem

Defendo que podemos ser tão densos, ou rasos, quanto qualquer mulher.

Calha de sermos ensinados desde o berço a suprimir impulsos e ações indesejáveis em favor de uma fachada que evoque força, temor, respeito, admiração, constância e equilíbrio.

Parte significativa das últimas décadas de estudos em relação aos conflitos dos papéis de gênero, relativos ao masculino, está nessa imagem:

A imagem foi originalmente concebida pelo professor, psicólogo e pesquisador Jim O'Neil [ http://jimoneil.uconn.edu/ ]. A versão acima foi apenas traduzida por nós.

Ela nos explica que muito da identidade masculina se constrói no medo, continuamente buscando aquilo que prova que você não é fraco, inferior, feminino – o que se estende ao pavor da homossexualidade, pelos que ainda pensam que ser homem é ser hétero.

A perseguição sem fim por músculos, sucesso, dinheiro, sexo, fama ou prestígio intelectual é reflexo disso. O sexo forte tem um ego frágil como casca de ovo. Teme ver sua virilidade posta em cheque. E repare como até os que se dizem seguros muitas vezes tem enraizado vários comportamentos indicadores de sua masculinidade, como falar alto, grosso, arrotar, agir de modo agressivo, impulsivo, abusivo, dominador. 

Nascer homem é carregar desde o berço a pressão pela grandeza.

Ser baixo, ter pau ou salários pequenos, músculos frouxos, voz fina, tudo isso pode aumentar ainda mais a pressão, tanto externa quanto interna.

Esse contexto dá origem a quatro grande conflitos típicos do masculino, facilmente reconhecíveis:

  1. Conflitos entre relações de trabalho e família
  2. Emocionalidade restritra
  3. Comportamento sexual e afetivo restrito entre homens
  4. Obsessividade com sucesso, poder e competição

Que, por sua vez, se desembocam em vários outros possíveis:

  • incapacidade para intimidade
  • depressão
  • ansiedade
  • alexitimia
  • stress
  • comportamento sexual abusivo
  • disfunção sexual
  • esgotamento ("burn out")
  • comportamento violento com a família
  • obesidade por abuso de comida (ligado a outros conflitos)
  • violência e abuso contra as mulheres
  • sentimentos profundos de culpa e insuficiência
  • comportamento de abuso psicológico com outras pessoas

A lista vai longe, nem de longe é exaustiva. Em especial me chama a atenção do distúrbio chamado alexitimia, caracterizado pela "inabilidade de colocar os próprios sentimentos e emoções em palavras". Segundo a Associação Americana de Psicologia, 80% dos homens norte-americanos sofrem dessa condição em algum grau.

Portanto, não é surpresa nenhuma lermos em recente meta-estudo realizado com pessoas dos Estados Unidos, que o gênero mais narcisista é o masculino.

Mulheres serem mais narcisistas do que nós é só mais um dos mitos dos estereótipos de gênero que não batem com a realidade. Esse, entretanto, merece ser dissecado com carinho.

A pesquisa analisou outros estudos realizados ao longo dos últimos 30 anos e concluiu algo que não é novidade, mas que ainda assim insiste em ser ignorado por boa parte de nossa cultura. Não à toa tal achado estampou urls de prestígio mundo afora, como as da TIME e do Telegraph.

Narcisismo não é só selfie, o conceito se divide em três dimensões principais:

  • Liderança/Autoridade – desejo por autoridade e poder
  • Grandiosidade/Exibicionismo – vaidade e auto-centramento
  • Se sentir no direito de/Abuso – se conecta a comportamentos como agressão e manipulação

Os homens, segundo o estudo, ultrapassam as mulheres de maneira estatisticamente significativa em todos os quesitos. Com ênfase no último, que diz respeito a ter ações abusivas e se sentirem no direito de ser e se expressar exatamente como têm vontade. 

Todo modo, a conclusão da própria pesquisa, de modo bastante responsável, enfatiza que nem todos os homens são assim e que devemos ter cuidado ao lidar com os achados expostos, visto que a intenção não é amplificar ou criar novas confusões de gênero. Ainda que seja amplo, o estudo é um recorte específico, óbvio que não trata de todos os homens que existiram, existem e hão de habitar esse mundo.

Estamos falando, enfim, de seres que podem ser profundamente narcisistas, que por vezes constroem identidades baseadas no medo e negação do feminino, obcecados por grandeza, sucesso e poder, com dificuldades para interpretar e comunicar as próprias emoções com clareza, ensinados a serem agressivos, que se tornam especialistas em fingir e simular que estão sempre sob controle, firmes, prontos e com um plano debaixo do braço, mesmo quando não têm a menor ideia do que está acontecendo e precisam lidar com pressões e estímulos contraditórios recebidos entre a infância e vida adulta, reforçados quase todos os dias, para que sejam super-homens capazes de alternar entre os disfarces de amantes vigorosos, provedores hábeis, parceiros sensíveis, protetores corajosos, pais sábios e competidores ferozes.

Reconhecer essa complexidade é aproximar homens e mulheres para um diálogo pé no chão. Afinal, não está fácil pra ninguém.

Perde-se uma piada, ganha-se lucidez.


Homens possíveis é uma coluna quinzenal, sai sempre aos domingos.


publicado em 15 de Março de 2015, 23:23
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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