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O número de Dunbar e seus contatos no Facebook

Facebook, Twitter, LinkedIn, Foursquare, vivemos em uma época com cada vez mais redes sociais e mais funções associadas. Para entender como elas surgem, se fortalecem e ganham novas capacidades, temos de voltar aos primeiros grupos que formamos.

Uma das questões mais intrigantes da história humana é o tamanho de nosso cérebro. Claro, não é só o tamanho que importa, mas o que ele é capaz de fazer. E a área que mais cresceu em nosso cérebro durante a evolução dos primatas foi o neocórtex (neo vem de novo), região responsável pelos pensamentos mais complexos como interação com outros e teoria da mente — eu penso no que ele pensa do que eu penso.

Dentre as várias hipóteses do motivo pelo qual ganhamos tanta capacidade mental está a proposta de que nossa vida social foi importante para isso. A ideia é reforçada pelo fato de que outras espécies animais, como a hiena, também têm um cérebro maior quando convivem em grupos sociais grandes. E foi o que o primatologista inglês Robin Dunbar estudou: o tamanho do cérebro de primatas em relação ao grupo que eles formam.

"Sei que você é um chimpanzé de outra floresta, mas aceita ser meu amigo?"

Cérebro e relações sociais

Realmente, quanto maior o tamanho do grupo, maior o tamanho do cérebro dos que convivem. Chimpanzés e babuínos, por exemplo, possuem grupos de até 60 animais, o maior entre primatas não-humanos, e também têm os maiores cérebros. Projetando o tamanho de grupo deles para o nosso volume de cérebro, chegamos ao número de Dunbar, algo entre 100 e 230 indivíduos, mais provavelmente 150.

O número de Dunbar significa dizer que nós interagimos mais intimamente com cerca de 150 pessoas ao longo de nossa vida. Isso não quer dizer que você não possa conhecer mais gente, mas sim que você não vai ser tão próximo de todos eles. Mesmo que seu MSN tenha uma lista de 2 mil contatos, dificilmente você vai conversar com mais de 50 regularmente.

E este número de 150 pessoas é bastante frequente em agrupamentos. O número de pessoas em grupos de caçadores da Nova Guiné costuma ser esse, bem como o de soldados na maioria das companhias militares. Muitas empresas pautam o tamanho de divisões nesta medida. E tão ou mais importante do que o número em si é uma consequência que nos acompanha até hoje. A fala.

Fala, propriedades emergentes e cultura

O que mantém os primatas unidos é o contato entre eles. Contato que se dá na forma de catação e alisamento de pelos. Familiares, parceiros, companheiros de aliança, todos se alisam. Mas isso consome um grande tempo. Um chimpanzé passa em média 20 a 25% de seu dia alisando outros, e se nós fôssemos manter contato desta forma, gastaríamos quase metade do nosso período acordado assim, deixando de caçar entre outras coisas.

No Facebook de macacos, trocaram a opção "cutucar" por "alisar".

Em algum momento durante nossa evolução, enquanto o cérebro foi ficando maior, bem como a capacidade de manter relação com mais indivíduos; sofremos uma pressão crescente para nos comunicarmos mais por grunhidos e sinais do que catando pelos. A consequência foi a evolução da fala, por meio da qual podemos manter um contato constante com mais gente ao mesmo tempo. De fato, uma pessoa passa em média 20% do seu dia conversando e entre 60 e 70% deste tempo falando de outras pessoas. Puro contato de grupo.

O próximo passo é o pulo do tamanho e da capacidade que ele proporciona. Existe um princípio chamado de propriedade emergente. A propriedade emergente é uma condição que só acontece quando um sistema atinge um tamanho crítico, e passa a se comportar de uma maneira que não seria possível antes. Como o urânio-235, nunca se sabe quando um átomo individual vai se partir, mas uma massa de urânio se divide pela metade precisamente em 704 milhões de anos.

Assim como um tamanho maior de cérebro não só aumentou nossa capacidade de fazer as mesmas coisas que outros primatas fazem melhor, mas também trouxe novas habilidades, um grupo maior de indivíduos abriu novas possibilidades. Com mais pessoas convivendo juntas, e agora falando, conseguimos desenvolver uma cultura. Alguns se especializam em certas atividades, outros podem discutir e planejar grandes ações, e, o mais importante, agora podem transmitir esta capacidade adiante (veja a palestra abaixo do TED).

Cada nova etapa em nossa evolução trouxe uma propriedade emergente. O desenvolvimento da cultura trouxe novas ferramentas, que permitiam uma caça muito mais eficiente, que talvez tenha extinto vários animais nos últimos 10 mil anos. A agricultura, que permitiu uma população maior e mais densa do que qualquer outro animal de grande porte. E a propriedade emergente mais inovadora e inédita, a escrita, que permitiu uma acumulação absurda de cultura e acelerou ainda mais o processo.

Link vídeo TED | Para ativar a legenda em português, clique em "View subtitles".

O futuro

Agora, aceleramos o tempo até os últimos 4 ou 5 anos. Nossa cultura agora nos permite criar enormes redes sociais por meio da internet. Ao mesmo tempo, cada previsão feita sobre qual delas vai dar certo ou errado, ou para que será usada, falha. O Twitter foi criado para ser uma maneira de trocar SMS entre várias pessoas ao mesmo tempo, nenhum de seus criadores foi capaz de prever o que ele se tornaria. E por quê? Novamente, propriedades emergentes.

Com o grande grupo de contatos que somos capazes de manter, e o aumento do acesso à internet, cada vez mais pessoas entram nestas redes — o Facebook já é maior do que muitos países, e muito mais dinâmico — e criam o espaço para que propriedades emergentes apareçam. Novas funções, serviços associados, integração e muito mais que ninguém imagina. Justamente por que não se pode saber, novas funções aparecerão apenas quando o número de pessoas permitir.

O melhor que você pode fazer agora? Esqueça aquele papo de que estamos cada vez mais distantes e que as pessoas não se falam. Pelo contrário, estamos cada vez mais próximos. Sente, relaxe e assista de camarote, pois nem eu nem você podemos saber o que vem pela frente. E só tende a melhorar.

Fonte: De Waal, Frans (2001): Tree of Origin: What Primate Behavior Can Tell Us about Human Social Evolution, Cambridge, Mass., Harvard University Press.


publicado em 05 de Dezembro de 2010, 17:03
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Atila Iamarino

Doutorando pela USP, biólogo viciado em informação e ciência. Autor do excelente blog Rainha Vermelha e editor do Science Blogs Brasil, o primeiro condomínio de blogs de ciência brasileiro. Vá lá expandir seus horizontes!


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