O Regresso: até onde vale gostar desse filme?

Crítica do filme O Regresso, com Leonardo DiCaprio, Tom Hardy e dirigido pelo Alejandro González Iñárritu

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Escrever a crítica sobre o filme O Regresso me foi complexo. Eu poderia ser bem sucinto e empurrar o "gostei" pra agradar a empolgação dos leitores ou o "não gostei" pra criar essa curiosidade e fomentar a discussão. Mas eu tenho apontamentos diversos quanto à história, cinema em si e, principalmente intenção, que foi o que mais me pegou nesse filme, ponto comum da minha relação com o Alejandro González Iñárritu, diretor do filme.

Maneira 1 de ver O Regresso: um faroeste

Por mais que, em entrevista, Iñárritu tenha afirmado que seu filme não é um faroeste: "o problema com gêneros é que eles vêm da palavra 'genérico'", seu filme pode sim ser visto como um western bonito. Leonardo DiCaprio é Hugh Glass, homem importante em uma expedição extrativista de pele animal ao longo do rio Missouri. Ele é o cara que manja do território, sabe por onde ir nas novas terras do oeste americano. Atacado por um urso, ele fica à beira da morte e se torna um fardo para os companheiros de viagem, nove sobreviventes de 45 no início da campanha. Ele é deixado para trás quando o inverno chega e sobrevive, precisando se recuperar e sobreviver no inóspito novo território.

A sequência da batalha inicial do filme é arrasadora, os cenários são dos mais bonitos, as câmeras pegam tomadas lindas esteticamente, um deleite rápido para os olhos. A crítica à maneira com que os Estados Unidos foram colonizados no oeste é bem clara, boa parte de terras originalmente mexicanas. Americanos, ingleses, franceses, invasores, pessoas que sugam recursos e levam embora, se apropriam de terra, espaço, natureza, retiram o máximo e não se conectam. Glass é diferente por se integrar. Os nativos são mostrados como um povo cansado e focado em sobreviver, contra atacar. 

Uma das cenas mais legais é quando, dos que abandonaram Glass a própria sorte, dois deles passam por uma aldeia dizimada. Tudo queimado, javalis correm sem ordem no meio dos destroços. Eles procuram qualquer coisa que possa auxiliá-los, abrigo, alimentação, transporte. Um deles se abaixa. Agachado na lama, ele pega um relógio quebrado e reclama dos "selvagens".

Olha só. Eles roubam tudo o que é da gente.

— John Fitzgerald

Que irônico.

Maneira 2 de assistir O Regresso: o cinema exibido de Iñárritu

Uma das coisas que mais se fala é da pretensão além da cota que o diretor tem de transformar seu cinema em algo mais. Dessa vez ele mirou em Terrence Malick, diretor de 72 anos que sabe muito bem como transformar suas películas em uma catarse sensorial e uma experiência existencial intensa. Ou, ao menos, entedia os desavisados na primeira meia hora.

Atrás dessa potência, Iñárritu escalou três pessoas que já trabalharam com Malick em seu O Novo Mundo, lindo filme que reconta a história da Pocahontas, mas sob uma ótica mais profunda. Emmanuel Lubezki, diretor de fotografia, Jacqueline West, figurinista e Jack Fisk, desenhista de produção colocam suas mãos nas belezas de O Regresso, mas apenas arranham as intensidades de Malick. É tudo muito bonito de se olhar, mas falta esse caráter sensorial, a comunhão que as personagens de Malick têm com o mundo, cheiros e tato, o envolvimento casular, a imersão. 

A história em si não se aprofunda efetivamente nas diversas facetas que poderia haver em uma relação do colonizador com a terra, com o novo mundo. Glass é um cara virtuoso, ele só quer ficar de boa no cantinho dele, faz o que tem que ser feito porque nenhuma outra opção lhe sobra. E isso é meio chato. Ao contrário, seu antagonista é um cara cheio de vertentes.

Tom Hardy faz um trabalho incrível de atuação, essa sim bem digna do Oscar de melhor ator coadjuvante ao qual ele concorre. Fitzgerald é um sobrevivente, ele sabe bem que faz coisas erradas e que todas as suas atitudes tem benefícios e sequelas. O trabalho de Leonardo DiCaprio é o de mostrar o transpassar do sofrimento físico de seu personagem. É bem provável que ele ganhe finalmente o prêmio da academia, mas, assim como Scorsese, seu mentor e parceiro em muitos filmes, o careca dourado chega mais por mérito do conjunto da obra do que pela específica atuação em O Regresso.

E fica nisso. Um diretor exibido, câmeras se movimentando de modo complexo e a beleza estética pela beleza estética. Uma pena, porque o rolê tinha tudo para ser perfeito.

Abaixo, vou escrever alguns detalhes com spoilers. Quem não assistiu ao filme, desça direto para os comentários. Para quem já viu O Regresso, agora virão três imagens do filme, meu trecho com spoilers pra caralho, e depois mais três imagens, para ficar mais fácil de quem não leu passar reto.

Vamos lá. 

Spoilers

Pronto. Se você chegou até aqui é porque já assistiu ao filme e sabe de todos os detalhes da trama, não se importando nem um tantinho com os spoilers.

Porra, Iñárritu, como eu quero gostar de você e você não deixa. Glass é um cara que na teoria entende a terra, entende sua relação com o lugar que está. Dava para ter explorado isso, o contato dele com os locais, e não o clichê da vingança em si. Que coisa mais enfadonha perder mulher e filho, não lhe restar nada e ir buscar redenção matando quem matou dos seus. Usar coisas complexas para contar o óbvio é o maior pecado do diretor nesse filme.

E o final. Eu gostaria muito que os índios tivessem matado também o DiCaprio, apenas pelo fato de ele ser um invasor. Nada de raiva, just business. Ele ter salvo a índia do estupro seria completamente condizente com sua virtuose além do normal para qualquer ser humano e ela não precisava mais aparecer. Mostrar que seus bons atos lhe renderão a salvação é chato pra cacete.

O diretor perdeu a chance de mostrar como o cotidiano real é bem mais imprevisível, um cara que se fodeu a porra do filme todo, urso, índios, cachoeira, penhasco, dormir pelado dentro de um cavalo morto, chegar num local seguro e ter de ir de novo pro selvagem, apanhar, mão cortada, perna apunhalada, rosto talhado, abrir mão da vingança sem abrir mão da vingança porque ele sabia bem que o escroto do Fitzgerald ia morrer também e, mesmo depois de tudo isso, em vez de redenção ele ganha um fim banal, morto por índios estranhos que nem queriam matar ele especificamente, mas apenas rechaçar o tipo de gente que chegou em suas terras pra arrebentar o coreto todo, isso sim poderia render uma experiência mais profunda do espectador no cinema.

Mas o Iñárritu tava ocupado demais pensando em como seus planos sequência poderiam ficar ainda mais mirabolantes.

 


publicado em 16 de Fevereiro de 2016, 00:10
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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