Ode à exploração: uma homenagem a H.G. Wells

"O que é esse espírito no homem que o instiga eternamente a abrir mão
da felicidade, para lutar e se colocar em perigo?"

Solitude
A Ilha do Dr. Moureau

H. G. Wells previu a engenharia genética em seu clássico , de 1896. Fez parecido ao antever bombas atômicas, portas automáticas, tanques e celulares.

Porém, o que realmente me fascina em seu trabalho, além da arguta futurologia, é a maneira como captura o profundamente humano anseio pelo desconhecido.

Passei os últimos dias embrenhado em mato, montanhas, cachoeiras e terra, gastando sola e articulações em trilhas estreitas e nem sempre encorajadoras. Se pudesse compartilhar parte do que me leva a locais assim, não o faria de modo mais brilhante do que nessa homenagem do cineasta James W. Griffiths a Wells – com texto adaptado das obras do próprio escritor.

Apreciem:
 

Tradução

"Um terrível sentimento de ruína me pinçou o coração. Escutei rigidamente mas não ouvi nada além do sangue circulando em meus ouvidos. Imenso e sombrio e estranho era o mundo e eu vaguei solitário por seus vastos mistérios.

Uma distante questão, onde eu poderia estar, surgia e desaparecia de novo em minha mente. Me vi parado em assombro, minhas emoções penetradas por algo que não era capaz de entender.

Me senti nu. Me senti talvez como um pássaro se sinta em céu aberto, sabendo do falcão voando acima e que vai atacá-lo.

Comecei a sentir a necessidade de companheirismo. Eu queria questionar, falar, relatar minha experiência. O que é esse espírito no homem que o instiga eternamente a abrir mão da felicidade, para lutar e se colocar em perigo?

Era essa inquietação, essa insegurança, quem sabe, que me fez avançar cada vez mais longe em minha expedição exploratória. À medida em que o silêncio da noite cobria o mundo, o sol tocava as montanhas e velozmente se tornava um hemisfério ardente de chama líquida, e afundava.

Então, lenta e suave e cobrindo o mundo em dobras após dobras de azul profundo, veio a noite. E aí, o esplendor da vista – no céu, um brilhante planeta reluzia doce e firmemente como a face de um velho amigo. De súbito, me dei conta da completa imprudência de minha viagem. Por fim comecei a sentir a força da terra sobre meu ser, me puxando de volta para a vida que é real, para os homens."


publicado em 05 de Março de 2014, 20:27
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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