O que há por trás de uma camiseta de 20 reais?

Quando a esmola é demais, o santo desconfia

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O Fashion Revolution, movimento que luta pela conscientização sobre o custo real da moda, lançou este vídeo em sua campanha do ano passado para nos incentivar a conhecer o que há por trás de certas ofertas imperdíveis e, a partir disso, fazer escolhas mais responsáveis.

Legal, né?

Isso mostra que nós consumidores devemos continuar buscando os produtos que atendam a nossos requisitos mínimos de qualidade com um preço interessante. Contudo, além destas variáveis, devemos também considerar a ética das marcas que vendem os produtos que desejamos. Um produto de qualidade a um preço muito baixo pode esconder uma produção desumana por trás, o que certamente contribui para que a peça seja tão barata.

E quando não tiver um vídeo mostrando os bastidores da produção de algo que estamos prestes a comprar, o que devemos saber?

A precificação na moda

Na etiqueta: "Condições de trabalho degradantes"

Existem diversos fatores que influenciam o preço de um produto. Uns mais tangíveis - como os materiais empregados em sua produção - e outros menos palpáveis - como a margem de lucro da empresa que o produz.

A escolha da matéria prima é apontada como um dos principais balizadores do preço. Mas não é só a qualidade que tem influência. É mais barato produzir peças a partir de materiais que não respeitam as leis ambientais nos processos de tingimento, tecelagem, fiação e outros.

Além disso, devemos levar em consideração o tamanho da empresa.

As empresas grandes conseguem reduzir seus custos de produção por meio da economia de escala – como produzem muito, conseguem diluir seus custos e aumentar seu poder de barganha com os fornecedores de matéria prima e com a mão de obra.

Em termos práticos, suponha que o custo para desenvolver uma modelagem é de 100 reais. Se você só produzir uma peça a partir dela, você terá que vender essa peça por mais de 100 reais para não ter prejuízo (sem considerar os outros custos). Mas, se você produz 1000 produtos com a mesma modelagem, esse custo é diluído e essas peças podem ser mais baratas. O mesmo raciocínio ocorre para a contratação de serviços, como o de costura. Quanto mais peças forem costuradas com o mesmo modelo, mais rentável é a negociação da mão de obra, pois é mais fácil produzir repetidamente do que mudar o modelo a cada peça produzida.

Porém, apesar destas vantagens competitivas, normalmente as grandes empresas têm gastos astronômicos com marketing. Algo em torno de 90% do preço de um tênis Nike é destinado para pagar grandes campanhas com celebridades e desfiles megalomaníacos. Somado a isso, temos a margem de lucro da empresa, que leva em consideração questões de posicionamento estratégico, competitividade, valor da marca – o que não é nada transparente para o consumidor.

Já em empresas menores os custos de produção são relativamente maiores. E como elas não tem tantos recursos para investir em marketing, tendem a ser mais criativas nesta área, gastando menos que as grandes. Além disso, não é incomum terem margens de lucro menores para serem mais competitivas no mercado e conquistar sua fatia da demanda.

Outro fator importante na determinação dos preços é a localidade da produção. A internacionalização da mão de obra nos afastou do processo produtivo. O marketing pesado das grandes empresas nos faz enxergar só o lado belo, quando, na verdade, pode haver muito sofrimento por trás. Uma peça produzida em um país onde as leis trabalhistas são menos rigorosas – China, Bangladesh, Vietnã e outros - com sabidas práticas de exploração de mão de obra, nos dá indícios de uma cadeia produtiva desvalorizada. Claro que a responsabilidade não é só do país onde essas peças são produzidas, mas também das empresas que se aproveitam dessas práticas para reduzir seus custos.

Já os produtos fabricados nacionalmente acabam sendo mais carregados de impostos. É o chamado “custo Brasil”. Esse custo acaba sendo inevitavelmente passado ao consumidor final. Mesmo assim, produtos locais oferecem uma chance muito maior de terem sido produzidos de forma mais ética e humana. Além disso, comprando localmente, você incentiva a indústria local. E comprando de produtores sustentáveis, você incentiva a própria sustentabilidade.

