O nascer e morrer no caminho de Santiago

Jorge Maluf explica por que o Caminho de Santiago é uma experiência de meditação ativa

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Para quem não conhece, o Caminho de Santiago é um percurso percorrido por peregrinos até a cidade de Santiago de Compostela, na Espanha. A história começou no século IX quando algumas pessoas, por motivos religiosos, tinham a ambição de chegar à pé até a Catedral de Compostel – é lá que, teoricamente, estão enterrados os restos de Santiago Maior, um dos doze apóstolos de Jesus Cristo. O tempo passou e o caminho ganhou ainda mais importância: hoje ele é percorrido por todos os tipos de pessoas e motivos – não só os religiosos. 

O ponto de partida varia e existem diversos caminhos diferentes. A maioria deles cruza a Espanha e o mais conhecido é o Caminho Francês, que inicia a jornada em Saint Jean de Pied de Port, cidade na fronteira da França com Espanha. Eu fiz este caminho, mas por motivos de tempo a minha experiência começou em Burgos - cidade a 470 quilômetros de Santiago de Compostela.

Caí de paraquedas na ideia de atravessar o caminho. Estava morando fora do Brasil já fazia um tempo e antes de voltar para a minha terra natal queria uma experiência bônus. Muitos amigos me aconselharam o Caminho, e as histórias que me contavam eram incríveis! Pesquisei, pesquisei mais um pouco e pensei: oras, porque não? Não tinha ideia do que me esperava, não tinha um objetivo claro e não sabia o que me incentivava a percorrê-lo. Hoje, posso dizer que o Caminho é quem me chamou. Era para eu ter feito, e me considero uma pessoa melhor após essa experiência. Uma pessoa de sorte.

O objetivo deste texto – com fotos, curiosidades e descrições de como funciona o caminho – não é tecer um relato para alguém replicar minha experiência, até porque isso é impossível. Cada um tem a sua própria durante o trajeto e, mesmo que você percorra a jornada mais de uma vez, elas sempre serão diferentes.

O Caminho provê o que cada pessoa precisa naquele momento da vida, como se fosse algo místico.

***

Cheguei em Burgos, 13ª etapa do Caminho Francês, às 4 da manhã de um busão saído de Barcelona. Estava quebrado e queria muito descansar. Não tinha ideia de onde ir e aquela hora da noite não havia uma alma viva para perguntar. Adquiri um mapa com o oficial da estação ferroviária e fui à procura de um albergue. Por sorte, encontrei um especial para peregrinos. Um albergue para peregrinos é diferente de um albergue normal: eles têm algumas regras específicas, como horário para dormir e acordar, não têm quartos separados – a maioria deles são diversos beliches num ambiente –, banhos compartilhados e um preço SUPER justo. A maioria custa 5 euros. Alguns albergues se mantêm com donativos, e você paga o quanto quiser.


É fácil identificar albergues para peregrinos. Eles têm esse símbolo de concha na porta. Ou basta procurar pelo Albergue Municipal

Entrei no albergue, subi uma escada gigante de madeira em caracol e deitei numa cama vazia que consegui enxergar no escuro. Não deu nem 20 minutos e as luzes se acenderam. Um homem falando espanhol pedia para que acordássemos e partíssemos logo, pois precisava arrumar o ambiente para os próximos peregrinos. Uma das regras desse  tipo de albergue é que você só pode passar uma noite em um deles, e deve partir no dia seguinte. Eu, como havia acabado de chegar, tentei explicar ao homem – o hospitaleiro, que é quem cuida de você – que havia chegado naquele instante e precisava ficar por lá aquele dia. Meu espanhol é uma bosta e não sabia falar uma palavra sequer, mas por sorte um homem que estava lá começou a traduzir do inglês para o espanhol. O hospitaleiro entendeu e me deixou ficar. Esse cara que me ajudou a ser entendido foi o meu primeiro amigo do caminho.

Como é a rotina do Caminho de Santiago

As pessoas acordam às 5 da manhã para começar a caminhar. Se você não acordar, o hospitaleiro lhe acorda às 6, haha. Não é à toa que a caminhada começa cedo: o verão espanhol tem um sol assassino, principalmente nas regiões de Castilla y Leon, Aragon e Catalonia.

