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O que ninguém me contou sobre "largar tudo e ser feliz"

Desistir do que "não te faz feliz" é pra todo mundo?

Você não tem que fazer essa faculdade se estiver confusa. O mundo é um lugar difícil, mas as coisas vão acontecer se você se esforçar. Vá em busca dos seus sonhos, vá ser feliz. Larga tudo sim, arrisca tudo, corre pro mundo!

Eu ouvi que precisava escolher o que ia fazer pro resto da minha vida aos 14 anos. Dizer isso em voz alta hoje em dia me parece muito louco. 14 anos, o que a gente sabe com 14 anos? Na época, esse papo foi quase mecânico e parecia simples: termine o fundamental, depois o ensino médio, escolha um curso, preste vestibular e entre na faculdade. Direito, medicina, engenharia. São muitas opções.

Minha mãe queria me ver sendo chamada de doutora, advogada ou médica. Alguns meses antes da prova para entrar na universidade, contei que queria ser jornalista. Essa sempre foi a primeira e única opção que deixava meu coração quente. Não demorou muito pra eu ouvir os primeiros "isso não dá dinheiro", "você não vai ter estabilidade" e o clássico "nem precisa de diploma".

Me lembro até hoje do dia em que eu dei razão pra tudo isso e fui abrir a lista de cursos pra escolher outro. Algum que precisasse de diploma, trouxesse estabilidade e desse dinheiro. Eu tinha só 16 anos e queria colocar em prática um planejamento perfeito de vida, de acordo com o que os outros repetiam, é claro. O fim dessa história já é manjado: as coisas não deram certo, o plano de me formar aos 21 anos não rolou, eu odiei a área de trabalho e queria desistir do curso no último ano. 

Entrei na famosa crise. Me rendi e fui procurar textos e vídeos motivacionais na internet. "Como largar tudo", "Desisti da faculdade, e agora?", "Aprenda a ganhar dinheiro e ser feliz", "Quero gostar de engenharia". As combinações de palavras na busca do Google nunca tinham sido tão desesperadas. E nisso, comecei a reparar em uma coisa.

Era como se houvesse um novo movimento, e mote era "ser feliz" a qualquer preço. "Preço" era a palavra chave. Largar tudo, sair para viajar o mundo sem dinheiro ou desistir da faculdade ao primeiro sinal de insatisfação parecia ter se tornado muito mais fácil. Eram parágrafos e mais parágrafos descrevendo essa incrível geração que cansava dos escritórios, jogava a mesa pro alto, se demitia e ia aplaudir o sol. O que é muito legal. Mas quem eram os corajosos? Pra quem aqueles textos eram escritos?  

Não era pra mim.  

Quer dizer, é óbvio que eu queria ser feliz. Mas eu queria (sobre)viver também. As contas, as expectativas, elas não saiam da minha vida junto com o curso. Largar tudo é um golpe de sorte pra qualquer um, mas a taxa de sucesso e confiança diminui quando, por exemplo, você é uma pessoa preta e pobre. Uma coisa é desistir do que te incomoda sabendo que vai ter pra onde correr caso tudo dê errado. Outra bem diferente é não ter absolutamente nenhum plano B, e sentir como se aquela chance, que você tá querendo jogar pela janela, fosse a única da sua vida.

Depois de ler aqueles textos que apareceram com as pesquisas no Google, uma coisa ficou martelando na minha cabeça: a periferia, o pobre, o negro, a negra. Eles estão tentando entrar na faculdade ainda. Estão tentando se manter nela e ocupar os espaços, serem reconhecidos. 

A minha mãe queria me ver sendo chamada de doutora porque esse é o ideal de carreira construído, e porque ela passou a vida inteira me criando com um salário mínimo e não queria que eu passasse pelas mesmas coisas que ela passou. Eu sabia que, vivendo onde eu vivia, com a grana que eu tinha, ter entrado na maior universidade pública do país era uma coisa muito grande. Quase uma daquelas histórias de superação que os programas de TV adoram. E esse é um contexto muito importante pra ser lembrado: foi muito mais difícil largar tudo aquilo, quando "aquilo" era tudo que eu tinha.

Nem de longe eu tiro a glória de quem joga tudo pro alto e vai fazer o que bem entender da própria vida. Inclusive, eu acho que o objetivo tem que ser esse mesmo. Mas é importante ter empatia com as inseguranças alheias e cuidado com o contexto em que as decisões das pessoas são tomadas. Nem todo mundo está preparado pra largar tudo, nem todo mundo quer fazer isso, nem todo mundo pode. E isso não significa que falta confiança no próprio taco ou sobra comodismo.

Se você escolher não pagar pra ver, tudo bem. O conceito da felicidade tem sido engessado como se pertencesse apenas aos quebradores de paradigmas, desbravadores rebeldes, os que conseguem ter a coragem de mudar. Mas para escolher ficar é preciso ser igualmente corajoso (ou mais), porque isso significa que você vai ter que se adequar.

Continuar a fazer engenharia, mesmo depois de descobrir que odeia o curso, pode sim ser uma opção, principalmente quando ele te garante um estágio que paga as contas do mês. Conciliá-lo com o intensivo de fotografia aos sábados que você paquerou por meses, transformar aquela única aula que não te dá vontade de morrer em um projeto de iniciação científica, esperar o processo seletivo de bolsas de intercâmbio ao invés de cancelar a matrícula da faculdade pra viajar o mundo; parar, pensar, respirar.  Tudo tem alternativas e ramificações em potencial; o exercício de descobri-las é cansativo, mas rende muita bagagem. 

Transformar coisas que não funcionam tão bem quanto você esperava em oportunidades vai, no mínimo, te trazer boas experiências. E nesse processo, o que eu tenho pra dizer é aquilo que ninguém me contou: você não vai ser mais covarde se optar por não largar tudo. Fazer o que é mais seguro pra você também é uma forma de ser feliz.


publicado em 30 de Agosto de 2016, 18:27
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Carol Rocha

Leonina não praticante. Produziu a série Nossa História Invisível , é uma das idealizadoras do Papo de Mulher, coleciona memes no Facebook e horas perdidas no Instagram. Faz parte da equipe de conteúdo do Papo de Homem, odeia azeitona e adora lugares com sinuca (mesmo sem saber jogar).


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