O malandro morreu

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O malandro morreu e, por alguma lei divina, foi aos céus como todos os pierrôs, colombinas, arlequins, polichinelos, bambas e congêneres. Descontente estava, porém. Corroía-lhe a alma haver morrido sem ter consumado sequer uma noite com certa beata, de olhos verdes como o verde da Mangueira. Dadá, sambista inquilino do céu, não tinha sossego justamente onde a paz deveria reinar. Pois que o malandro foi ter com o diabo. Fez um escarcéu no céu e desceu.

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O tinhoso apenas plantou um sorriso nos lábios e antecipou um abraço quase fraternal ao ver Dadá no inferno. Sabe-se que o diabo é um anfitrião ímpar aos que pisam seu solo soturno. É envolvente tal qual uma mulher, se, de fato, mulher não for.

— Quero voltar à Terra, doutor – disse ao cão o malandro. Explicou que sua escola de samba faria em breve o último ensaio geral antes de sair na Sapucaí, o que era verdade. Contudo, por vergonha ou discrição, preferiu omitir a tal moça, real motivo para desejar ascender ao mundo dos vivos.

— Eu tenho muito apreço por ti, nego. Admirava teu modo de vida: cachaça, cabrocha e jogo do bicho. – retrucou a besta, sorrindo-lhe cumplicidade. – Por isso, farei uma proposta simples. – expôs o diabo, mão esquerda posta sobre o ombro daquele homem, olhos pregados no escapulário de Nossa Senhora que Dadá trazia no peito. – Te colocarei na Terra, como queres. Em contrapartida, tu deves fazer um samba para mim. Um samba qualquer. Um samba com nenhuma ponta de saudade. Se não conseguires tal feito, nego, aí tu ficas aqui. Para sempre eu te terei. – arrematou o diabo, sílaba por sílaba.

O malandro aceitou a proposta num ímpeto. Em vida, fora autor de inúmeros sambas e choros. Não lhe seria grande empreitada compor uma peça. Aquele havia de ser um bom negócio: veria sua morena em troca de um samba qualquer. Antes de reentrar o mundo de cá, ainda ouviu a única instrução do diabo: quando achasse conveniente deixar a terra dos vivos, Dadá deveria ter o escapulário arrancado do peito.

Chegou por estes lados e logo adentrou o barracão. Trazia consigo um chapéu branco na cabeça, Nossa Senhora no peito e um sorriso de prepotência e ironia naquela cara de cafajeste. Nada temia – e o que havia de temer um homem de pacto amarrado com o diabo?

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No mar de texturas, sons e sabores do samba, Dadá avistou, do outro lado da quadra, sua morena Beatriz. Em vida e carne, o malandro desejara com devoção aquela mulher de olhos verdes como o verde da Mangueira. Aquela que nunca cedera, apesar das investidas de Dadá. Entre apaixonado e libertino, o sambista tentara sem sucesso uma noite, um beijo, um abraço, uma atenção distraída, que fosse. Tentara como se desejasse redenção. Dadá cruzou a quadra.

— Pensei que tivesse morrido, nego. – disse a bela mulher. Não trazia espanto nos belos olhos.

— Morri e voltei. Estava com vontade de te ver. – respondeu o malandro.

Beatriz achou graça. Ruborizou. Raras são as mulheres que ruborizam hoje em dia. A morena remendou um “não brinca com uma coisa dessas” e forjou displicência. Em verdade, aquela mulher estava satisfeita em ver o malandro, motivo secreto de algumas de suas noites maldormidas e dos calores noturnos.

— Eu tô aqui por você, nega. – sussurrou a voz rouca de Dadá no ouvido de Beatriz.Tomou a mulher pelos braços e nada mais disse.

Sem que a mulher protestasse, em pouco tempo estavam numa construção ao lado do barracão. Logo ela gemeu um “eu sempre te quis, nego, e sempre soube que te teria”. Repetia a frase e era interrompida por beijos e mordidas de Dadá. Com a morena nua nos braços, colados corpos, haveria de valer a pena o acordo com o diabo. Ele queria ir devagar; ela estava em êxtase e lhe arranhava a carne. “Eu sempre soube que te teria, nego.” Emaranhada nos pelos e beijos de Dadá, Beatriz rasgava a pele do malandro. Contorcia-se bruscamente, apesar de nem terem começado de fato. Num de seus solavancos, arrancou do peito de Dadá o escapulário.

O malandro percebeu o escapulário na mão de sua mulher e a ouviu gemer mais um “eu sempre soube que te teria, nego.” Num piscar de olhos, estava de volta ao inferno, trazido não por Virgílio, mas pelas mãos de sua morena. Nessa barca de bamba, Beatriz o conduzira de volta aos confins do nada.

Frustrado e incontido em desejos, ainda sentindo o cheiro da mulher, o coitado sambista quis desfazer o pacto. Alegaria que o diabo não sustentou sua parte no acordo. Ademais, se o diabo fosse esperto, saberia que promessas de malandro não se cumprem. Faria do inferno um inferno e não aceitaria estar de voltar sem ter possuído de fato sua Beatriz.

— Teu desejo foi explícito e atendido. Tuas razões, explanadas. Mas não tenho como deferir teu pedido. – objetou o diabo, pleno em suas razões legais. – Tu querias ver o último ensaio geral da tua escola. Foi-te concedido.

O malandro se calou.

— Anda. Prepara-te para meu samba. – completou o diabo.

O malandro concordou.

Eis senão quando o malandro não conseguiu fazer o samba. O cavaco não chorava como devia. Tampouco a letra fazia sentido. Não havia poesia, ritmo. Tentava criar algo, mas a saudade da morena permeava seus pensamentos, anuviando qualquer deixa de samba.

— Mas o que te acontece? Cadê aquela tua cadência? – zombou o diabo, dono de todo o escárnio.

Dadá apenas pensava em Beatriz. Sentiu o coração, outrora vadio e compassado no ronco da cuíca, pesar-lhe no peito.

— Eu sempre soube que te teria, nego. – disse o senhor dos excomungados, mirando com os olhos verdes como o verde da Mangueira, antes de trancafiar Dadá para todo o sempre. Desde então, céu e inferno ficaram sem samba.


publicado em 16 de Setembro de 2011, 21:01
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Rodolfo Viana

É jornalista. Torce para o Marília Atlético Clube. Gosta quando tira a carta “Conquiste 24 territórios à sua escolha, com pelo menos dois exércitos em cada”. Curte tocar Kenny G fazendo sons com a boca. Já fez brotar um pé de feijão de um pote com algodão. Tem 1,75 de miopia. Bebe para passar o tempo. [Twitter | Facebook]


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