A nostalgia musical do BINO | PdH Sessions #6

Assistam a apresentação musical do BINO, rapper do ABC paulista

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BINO fez seu caminho em meio às batalhas do Santa Cruz – em frente ao metrô Santa Cruz, em São Paulo –, em eventos de rap e hip hop, até chegar, já "aposentado" das batalhas e freestyle, na Casa do Hip Hop, em Diadema, onde já com a sua habilidade de construir ideias afiadas bastante lapidada, ele decidiu que era hora de começar a trabalhar em algo mais sólido, mais pensado.

No momento em que escrevo este texto, o vídeo com o primeiro clipe do BINO já tem mais de 62 mil views. Apenas o primeiro, sem grana pra publicidade, sem mídia a não ser os amigos e o poder do boca a boca. Um feito e tanto.

Agora, depois de já ter dado as caras outra vez no PapodeHomem, a gente trouxe ele pro PdH Sessions. E ele, por sua vez, convidou o DJ Dipper para fazer um som pra gente, no Puxadinho da Praça. Agradecimentos de coração ao Ian Leite, da Monstro Filmes que fez uma belíssima edição. E ao Felipe Larozza que fotografou e auxiliou a Luiza de Castro na captação.

Daqui pra frente, o PdH Sessions vai ser semanal. Vamos soltar um vídeo por semana, todas as terças, no canal do Youtube do PapodeHomem e ir atualizando o post com os novos vídeos no decorrer do mês. Portanto, quem quiser ver e ouvir as outras músicas do artista do mês, é só assinar nosso canal e ficar ligado nas atualizações.

Agora vai lá, garoto. Pode ouvir.

Link YouTube 

BINO – Bagunça

Lembro de várias fitas, do neto da dona Rita
Baixinho, magrinho, eu quebrei a telha dos vizinho atrás de pipa
Derrete cola, moe vidro, mó esquema
Hoje tá tudo na mão mó mamão linha chilena
Enquanto eu corria na rua di pivete no asfalto
Os vilão mais velho lavano as nave escutava som alto
Som marreta eu decorei as letras sem te o cd
Racionais ndee 5 0 9 - E
Trave pra nóis era tijolo ou chinelo
Nave era Opala, não camaro amarelo
Rolê de skate no centro, ia po arrebento na sede
Pulava tampa dos buero de nollie parava pra rabisca parede
Hoje eu pego a Anchienta, depois do trampo as 10
Acelero a moto nem saio da foto, nos fones um beat com jazz
Venho sentido ABC, porque aqui é minha vida
Minha saudosa maloka, aqui é maloka querida
Nascido e criado ao lado de um homem e uma mulher de respeito
Minha mãe minha vida, meu pai meu exemplo, e eles eu levo no peito
Já fui sem noção, no loko mundão, dei muito trabalho e preocupação
Prefiro lembrar só das lágrimas de emoção
Nem sei se tanto apreço mereço,
Os que trincaram não esqueço, a Deus agradeço
Me manterem pé, fortifica minha fé, obrigado meu Deus fui abençoado
Agradeço aguerreiro e guerreira que ele tem posto ao meu lado
Aos vagabundos eu brindo, sorrindo
Vacilão fica de fora, os firmão são bem vindo
Sem papo de moço e moça moderna
Esse é um esboço da minha vida da minha mente, mó baderna
REFRÃO
Eu gosto de bagunça, mas não é bagunçado
No quintal mó funça, as mina uns chegado
Carne TATENO, som do bom TATENO,
E se me chama pro free TATENO
Eu gosto de bagunça, mas não é bagunçado
No quintal mó funça, as mina uns chegado
Carne TATENO, som du bom TATENO
E se me chama na voz TATENO
Nas roda de free só os pilaco mais cabrero
Prêmio sem comparação foi conhece vários parcero
Depois toma uma junto antes di pra casa
Quem perde o contra no fliper a breja e ficha paga
Vo com Wolverine e Akuma num manja então não se mete
Apelão, combo, especial, PERFECT
Jogava fliper nos boteco e nas padaria
Hoje é play3 tem uns pivete nem vê a luz do dia
Eu quero palma ou pandero, tô fechado, cos ruero
Cas mina que tão e casa, fechadão com churrasquero
Quero paz, no truco se vira o rei quero as
Ei dj pesadão solta as clássicas
Daora wiz khalifa no Brasil, VIU
Mas 300 mango esse show pra mim num é
Já vi Racionais de graça na praça da Sé
Quem abriu foi Dj Premier, e quem fecho? Infelizmente os gambé
Nois é original longe dos trote
É nois que vôa sem te asa, ouviu filhote
Se tú não voa aqui na terra da garoa
Vira bolsa, você e seu jacaré da lacoste
Não quero abercrombie, foda-se a daslú
Loco era XXL e as bombetas da fubú
Mas acha que isso era tudo era pura decadência
Num sô perfume vagabundo, nunca perdi minhas exências
Qué mi vê só o caco, mas nois é rato, cala boca dos chato,
Memo que nega, aviso vaso ruim não quebra
O que se quebra são barreiras, desacredita abraça
Rap não tem local, credo nem cor nem raça
REFRÃO
Eu gosto de bagunça, mas não é bagunçado
No quintal mó funça, as mina uns chegado
Carne TATENO, som do bom TATENO,
E se me chama pro free TATENO
Eu gosto de bagunça, mas não é bagunçado
No quintal mó funça, as mina uns chegado
Carne TATENO, som du bom TATENO
E se me chama na voz TATENO
Sempre di chinelo de dedo andei avenidas ruas e vielas
Sem dá guéla fui bem recebido acolhido em vilas bairros e avelas
Quem respeita será respeitado, longe de safado, que quer ateção
Nóis é zika treinando e bolado mokado pesado não falha a missão!

