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O mistério do samba: de onde vem o "lala laiá" que a gente sempre canta?

Samba bom tem que ter "lala laiá" e fazer a roda explodir em coro e arrepio

Noel Rosa já dizia, em 1933, que o samba não tem tradução no idioma francês. Segundo o filósofo do samba, "tudo aquilo que o malandro pronuncia / com voz macia é brasileiro / já passou de português".

Apesar de a letra marcar um ufanismo despertado pelo avanço imperialista cultural norte americano da época, temos de concordar: tem coisa em samba que é difícil de traduzir, outras, que não tem tradução de jeito nenhum e, outras ainda, que nem precisam ser traduzidas.

Talvez seja nessa última categoria que a expressão "lala laiá", quase que obrigatória em um bom samba, mais se encaixe.

O Poeta da Vila, Noel Rosa: ‘a gíria que o nosso morro criou, bem cedo a cidade aceitou e usou’.

O que sempre me atraiu em sambas que traziam refrões, introduções ou finais arrebatadores cheios de "lala laiás" foi o momento em si. A mágica na qual a canção se entrega à melodia pra que o povo cante até de manhã. 

Impossível não se arrepiar dos pés à cabeça quando a roda inteira explode em um apoteótico "lala laiá". Mais difícil ainda é não se deixar levar. Mesmo os sambas em tonalidade menor, sobre amores perdidos, mágoas, tristeza, críticas políticas e sociais, miséria e morte, culminam em um canto quase que terapêutico, em que a dor se transforma em carnaval.

Em que momento o compositor decide que, naquele compasso da música, naquele instante de frisson, entra um "lala laiá"? Será que os grandes autores da nossa música sabiam que estavam deixando um grande presente para cada um de nós? Como quem diz, "agora é com vocês. Rasguem o gogó e libertem seus corações. Sintam o que eu senti".

O "lala laiá" é, além de tudo, um ato democrático. Não é necessário conhecer a música ou gostar de samba para se juntar ao coro. É um canto simples e arrastado. Fácil até para gringos e para aqueles que já tomaram algumas a mais.

Link YouTube | João Nogueira canta "Súplica" no seu Clube do Samba. "Venha a mim, oh, música / Vem secar do povo as lágrimas / Que todos já sofrem demais / E ajuda o mundo a viver em paz".

La la lá, onde?

Não se sabe ao certo quando o tal "lala laiá" apareceu pela primeira vez. Provavelmente, muito antes de 1917, quando Donga registrou "Pelo Telefone", o primeiro samba gravado na história. Ou das rodas organizadas no quintal da baiana, cozinheira e mãe de santo, tia Ciata, na Praça Onze, no centro do Rio de Janeiro, quando os sambistas ainda eram perseguidos pela polícia, que reprimia a cultura negra e os obrigavam a tocar escondidos pelas vielas dos morros e fundos de quintal.

Qualquer negro que andasse na rua tarde da noite com um pandeiro na mão era imediatamente preso por vadiagem.

Com alguma sorte e muita pesquisa, provavelmente se encontre algo parecido com os "lala laiás" do que veio a ficar conhecido como os grandes clássicos do samba de raiz (outro rótulo injusto) no Samba de Roda do Recôncavo Baiano, do século XIX.

Ou antes ainda, nos primeiros rituais dos terreiros de candomblé de um Brasil ainda incerto de sua identidade, em tempos em que o samba, a feijoada, a capoeira e o futebol nem sonhavam em se tornar os grandes símbolos da autenticidade brasileira.

Paulo Benjamim de Oliveira (Paulo da Portela), Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Alcebíades Barcelos (Bide) e Armando Marçal, fundadores da Deixa Falar em 1928, a primeira escola de samba da história, que se transformaria, anos mais tarde, na Estácio de Sá.

"Lala laiá" é uma febre, uma catarse.

A tradução literal para o sentimento profundo que essas canções despertam. Talvez Noel não queria admitir, mas "lala laiá" é facilmente compreendida por qualquer pessoa ao redor do mundo, não precisa de explicação.

É música pura, e nessa linguagem a gente ainda se entende.

O projeto Lala Laiá

Foi por pura emoção e admiração a esses instantes especiais e efémeros que resolvi batizar a minha homenagem aos grandes compositores e instrumentistas da nossa música de Lala Laiá, uma websérie sobre encontros e releituras.

Link VimeoNo primeiro episódio, uma releitura do clássico "Laranja Madura", de Ataulfo Alves. Coisa fina. Coloque o fone e aperta o play!

Durante 6 episódios, convidei músicos amigos ao estúdio para interpretar novos arranjos para clássicos de Adoniran Barbosa, Ataulfo Alves, Luiz Gonzaga, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho e Zé Keti, mesclando a música de hoje à de outros carnavais.

Está tudo gravado, mixado, masterizado e pago até aqui. Para finalizar os últimos episódios e, principalmente, montar um show de encerramento da 1ª temporada e um episódio especial ao vivo, ainda precisamos arrecadar um restante via financiamento coletivo. Se tiver afim de colar junto, entre na página da campanha no Catarse e apoie.

Estar debruçado sob a obra desses compositores tão únicos é mais que um privilégio. Manter suas obras vivas e torná-las atuais é uma missão, uma paixão e um favor aos menos familiarizados com nossos maiores tesouros.

Link YouTube

Você pode acompanhar também as novidades da websérie Lala Laiá na página do Facebook ou no site oficial do projeto. E claro, a campanha está no ar pra quem quiser ajudar a construir isso juntos.

Partiu?

Que tal mandar um "lala laiá" pra vida?

Preparei especialmente pra esse post no PapodeHomem uma playlist com sambas que trazem "lala laiá" em seus refrões, coros ou estribilhos. Coisa linda pra você ouvir sempre que quiser e principalmente em momentos mais conturbados. Pelo menos a mim faz muito bem. Tem João Nogueira, Nelson Cavaquinho, Martinho da Vila, D. Ivone Lara, Chico Buarque, Elza Soares, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Élton Medeiros, Teresa Cristina e muito mais.

Um convite: além de dar o play, tente fechar os olhos no momento do "lala laiá" e sentir a energia de uma roda de samba. É legal pra tocar também no banho e soltar o verbo e os "lala laiás" sem constrangimento.

Conhece outras músicas que nos presenteiam com mais "Lala Laiás"? Deixe nos comentários.


publicado em 01 de Dezembro de 2015, 00:00
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Gut Simon

Músico, comunicador social e ativista. É um dos fundadores da Rede Minha Sampa e da Virada Política. E a mente por trás da websérie musical Lala Laiá e Cidade Acústica.


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