Cada dia percorrido é encarado como uma etapa cumprida. O Caminho Francês, por exemplo, tem 31 etapas com uma média diária de caminhada que varia entre 25 e 30 quilômetros. Resumindo: você acorda cedo pra caralho, caminha 25km num sol ferrado, chega na próxima cidade por volta das 13 ou 14 horas, se hospeda no albergue, cuida das bolhas e dores no corpo e descansa para o próximo dia.

Por que alguém faria isso, meu Deus??

O Caminho de Santiago é uma ”mini vida”, um mundo paralelo. Você nasce e morre nele. Quando cheguei a Burgos, estava saindo do útero. Quando cheguei ao meu destino final, chorei muito porque queria continuar vivendo e caminhando, mas meu corpo morreu. Mesmo assim, não parei em Santiago. Fiz o “epílogo” e percorri mais 160 quilômetros – em quatro dias (ou etapas) – até Muxia e depois Fisterra, quando a terra chega ao fim (de acordo com os espanhóis medievais, o mundo acabava ali).

Ao todo, caminhei 630 quilômetros. Se eu pudesse caminhar sobre as águas, continuaria até as Américas.

Farol de Fisterra


Oceano sem fim

Uma jornada solitária

Uma opinião quase geral é a de que é mais legal – ou preciso – começar o caminho sozinho ou, no máximo, em um par (com um amigo, namorado(a), parente). Por quê? Bom, por que é o SEU caminho! 

Chegar à Compostela é um pretexto, um objetivo que esconde algo bem maior que acontece dentro de cada viajante. Você aprende a se conhecer e a dar valor a coisas que nunca importariam na vida real. Você tem o seu tempo, o seu passo, o seu ritmo. É difícil, dói pra caralho e vai acontecer uma sofridinha básica. Mas ao mesmo tempo a caminhada é tão gratificante e preenche tanto que só é possível de ser compartilhada por inteiro com a própria alma – mais ninguém.

Conheci várias pessoas e compartilhei momentos eternos, mas todos estavam a sós em relação a seus objetivos pessoais. Quando alguém falava “quero ficar sozinho”, a pessoa simplesmente ia em frente e a víamos dois ou três dias depois. O respeito pelo ideal do outro era visível. Seria muito chato caminhar ao lado de alguém e escutar o tempo todo “me espera, vai mais devagar, tá doendo, leva pra mim”. Existem histórias de amizades e relacionamentos que acabaram por lá – assim como histórias sobre aqueles que ali começaram. Os amores do caminho são lindos.

Também pode ser uma jornada em grupo

Dizem que no caminho de Santiago a gente começa sozinho, mas nunca termina só. Apenas em Burgos, no meu primeiro dia antes de caminhar, conheci muita gente. Muita gente mesmo! Comecei o trajeto sozinho, passei por três grupos diferentes e acabei o caminho com uma amiga espanhola que conheci em um desses grupos – embora ela também tenha começado sozinha. 

Como compartilham do mesmo interesse – chegar a Santiago –, os grupos se reúnem naturalmente. Isso significa que caminhamos juntos, dormimos no mesmo albergue, vamos jantar juntos, beber juntos, cuidar dos problemas psicológicos, estourar bolhas dos pés um dos outros...

Meu pé de peregrino

As pessoas não se separam de um grupo por que acham outro mais legal. Isso acontece porque elas se vão naturalmente, assim como acontece na vida real. Uma quer ficar mais tempo numa cidade, outra desiste e pega um ônibus para a próxima etapa, outra quer fazer duas etapas em um dia só. Algumas pessoas simplesmente desaparecem.

Quando um dia começava, às vezes soltava um “nos vemos pelo caminho“ e andava para dentro da minha vida. Ri e chorei muitas vezes sozinho. Corria e caminhava. Nadei em lagos e pulei de pontes. Fiz siesta debaixo de todas as árvores possíveis. Quando passava um conhecido, desejava-lhe buen camino e a vida seguia.

O dia amanhecia trazendo consigo todas as dores, mas chegava ao fim com uma satisfação absurda pelas experiências que aconteciam. A primeira semana é a pior. Depois disso o corpo se acostuma com a rotina e não existem mais reclamações. O Caminho de Santiago é uma meditação ativa. Cada dia se aprende algo novo sobre si mesmo. Caminhar em silêncio, caminhar conversando... tanto faz. O importante é caminhar.

