Obras originais vs adaptações: a eterna briga

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“A obra se liberta do autor”, me disse a professora Lúcia, de Teoria de Literatura I, mais de dez anos atrás. Essa foi uma das poucas coisas que eu realmente aprendi no curso de Letras. Isso abriu minha cabeça pra muita coisa e, ao longo do tempo, me deparei casualmente com vários exemplos que corroboravam o que a professora Lúcia disse.

Por exemplo, a obra Quadrado Negro, do pintor russo Malevich. Ele um dia acordou, olhou pela janela e viu fome, tristeza, desespero... então decidiu representar aquilo com um simples quadrado negro. O governo revolucionário entendeu aquilo como um manifesto anarquista e perseguiu o artista, que chegou a esconder algumas de suas obras em outros países.

O Quadrado Negro, pintura que fez Malevitch ser perseguido pelo governo
O Quadrado Negro, pintura que fez Malevitch ser perseguido pelo governo

Se um quadrado negro sobre um fundo branco causa isso, imagine, por exemplo, um livro de trezentas e tantas páginas ou um personagem de histórias em quadrinhos que tem sei lá quantos anos de existência.

É por isso que acho radical quando vejo gente dizendo que certas obras cinematográficas “estragam” o original. Bobagem. É uma questão de interpretação, simplesmente, porque a obra se liberta, como a professora Lúcia me ensinou.

Jean-Luc Godard releu o milagre da concepção em Je vous salue, Marie, em que Maria é uma estudante, José, um taxista, e o anjo Gabriel chega à Terra de avião. O filme foi até proibido no Brasil à época do lançamento. Mas é uma produção espetacular e, já que a história contada na Bíblia é atemporal, porque não adaptar a história aos nossos tempos? E é baseado nesse argumento que os cults bacaninhas por aí alardeiam a obra como genial.

Isso dá um nó no meu entendimento, porque quando um diretor de cinema muda um “ai” de um personagem de quadrinhos ou da literatura, os fãs bombardeiam absurdos, como se o cineasta fosse obrigado a transpor a história impressa tal e qual para a tela. Então algumas histórias podem ser reinterpretadas e outras não? Cadê a liberdade do artista?

Criticar uma obra por não ter qualidade é natural e aceitável, por exemplo os Batmans de Joel Schumacher, que são ruins como obra cinematográfica. Se são fiéis ou não aos quadrinhos, isso é outra história, porque é outra plataforma, é outro meio de comunicação. Eu queria ver a demência generalizada nas timelines da vida se a Warner tivesse apostado na versão do homem-morcego apresentada pelo Darren Aronofski, em que o Alfred é dono de uma oficina e o Bruce Wayne é um justiceiro que combate o crime com uma máscara de hóquei.

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Concept art do Batman de Darren Aronofski

Existem obras bem realizadas e outras não, umas que são fiéis ao que se pretende adaptar e outras não. Por exemplo: Baz Luhrmann adaptou maravilhosamente Romeu e Julieta, de Shakespeare. Reinventou os figurinos, transpôs a época, trocou as espadas por armas de fogo e – como faria posteriormente também em Moulin Rouge e O Grande Gatsby – permeou o filme com uma trilha sonora moderna. Outro exemplo: Alfonso Cuarón adaptouGrandes Esperanças, de Charles Dickens, trazendo a história para o século 20, resultando em uma produção muito bonita, com takes longos e bem realizados e uma fotografia que dialoga com o tema da “esperança”.

Mas já ouvi gente dizendo que nem um nem outro respeitaram a obra original. Não interessa. Se você leu Romeu e Julieta e Grandes Esperanças e gostou, ótimo, porque são grandes obras, de grandes autores. Entretanto, a adaptação dessas e de quaisquer outras obras não devem, necessariamente, seguir à risca o original literário para serem boas.

Essa ideia de fidelidade à obra literária é tão contraditória que Irvine Welsh, quando escreveu Pornô, levou em consideração uma cena que não estava no livro, e sim no filme que se baseia na sua obra Trainspotting, dirigido por Danny Boyle. Esse diálogo entre as artes faz cair por terra, ou pelo menos abala, muita revoltazinha de fã xiita.

Por outro lado, existem obras ruins, simplesmente. Quando li O Advogado do Diabo, me decepcionei. Achei o filme bem melhor. O contrário aconteceu com O Amor nos Tempos do Cólera. O romance de Gabriel García Márquez é bastante superior ao filme de Mike Newell. Mas embora tenha citado dois títulos, estou falando neste parágrafo de quatro obras diferentes, de quatro realizadores, de quatro mundos, de quatro interpretações, todas independentes entre si.

É como uma música que é gravada por um intérprete diferente. Imaginem se Elis Regina tivesse cantado “Como Nossos Pais” da mesma maneira que Belchior, talvez essa canção não tivesse a representatividade que tem hoje. E ela cantou de uma forma diferente porque a obra do cantor cearense se libertou depois de composta e, assim como qualquer outra, tem todo direito de ser transformada.


publicado em 31 de Maio de 2013, 09:52
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Filipe Teixeira

Filipe Teixeira é escritor amador e ansioso profissional.


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