Os aumentos foram revogados e percebemos que não estamos sós

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O nascer de um dia é o sinal de que vai começar tudo de novo. Acordar, levantar da cama, tomar um banho, escovar os dentes, vestir o uniforme, pegar suas ferramentas e sair. Lá fora está o inimigo, a batalha, a missão, o grande obstáculo a superar.

É isso que fazem os heróis. Eles combatem o crime, salvam o mundo, geram mudanças, arriscam tudo o que têm em prol de um bem que transcende a esfera do benefício próprio. É inadmissível para quem carrega no coração uma determinada motivação permanecer parado, trancado nas jaulas de aspirações autocentradas. Não faz sentido, não parece lógico. Há tanta coisa acontecendo, algo precisa ser feito. E o herói sente que tem o poder para isso.

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A gente está, do mesmo jeito, saindo todos os dias para realizar alguma missão. E, como protagonistas de histórias em quadrinhos, nem sempre sabemos se vale a pena. Como eles, nos pegamos em momentos de dúvida se o que estamos fazendo tem real sentido, se é verdadeiramente útil ou se é só mais uma das sofisticadas formas que inventamos de passar o tempo antes de morrermos.

Mesmo em meio a esse mundo que parece jogar na nossa cara a única alternativa de seguir um roteiro, de fazer tudo de um determinado jeito, encontrando o certo e o errado, o justo, o honrado e o hediondo exposto nas milhares de frases imperativas pela cidade, mesmo assim, a gente segue tentando fazer o nosso melhor. Inclusive quando esbarramos na realização de que nosso melhor não passa de um esforço insuficiente.

A gente se sente especial, como se soubesse que tem alguma coisa que podemos fazer para trocar a chave, para ligar a propulsão e começar a se movimentar. Lá dentro carregamos essa aspiração de proteger, de cuidar, de melhorar a vida de uma pessoa, de uma comunidade, da cidade, do país, do mundo.

Mas a gente se sente só.

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Nos sentimos assim sempre que convidamos alguém para olhar algo que nos chama a atenção e ninguém vê o que estamos vendo. Sentimos isso cada vez que tentamos mudar um detalhe na escola, na universidade, empresa em que trabalhamos e nos dizem que "é assim mesmo". Sentimos isso quando nossos pais nos dizem que tentaram fazer o mesmo e não deu em nada. Sentimos isso quando vemos que eles próprios viraram ferramentas do inimigo contra o qual queremos lutar.

Todos os dias a gente está aqui, no mundo, não nas páginas de um livro ou na tela de um filme, usando os poderes que temos para movimentar engrenagens que não têm rosto, atravessando campos gelados, escapando ou não de tiros, de torturas, para ver estes esforços darem frutos corrompidos por interesses diferentes dos nossos.

Parece que agora é um bom momento para abandonar a triste vontade de se elevar acima do mundo e apreciar o silêncio do distanciamento e da solidão. Parece que agora é o momento de retornar à multidão, de fazer a voz soar em conjunto, de caminhar ao lado e abandonar a ilusão de que o outro tem interesses diferentes.

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Desta vez, parece que os acontecimentos seguiram de uma maneira um pouco diferente do usual "não vai dar em nada". Eu mesmo achava que não daria. E, confesso, estou bastante surpreso por ver que o resultado veio em várias cidades. Os aumentos nas passagens de transporte público foram revogados.

Claro que ainda não sabemos exatamente com quais consequências vamos ter de lidar daqui pra frente. Não sabemos quem vai pagar de fato por essas decisões meio tímidas, acuadas.

Agora, olho ao meu redor e vejo que, diferente das reclamações que sempre ouvia e fazia, sinto que algo mudou. Se tudo isso que está acontecendo tem uma lição a passar, é a de que finalmente notamos que não estamos sós.

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Nota do editor: As ilustrações são do artista Cosmosnail e estão à venda em formato pôster aqui.


publicado em 20 de Junho de 2013, 08:08
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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