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"O seu país vai deixar de existir em alguns meses"

Há que se deixar tudo para trás. O que se leva em malas é bobeira, souvenir da vida. Em breve, sua terra não existirá mais.

E deixe de lado a questão territorial, o barro do chão, a telha que você escolheu na loja, o cercadinho que fazia com que você pudesse se achar em meio a multidão. Esqueça o patriotismo, apego à bandeiras, a demarcações sócio-política-religiosa-cultural. É mais, muito mais que isso. Estamos falando da sua origem indo – quase que literalmente – ralo abaixo. Esqueça por completo a sua segurança; não há cristo que possa te tirar dessa, te dar o conforto que você lutou para conseguir, ou que sempre acreditou como certo.

Do Estadão, publicado em 2009:

Ilha do Pacífico pode sumir com aumento do nível do mar
Ilha paradisíaca do Oceano Pacífico, Kiribati começou a acumular reservas internacionais. O objetivo não é conter ataques especulativos nem pagar a dívida externa. Segundo seu presidente, Anote Tong, o dinheiro servirá para comprar terras no exterior para os 100 mil habitantes de Kiribati caso a elevação do nível do mar ameace o país.
Grande parte de Kiribati está só 5 metros acima do nível do mar. Nas 33 ilhas do arquipélago do qual a ilha faz parte, o avanço do Pacífico tem sido de 5,1 milímetros por ano. Tempestades cada vez mais violentas alteraram a rotina do país. O volume de água potável já é crítico e a agricultura está sendo afetada. Moradores da costa mudaram-se para o interior e o governo está treinando a população em profissões que possam ser úteis em outros países, como a de mergulhador profissional.
Um acordo em Copenhague "determinará se vamos continuar existindo ou não", diz Tong. "Somos o rosto das vítimas das mudanças climáticas." Vítimas inocentes, aliás. Dados do Fórum Humanitário Global, criado pelo ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, indicam que os 50 países que, como Kiribati, são os mais vulneráveis aos efeitos do aquecimento global geraram só 1% das emissões mundiais de gás carbônico nos últimos cinco anos.

A cada dia, a situação se mostra por demais iminente. Acordar, logo cedo, é poder observar uma bomba-relógio gigante e silenciosa salivando ondas que estão preparadas e prontas para implodir toda a história do lugar que você chama de lar. Tudo o que te precedeu vai-se embora, centímetro por centímetro, tomando uma árvore aqui, um pedacinho de terra acolá. Sua cultura, seu lugar, o sentimento tropical se esvaindo das tuas mãos, cota após cota, até que, como desenho animado maldoso, você se vê rodeado de água, com a única opção de mudar e começar tudo – absolutamente tudo – do zero.

O Japão sofreu com um tsunami avassalador que varreu cidades e deixou transatlânticos como adornos no meio de avenidas. Tudo foi reconstruído rapidamente. No Haiti, sem a mesma sorte, o terremoto que arrasou a ilha até hoje mostra a sua cara, num sorriso malévolo e sem dentes, mastigando com a gengiva toda a pobre população que ainda sobrevive em meio a escombros, cólera e com a ajuda de outros países. Mas eles ainda estão lá. Tudo o que lhes é realmente importante está lá.

Para o pequenino povo de Kiribati, nem a situação mais banal de ter sorte ou revés lhes foi concedida. Não se pode rezar por ajuda, não se pode pagar por retrocesso do processo lento – mas decisivo – de subida das águas que vão, sim, engolir todas as ilhas do país, tudo o que foi um dia.

Do site G1, publicado em março desse ano de 2012:

O impacto das mudanças climáticas em Kiribati, uma nação insular localizada no Oceano Pacífico, com cerca de 800 km², pode obrigar toda a população de 113 mil pessoas a migrar, segundo o jornal inglês "Daily Telegraph". Anote Tong, presidente de Kiribati, afirmou que está negociando a compra de 50 km² em Fiji para alojar os cidadãos do país.
Parte das ilhas já estão desaparecendo sob o mar e a maioria da população está aglomerada em Tarawa, centro administrativo de Kiribati. "Este é o último refúgio, não existe para onde ir depois dele", afirmou Tong.
A proposta de comprar terras em Fiji é a última tentativa desesperada de encontrar solução para o problema, segundo o Telegraph. Em 2011, Tong já teria sugerido a possibilidade de construir ilhas artificiais, como plataformas de petróleo, para abrigar a população. "Nosso povo terá que se mover conforme as marés chegarem às nossas casas e vilas", disse.
Como parte da nova ideia, o governo de Tong lançou um programa de Educação para a Migração, que visa qualificar a população para torná-la mais atraentes como migrantes. O povo de Kiribati teme que sua cultura não sobreviva após os movimentos migratórios.

Noves fora todos os problemas de uma mudança territorial, o pior que os habitantes da pequena Kiribati terão que suportar é a completa perda de sua história viva, prestes a virar uma Atlântida triste, uma segunda Pompéia, um Titanic fixo que topou não contra um iceberg, mas contra o planeta Terra todinho, esse corpo celeste cheio de caprichos.


publicado em 18 de Outubro de 2012, 07:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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