Contudo, as pequenas empresas também podem ser vilãs. Para reduzir custos e ganhar competitividade há quem explore confecções clandestinas locais ou burle pagamento de impostos e leis fiscais.

Tá, mas afinal o que o preço me diz?

Na etiqueta: "Forçado a trabalhar horas exaustivas"

A conclusão é que um preço muito baixo pode significar pagamentos não muito dignos ao longo da cadeia produtiva e/ou desrespeito ao meio ambiente. E um preço mais alto pode significar pagamentos mais justos e/ou práticas mais sustentáveis. Mas não há resposta certa. Devemos conhecer melhor as empresas das quais compramos. Já falamos aqui de uma ferramenta para nos ajudar a avaliar as grandes empresas de moda. Quando se tratar de empresas menores, procure saber. É mais fácil entrar em contato com um pequeno produtor para conhecer melhor seus processos produtivos. Se ele não tiver culpa no cartório, ele vai ter prazer em te contar sabendo que você é um cliente em potencial. Se ele não estiver disponível para a conversa, desconfie.

Com um pouco mais de informação, você acaba entendendo os porquês do preço e pode, então, julgá-lo caro ou barato para você e para o planeta.

Outra forma de saber mais sobre a produção das suas roupas é uma prática incentivada pelo Fashion Revolution. Poste a foto de uma roupa sua nas redes sociais, marcando a empresa que a produziu, com a hashtag #whomademyclothes ou #quemfezminhasroupas. Essa é uma maneira de pressionar as marcas que ainda não são transparentes a se exporem ou buscarem meios mais sustentáveis de produzir para atender aos consumidores atentos.

Temos que entender que é a demanda que determina a oferta. Se ninguém se preocupar com a forma como são produzidas as peças do nosso vestuário, daremos à indústria a opção de produzir buscando somente menores custos, mesmo que isso signifique exploração de mão de obra e a degradação do meio ambiente.

Fashion Revolution

Quem fez minhas roupas?

O Fashion Revolution é uma campanha mundial que visa a conscientização sobre o verdadeiro custo da moda e seu impacto em todas as fases do processo de produção e consumo. O movimento foi criado por um conselho global de líderes da indústria da moda sustentável, ativistas, imprensa e acadêmicos que se uniram depois do desabamento do edifício Rana Plaza em Bangladesh no dia 24 de abril de 2013 deixando mais de 1.133 mortos e 2.500 feridos. Eles querem mostrar ao mundo que a mudança é possível através da celebração dos envolvidos na criação de um futuro mais sustentável, criar conexões e trabalhar rumo a mudanças de longo prazo, exigindo transparência na indústria e nos negócios.

As campanhas acontecem sempre próximas à data da tragédia citada acima, em muitos lugares do mundo. Estou envolvido na organização do evento que acontecerá no Rio de Janeiro, no próximo dia 17. Teremos rodas de conversa, oficinas e sessão de filme. No entanto, cada localidade tem uma programação específica. Confira aqui o que vai rolar na sua cidade.

* * *

Nota de agradecimento do autor: no mês passado fui a Jaraguá do Sul (SC) visitar uma das fábricas do Grupo Malwee. Fui muito bem recebido e, além de conhecer de perto as iniciativas sustentáveis da empresa, visitei o incrível Parque Malwee.

É muito bom ver empresas grandes comprometidas de verdade com a ética e sustentabilidade de sua cadeia produtiva e com a comunidade à sua volta. A Malwee é também participante do Fashion Revolution. Fica aqui o meu sincero agradecimento pela experiência que me foi proporcionada.


publicado em 15 de Abril de 2016, 16:25
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Rodrigo Cavassoni

Entusiasta de práticas sustentáveis e dono de um brechó online, a Arara.


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