O orgulho do pai

“Meu pai era um santo!”. Era o que bradava o garoto quando entrou no Andorinha, boteco de segunda mão que reunia basicamente dois tipos de pessoas com sínteses muito distintas. Lá, entrava ou trabalhador pesado – carregadores, batedores, limpadores, seguranças – ou quem não era dado a trabalho. Por isso certo espanto quando o garoto adentrou e pediu uma cachaça. Menos estranhamento ele causou quando, depois de consumir sua “marvada” numa única talagada, tossiu e bateu na mesa e se abriu feito flor. Sem que lhe fosse concedida, tomou a palavra: “meu pai era um santo!”.

Sobrou para o homem do balcão que, sem botar os olhos no rapaz, teve de ouvir sua história.

“Eu nunca vou conseguir honrar meu pai. Homem como ele não há de haver de novo”. E tomou outra cachaça.

Ninguém no boteco pareceu se importar. Era uma bodega que abria cedo, servia almoço no verpertino e, após lavar as panelas, ligava a maquineta que tocava músicas de amor e esperava desiludidos e conformados se aprochegarem para beber. O bar sempre fechava quando a primeira briga começava. O garoto, um menino que certamente estava há pouco tempo na maioridade, usava calças bem cortadas e de um cinza cintilante. Sua camisa branca não estava impecável como merecia estar, tomada a noção de que tinha um tecido caro. Os sapatos estavam sujos de lama e com umas manchas escuras na parte de cima que, depois, soubera ser pontos onde as lágrimas caíram durante a tarde.

“Meu pai sempre foi bom para mim. Tentou me educar do melhor jeito possível, cuidou da mamãe e da minha irmã. Jamais me imaginei nesse mundo sem meu pai. Era ele quem me dava conselhos e era com ele que eu sempre ia ter”. E pediu outra cachaça.

O homem do outro lado do balcão não compadeceu. O que o garoto não sabia era que sua expertise não era servir bebidas, ele não era um barman, um profissional dos drinks. O que o homem atrás do balcão tinha que saber, mas do que qualquer um, era a arte da seleção do que ouvir e do que deixar pra lá. Se ele mantivesse curiosidade em cada choro, em cada drama, não faria o bar faturar e levaria para casa uma carga tamanha que poderia não conseguir carregar sem se deixar afetar. Um bom balcão de boteco sabe a hora de intervir.

“O papai trabalhou demais. Vivia viajando e sempre que voltava, queria me ver. Contava-me das suas andanças, tentava me ensinar um pouco mais do mundo, das pessoas que conhecia. O que eu não sabia era que a tuberculose podia ser uma doença tão fácil de ser escondida. Ou o meu pai que era bom na arte de dissimular. Nunca vi o velho tossindo, nunca vi seu lenço sujo de sangue. Ou ele era bom demais ou eu que sempre fui um filho relapso e não dava a real importância à figura do meu pai”.

O garoto pediu mais uma cachaça. Novamente fez um escândalo incomum para aquele tipo de bar quando entornou o álcool goela abaixo. Tossiu novamente, bateu o pé no chão várias vezes. O bar funcionava organicamente evitando o garoto. Ninguém ia querer ficar de papinho com um fedelho, ninguém arriscaria ter de dar um abraço no moleque chato. O pessoal que frequentava aquele bar não ficava de choro com garçom. Isso é coisa de universitário romântico. Naquele bar, todo mundo se acostumara com o pesar, eram endurecidos todos os dias. Não tinha gente chorando o sofrimento. Só o garoto.

"E eu? Eu sou a lástima. Sou eu o equívoco da família e da genética. Meu pai, um homem tão bom e eu, um gastão de primeira. Meu santo pai trabalhou a vida todinha tentando me dar para educar. Me botou em escolas boas e em uma faculdade de primeira, mesmo sem ter como pagar direito. Era para eu dar orgulho, satisfação para ele. Um mínimo de prazer em retribuição a tudo o que ele me deu. Mas eu só fiz foi dar desgosto. Logo no primeiro ano de direito e eu tomei bomba. Toda a grana suada do meu velho pai foi para eu provar que não era digno de ser filho dele".

Era incrível a capacidade do bar seguir seu fluxo, como se o garoto estivesse dentro de um riacho e a correnteza seguisse passando, a despeito de suas lamúrias. O garoto pediu outra cachaça e continuou. "E agora o que me resta? Fazer a última vontade dele. Eu vou deixar meu velho pai orgulhoso, onde quer que ele esteja agora! Me dá outra cachaça!".

O homem atrás do balcão lhe serviu novo trago, passou o pano que estava em seu ombro no balcão pra limpar as gotas de bebida que caíam, as lágrimas que ficavam e os perdigotos de baba de um recém-homem em um dia não muito bom. Após esta, serviu-lhe outra cachaça.

"Meu pai era um santo!".

Outra cachaça.

"Tão santo, mas tão santo que me deixou herança!".

Mais uma.

"Mas não é pro bico de vocês nãão, é para o meu estudo. O papai me deixou dinheiro que guardou a vida toda para eu me formar e fazer tudo o que um homem deve fazer. Desce outra cachaça!".

O garoto acordou em um hotel barato com duas garotas de programa na cama. Uma delas parecia com sua mãe. No seu bolso, não havia mais o dinheiro que seu pai lhe deixou, mas sobrava cocaína. O velho morreu em uma terça-feira e, na sexta pela manhã, o garoto fechara a conta de putas e álcool e estimulantes. Há quem diga que, de certo modo, se formara na vida.

Ao voltar no mesmo bar, sábado a noite, tirou umas moedas e pediu que lhe servissem o que tivessem de mais barato. O homem do balcão, ao reconhecer a figura chorosa de outro dia, pensou: "seu pai estaria muito orgulhoso nesse momento".


publicado em 20 de Março de 2014, 07:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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