O que há de errado no carnaval?

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Carnaval é como a lei da gravidade: não dá para escapar.

Reclamar do carnaval é mais ou menos como tropeçar e xingar Newton: efeito zero. Não sou ruim da cabeça, até gosto de samba, mas sou doente do pé. E excessivamente racional. Por isso, há anos tento me entrosar com o carnaval sem sucesso.

São vários problemas. O axé, por exemplo. Para mim, axé é música de adestrar cachorro: “abaixa um pouquinho, põe a mão no joelhinho, sacode a bundinha!” Dançar esse tipo de coisa parece um insulto a Darwin. Também não consigo entender samba-enredo. Já fui duas vezes ao desfile no sambódromo. Não entendi nada. Mas fiquei com o refrão de 2003 da Gaviões da Fiel na cabeça até hoje:

Bahia, Bahia... divina dança dos orixás
Tua magia contagia o nosso ar
O sol, o céu e o mar

(bonito, né?)

Roberto Justus: um personagem da Disney na Sapucaí

Tenho dificuldade em perceber qual é a ligação entre Nabucodonosor, “Niemayer, seu passado de glórias” e 80 passistas com espanador na cabeça. As letras são uma mistura estranha e desconexa de palavras como “glória”, “esplendor”, “Iemanjá” e “aaaaiii!”. Só perde para as letras do Djavan.

Também não me convenço pelo discurso de valorização cultural do carnaval, como se fosse algo obrigatoriamente ligado à nossa identidade. O carnaval é uma festa antiga que existe muito antes do Brasil ser descoberto. Era uma licença ao caos em países europeus. Permitia que escravos brincassem com seus donos, etc. Para um país como o nosso, onde o caos já reina durante o ano inteiro, o carnaval me parece um pleonasmo cívico.

E que está sendo cada vez mais enquadrado pelas convenções. O desfile em avenida é uma invenção getulista, que tentou moralizar a farra, criando critérios de votação e essa ideia estranha de desfilar ordenadamente pela avenida, como um exército em 7 de setembro. Vem daí a ideia de exaltar símbolos nacionais em troca de dinheiro para as escolas. Agora imagine: neste ano, a Rosas de Ouro vai homenagear Roberto Justus.

Faz sentido?

Mpartheid made in brazil

Até o carnaval no Nordeste, que sempre foi mais popular, está sendo lentamente enquadrado. Esse lance de pagar uma fortuna por um abadá apenas para poder ficar dentro do cordão é uma forma de renegar o espírito democrático da farra, em que, supostamente, madames dançam com a empregada.

Quando eu era moleque, carnaval era o momento de jogar água um nos outros com bisnaga. Os adultos ficavam putos com a zona, mas “é carnaval, o que vai se fazer?”. A gente dançava desordenadamente aquelas músicas meio bobas que falavam de colombina e cabeleira do Zezé. Era farra, não tinha ordem. Não tinha essa de seguir a coreografia da “Dança do morto muito louco” e ficar todo mundo com cara de aluno de aula aeróbica, decorando os passos.

Caos no carnaval agora é só engarrafamento para descer a serra, cerveja a 7 pilas e aumento no números de acidentes por embriaguez. Perdemos algo do carnaval no meio do caminho.

Se a ideia é celebrar a farra e o caos, que seja de verdade. Mas por enquanto, a madame continua no camarote, a Globeleza está no carro alegórico e a turma da favela vai suando atrás, empurrando a tralha toda. Festa democrática um cazzo.

Mas continuo insistindo. Todo carnaval eu vou pra paia, me entupo de picanha e cerveja. Com sorte, lá pela 5ª hora eu até começo a entender a graça de “tchubirabiron”, do Parangolé.

Por enquanto tá difícil pacas.


publicado em 18 de Fevereiro de 2012, 06:03
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Walter Carrilho

Walter Carrilho é, na verdade, o pseudônimo de um jornalista que prefere manter o anonimato para poder falar tudo aquilo que você adoraria falar, mas não fala porque, sei lá, não pintou o clima, saca? Ele escreve no Jornalismo Boçal e no @waltercarrilho.


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