Abaixo, alguns trechos que fotografei durante o Caminho Francês.










Sobre a caminhada em si

Quando você inicia a jornada recebe a credencial do peregrino, que é o documento que prova a partir de onde você começou a caminhar. A cada albergue em que você fica, a credencial também é carimbada. Na verdade, quase todos os lugares em que você passa durante o caminho podem carimbá-lo, se você quiser (inclusive bares, igrejas, restaurantes). É um item bem legal, pois se torna um histórico das suas passagens.


“Ah, e como faço pra não me perder?”. Relaxe. O Caminho inteiro é demarcado por flechas amarelas, e basta segui-las com atenção. Até por que se você pegar um caminho errado e andar 5km no sentido oposto, você vai ficar com MUITA MUITA raiva (aconteceu comigo).

Mira la flecha amarilla!

Quanto mais próximo de Compostela, mais gente no Caminho. Isso acontece por que quando você chega à Santiago é possível requerer a ”compostelana”, um certificado de conclusão do caminho provando que você é um verdadeiro peregrino. Como só o recebe quem fizer no mínimo 100km até Santiago, muita gente começa na etapa 27, pueblo de Sarrià, que fica exatamente a essa distância da Catedral. Essa quantidade enorme de pessoas (a maioria busca apenas o certificado) é um saco porque os macacos velhos, que começaram lá longe, que estão todos quebrados, parecendo mendigos e cheio de bolhas, só querem continuar a ter sossego e espaço para passar.

A essa altura, nós, os “macacos velhos” já não acordamos mais às 5 da manha pra caminhar ou terminamos cada etapa às 13 horas da tarde. A gente faz o caminho mais sossegado, porque já estamos curtindo cada passo sem dor. Somos como os idosos dessa “mini-vida” andando no meio de crianças que acabaram de nascer. Tem tanta gente nessa parte do caminho que, muitas vezes, não havia mais lugar no albergue para dormirmos. Em uma dessas ocasiões, chegamos a pernoitar na porta de uma igreja na minúscula cidade de O Cebreiro (a etapa mais difícil do Caminho Francês). 

Aquela noite foi memorável, com direito a música e gaita e um banho numa fonte local com todos os turistas olhando. Na hora de dormir fez tanto frio, mas tanto frio, que nós – estávamos em quatro – acordamos de madrugada ao mesmo tempo com a espinha ardendo. Olhamos para frente e vimos a garoa, a neblina e o silêncio da cidade. Vimos o que pareciam ser pessoas voando, ou uma alucinação em conjunto… dormimos tão juntos de medo e frio que se pudéssemos entraríamos um dentro do outro. Em outros dias também dormimos em um cemitério com barracas emprestadas por outros peregrinos, em um ginásio poliesportivo lotado de gente e debaixo de um ponto de ônibus.


Preparando para a noite na porta da Igreja de O Cebreiro


No Cemitério de um lugar no meio do nada.

O Caminho de Santiago é lindo. E quanto mais próximo do final, na área Galega da Espanha, tudo parece mágico como em um conto de fadas. Muito verde, árvores, rios e lagos (e menos sol, haha). Houve vezes em que chegamos às 20 horas no destino final da etapa só por que parávamos em todas as cidadezinhas pra tomar um vinho, comer um pão, dormir um pouco, pular, conversar e nos encontrarmos de volta, porque um queria ir ali, outro aqui... “Ah, ok! Nos encontramos mais pra frente!”. Ah, que saudades...

É claro que você pode andar direto até o final da etapa se quiser e garantir seu lugar no albergue. Mas o caminho ficou para trás! 

Agora chega de texto, porque as fotos falam por si mesmas. Abaixo separei algumas das que fiz durante o caminho.

Albergue


Albergue
















Para finalizar, algumas imagens dos peregrinos.





Sim, eu caminhava com sandálias e meias. Julgue minha moda! haha

Obrigado por ler até aqui, e continuamos nos comentários pra quem quiser saber mais.

Um abraço a todos, e buen camino!


publicado em 29 de Abril de 2015, 00:05
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Jorge Hynd

Fotógrafo interessado em pessoas e na constante busca sobre uma visão simples, porém sofisticada, da vida. Focado em fotografia contemporânea de cunho artístico, nus e, principalmente, retratos. @jorge.hynd (Instagram).


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