Carros, dinheiro, mulheres, sexo, drogas, violência. O rap americano de ostentação não poderia estar mais distante da realidade do rap brasileiro. Mas, mesmo levando-se em consideração o universo nacional do rap, a produção atual também está bem distante do que se fazia nos anos 90. Não que os tons densos dos temas sociais e lutas políticas não estejam mais presentes. Eles estão. O que acontece é que a questão aqui é outra.

A questão está muito mais para a atual dificuldade em se definir, para além dos estereótipos simples e caricatos, o que realmente significa esse tipo de música no nosso atual momento cultural. Gente como o Emicida e o Criolo representam apenas a ponta do iceberg, a cobertura do bolo repleto de ingredientes e sabores mais ou menos evidentes que o estilo traz consigo.

Há espaço para nostalgia, para a saudade das coisas da infância, dos amigos ausentes e dos amores perdidos. Há espaço para a saudade do fliperama, para os carros que passavam barulhentos e cheios de estilo pelas ruas do bairro, para o quintal da casa da avó, para o churrasco com os amigos.

Tudo isso sem ingenuidade, sem esquecer que pra fora dos muros acolhedores da casa dos pais reside um mundo nem sempre tão carregado de sorrisos, nem sempre tão brilhante. Sem esquecer que há, sim, um mundo que precisa de alguém para apontar o dedo e dizer que logo ali, dobrando a esquina, em um canto um pouco mais escuro, tem alguma coisa duvidosa acontecendo. Que nós precisamos saber que, mesmo aqueles que apertam nossa mão e dão tapinhas nas costas, mesmo aqueles que são pagos para nos protegerem, podem se tornar aquilo do que devemos nos proteger.

 

DJ Dipper e Bino
DJ Dipper e BINO

É nessa região que se encontra o BINO, rapper de Santo André, publicitário, neto da dona Rita e irmão do Jader. Se existe essa coisa de sentir saudade do que não se viveu, ele sabe muito bem como tornar este sentimento em verdade. Com apenas 23 anos, suas letras estão repletas de memórias que devem ter gerado uma impressão muito forte, apesar da provável pouca idade com que as viveu.

Uma outra hipótese seria levar em consideração um talento especial: dar atenção às histórias que contam ao seu redor. Nisso eu aposto. Mesmo sem ter idade suficiente para viver com plenitude a era dos fliperamas e disputas de ficha, certeza que ao pegar os últimos resquícios desses tempos, foi capaz de ouvir boas histórias e criar seu próprio repertório comparando com aquilo que via se desenhando como cenário, nas ruas, dentro das casas dos amigos, dentro da sua própria família.

Atualização 23/07: Mundo Cão

Link YouTube

Nota do Editor: aceitamos sugestões de novos artistas para o PdH Sessions. Se vocês conhecem algum puta músico ou banda, que está fazendo um som sensacional, podem mandar e-mail com link de vídeo ou música para lucianoribeiro@papodehomem.com.brEstamos muito curiosos para conhecer e mostrar cada dia mais trabalhos musicais fodas.


publicado em 16 de Julho de 2013, 07:52
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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