O Monte Everest, passo-a-passo, Parte II

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Continuação da primeira parte da jornada rumo ao topo do Everest. Se você já considerou os primeiros 5000 metros difíceis, não viu nada.

O Acampamento-Base do Everest

Distante onze quilômetros de Lobuje, a 5364 metros, fica o acampamento-base do Everest. O plano normalmente consiste em sitiar a montanha, ao mesmo tempo que se faz a aclimatação gradual e necessária.

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Esse jardim de tomates e ervilhas é na verdade um exemplo de acampamento-base

Os sherpas vão na frente, e levantam um acampamento, depois a expedição vai atrás. Repete-se tal procedimento mais 3 vezes, num total de 4 acampamentos, sendo o quarto situado no colo sul do Everest, a 7924 metros de altitude. Dali se parte para o ataque ao cume.

O caminho é feito sempre em idas e vindas ao acampamento-base, para melhorar a aclimatação. Todo o processo leva em torno de 1 mês.

Porém, entre o acampamento-base e o acampamento 1, está um dos trechos mais temidos pelos alpinistas, a cascata de gelo do Khumbu. Existem quedas d´água neste rio (afinal, você está andando sobre ele, e rio acima), e imensos blocos de gelo do tamanho de edifícios, chamados seracs podem se tornar instáveis e até caírem sobre os alpinistas (houve casos de alpinistas esmagados por seracs que caíram).

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A subida por Khumbu, observe atentamente a paisagem amigável, cheia de vida

Ainda existem as fendas no glaciar, uma pisada em falso e a pessoa cai num buraco imenso, podendo até morrer. Todo cuidado é pouco. Para piorar, o período de aclimatação exige que você faça a escalada deste glaciar umas 7 vezes (pelo menos foi o que aconteceu na expedição que Krakauer participou).

Uma tenebrosa visão que acomete os alpinistas, relatada por Krakauer, foi um momento em que ele andava e tropeçou em algo envolvido por um plástico cinza. Um pouco embotado pela altitude, levou algum tempo para perceber que aquilo era um cadáver humano.

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Fenda. O bacana é que você cai e já torce um três membros na hora.

Logo após encontrou outro, ou melhor, metade de outro, e pelo estilo de roupas concluiu que estava ali há pelo menos 10 ou 15 anos. Sim, a montanha está cheia de vítimas espalhadas pelo caminho, pois é extremamente difícil o resgate dos corpos.

Uma das primeiras pessoas a morrer no Everest, o inglês George Leigh Mallory, em 1924, só teve seu corpo resgatado 75 anos depois. Outros estão lá até hoje.

Perigos e Males da Atitude

Neste ponto, o ar rarefeito já começa a trazer seus males. Fica praticamente impossível dar mais que 5 passos sem parar para respirar. Indisposição é algo freqüente.

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Destroços de helicóptero no caminho rumo ao topo

Dores de cabeça fortes podem acometer os alpinistas, podendo inclusive evoluir para um estado chamado edema cerebral de altitude elevada, onde a pessoa apresenta desorientação excessiva, nega os sintomas, e quando vê, está inconsciente. Se não for evacuada a tempo para altitudes menores, é morte na certa.

Outra condição que acomete os alpinistas é o edema pulmonar de altitude elevada. Simplesmente os pulmões se encharcam e nem oxigênio resolve. Esta condição matou um sherpa da expedição de Krakauer.

O frio também cobra seu preço. Mesmo que usem roupas adequadas, temperaturas que podem chegar a 70 graus Celsius negativos costumam acometer as extremidades e o nariz. Em certo ponto, é difícil sentir as pontas dos dedos.

Queimaduras pelo gelo podem ocorrer. Um dos guias da expedição de Krakauer já tinha os dedos de um dos pés amputados por gangrena. Após os eventos que levaram à tragédia de 1996, um dos sobreviventes perdeu uma mão e parte do nariz.

Outra condição, não relacionada à altitude e sim à neve é a cegueira temporária. Os raios do sol refletidos na neve atingem a retina com grande intensidade. Se não usarem óculos especiais, ao final do dia, os alpinistas ficam cegos por um tempo.

Mesmo auxiliados por garrafas de oxigênio, o embotamento mental é intenso. Cada passo é um gasto de energia terrível, normalmente se dá um passo e pára-se em busca de fôlego. Este embotamento mental pode custar vidas. Um erro de julgamento, um passo em falso, a falha ao se pendurar nas cordas, e uma queda ao longo dos flancos da montanha podem ser fatais.

Outro perigo imenso é o chamado jet stream, ventos fustigantes que atingem o topo da montanha e levam a sensação térmica lá para baixo. Tempestades também são comuns.

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Avalanche no Everest, o pesadelo de todo alpinista

Associado a isso, chega um momento que o trato gastro-intestinal simplesmente pára de funcionar para que o sangue possa ser levado aos centros mais vitais. Alimentar-se é impossível.

Acima de 8000 metros, entra-se na chamada Zona da Morte. Não existe possibilidade de aclimatação, e se permanecer ali por mais de 48 horas, as funções do organismo se deterioram e a morte é certa.

O Ataque ao cume a Tragédia de 1996

Do acampamento 4 (7924m), se procede o ataque ao cume, ou seja, vencer os 928 m de altitude restantes. Este vai depender de uma série de fatores. O vigor restante à equipe e as condições climáticas são alguns deles.

Os alpinistas normalmente só têm uma chance de fazê-lo. Se o tempo não ajudar, é sábio abortar a missão e retornar de outra feita. Isto pode valer vidas.

Com condições adequadas, a expedição parte em torno da meia-noite para escalar os 928 metros restantes. Num ritmo adequado, chega-se ao cume por volta de meio-dia. Passa-se pouco tempo lá, pois é perigoso iniciar a descida após às 14h.

Naquele dia em 1996, uma conjunção de fatores ocasionou a pior tragédia numa escalada do Everest. Alpinistas inexperientes em expedições comerciais, muitos estavam praticamente sem condições de subir, sendo ajudados por outros (uma perda de tempo muitas vezes fatal), um número grande de expedições causou engarrafamento em certos pontos da escalada. Mas o principal foi a tempestade que se deu no final da tarde, quando alguns ainda desciam.

Alguns, como Krakauer, apresentavam condições melhores e conseguiram chegar ao acampamento 4 à tempo. Outros, como o experiente guia Rob Hall estavam tentando ajudar clientes a chegar ao topo, e no final, perderam tempo precioso e pagaram com suas vidas.

Um dos guias estava tão desorientado que errou o caminho e caiu no flanco da montanha. E finalmente, um grupo que estava atrasado, na escuridão, foi fustigado por uma tempestade de neve no final da descida. Sem conseguir ver um palmo à frente, passaram a noite amontoados na neve, à temperatura de 70 graus Celsius negativos.

Dois integrantes do grupo, quando amanheceu, foram dados como mortos, e ali abandonados. Um deles conseguiu, milagrosamente, se erguer sozinho e voltar ao acampamento (foi este que teve a mão e parte do nariz gangrenados).

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Sagharmatha

Ao mesmo tempo, uma expedição indiana que escalava a outra crista do Everest perdeu 3 de seus membros. Tentou-se uma expedição para resgate de alguns corpos, mas isto significaria perder ainda mais vidas.

Naquele dia, o Everest consumiu doze vidas.

Os sherpas costumam venerar o Everest (Sagharmatha, como o chamam). E o preço que a “divindade” cobra àqueles que desafiam-na, é altíssimo. Por isso hoje entendo a devoção e a dor do povo neozelandês por Sir Hillary.


publicado em 15 de Janeiro de 2008, 08:40
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Mauricio Garcia

Flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico e o nosso grande Dr. Health.


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