Os dramas da arbitragem

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É por ser o esporte coletivo mais imprevisível de todos que o futebol é tão apaixonante. Ao contrário do basquete ou do vôlei, nem sempre ter o melhor time é necessário para vencer. Situações que ocorrem durante o jogo, como um destaque individual ou mero lance de sorte, possibilitam variações de favoritismo ou vitórias em frações de segundo. A atenção, já dizia o mestre Arsène Wenge, é a principal tática de qualquer time.

A exemplificação dessa teoria é simples. Não é raro observarmos um time de 11 peões esforçados vencer um elenco recheado de craques. O que possibilita esse acontecimento, além do evidente suor e dedicação do time menor, é o pré-jogo. É a atenção citada pelo treinador do Arsenal em tudo que envolve o campo de jogo.

Especialmente a arbitragem e seus derivados: os árbitros.

Quanto custa um árbitro?

Errar é humano. Do goleiro até o atacante, todos, em algum momento da vida, têm atitudes que não vão ao encontro da própria intenção. Essas reações, desde que não sejam intencionais, são totalmente perdoáveis. Logo, até os árbitros podem ser perdoados. Eles, às vezes, erram. Erram a aplicação da regra, o posicionamento... Não importa, eles apenas erram.

Pois não deve ser fácil ser árbitro. Especialmente no Brasil, onde os juízes de futebol levam uma profissão bastante diferente na vida real. Marcelo de Lima Henrique (RJ) é fuzileiro naval. Djalma Beltrami (RJ) é tenente-coronel da Polícia Militar. Já Carlos Eugenio Simon (RS), aquele mesmo, era jornalista e ex-comentarista de futebol em um rádio do Rio Grande do Sul.

Não há segurança para o arbitro de futebol brasileiro. Segurança econômica, quero dizer. Um árbitro Fifa ganha R$3mil por jogo apitado na série A, enquanto um aspirante leva R$2.200. Segundo alguns, valor insuficiente para dedicar-se totalmente ao futebol.

Não vamos cair na discussão se R$3mil é um valor razoável. A questão aqui é que, segundo os integrantes do quadro de árbitros da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com essa diária é necessário buscar renda em outros setores. Isso resulta na iminente perda de foco na arbitragem. Ou, pelo menos, na divisão de metas e um tempo menor para interagir e especializar-se em futebol.

Resultado? Árbitros cada vez piores e mais previsíveis.

Sabe aquele árbitro que você xingou no final de semana? É tenente-coronel da PM.

Eu sei que você vai apitar.

É aí que eu queria chegar.

Hoje é possível arriscar o resultado do jogo apenas observando a escala de arbitragem. Os árbitros estão cada vez mais previsíveis. Cada um tem seu estilo, seu modo de apitar e conduzir o jogo. Isso fica claro na imprensa. Alguns jornalistas acham o máximo o estilo Vuaden de deixar o jogo correr. Eu acho um absurdo. A arbitragem dele é boa, mas seria ainda melhor se ele não fosse conhecido apenas como o árbitro que deixa o jogo correr. Mas sim, como o árbitro que melhor apita o jogo.

O manual de regras de futebol diz que vários lances dependem da interpretação do árbitro. Mas o grande problema da arbitragem brasileira está na falta de padrão. Cada árbitro tem um modo pessoal de ver e conduzir o jogo. É possível, graças a essa absurda desvalorização e falta de capacitação aos árbitros, fazer uma leitura tática do futuro acordo com o dono do apito.

Foi isso que o Papo de Homem arriscou executar nessas 10 primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro. Analisamos friamente três árbitros da Série A: Sandro Meira Ricci (DF), Wilson Luiz Seneme (SP) e Heber Roberto Lopes (PR). Assistimos aos 14 jogos arbitrados pelos personagens. E focamos em três pontos: condução de jogo, postura com o jogador e fator local.

Heber, Ricci e Seneme. Assistimos de tudo.

Heber Roberto Lopes (PR)

O Heber Roberto Lopes é o que melhor traduz o estilo brasileiro de arbitragem. Marca muita faltinha em meio de campo e lateral. Contudo, não tem a mesma posição em lances mais cruciais próximos da área. Gosta de enrolar o jogo e é muito espalhafatoso em seus gestos.

Heber tem posturas distintas dependendo do resultado do jogo. Quando o mandante está ganhando, mantém o estilo chato de marcar qualquer coisa longe do gol. Quando o visitante sai na frente, faz de tudo para arranjar o empate. Inverte faltas e empurra o visitante para o campo de defesa.

Conclusão: juiz de empate.

Sandro Meira Ricci (DF)

O polêmico árbitro que apitou Corinthians x Cruzeiro em 2010 é um dos melhores do Brasil. Nesse Campeonato Brasileiro, pelo menos, não teve influência direta em nenhum placar. Porém, é muito tímido. Deixa ser influenciado por torcida e pressão local. Não tem a mesma postura com os jogadores dos dois times.

Um dos maiores defeitos de Ricci fica claro nos minutos finais dos jogos. Ele faz tudo para o relógio correr mais rápido e garantir a vitória do mandante. Não gosta de acréscimos e adora marcar “perigo de gol” no ataque do time que está perdendo.

Conclusão: caseiro.

Wilson Luiz Seneme (SP)

Esse senhor é um caso a parte. Com erros que já custaram caro a muitos clubes, Seneme deve as falhas ao seu péssimo posicionamento. Ao contrário dos árbitros que correm na diagonal para ter uma visão ampla do campo, Seneme prefere adivinhar o rumo do jogador.

Apitando, o árbitro da Federação Paulista de Futebol tem um estilo disciplinador. Mas só para quem está perdendo. Sem qualquer explicação, Seneme transforma-se quando o primeiro gol acontece. Ele veste a camisa do time vencedor e simplesmente ignora o parcialmente derrotado.

Conclusão: é muito ruim e vai fazer alguma lambança sempre.

Sobe a moeda. O único momento imprevisível que envolve um árbitro de futebol.

Existem modos para corrigir esses erros que invariavelmente acabam com um planejamento inteiro. O principal deles é um treinamento mais completo para os árbitros. Falta um trabalho focado na geração de árbitros para o futuro do nosso futebol. Algo de respeito, teórico, com assistência psicológica e certificações. Mas, infelizmente, isso jamais será possível com Armando Marques na Comissão de Arbitragem da CBF.

Resta-nos relembrar a breve lição citada nos primeiros parágrafos. Conhecer o que envolve o jogo de futebol é o primeiro passo para vencer. Talvez seja o momento das comissões técnicas iniciarem esse trabalho de estudo do desempenho do árbitro. Eu sinto falta disso. De um time que entra em campo conhecendo o árbitro.

Faz todo sentido um jogador começar a partida sabendo se pode ou não cavar um falta.

É jogar sujo? Eu diria que não.

É, sim, jogar no erro do sistema.


publicado em 17 de Julho de 2011, 05:53
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Fred Fagundes

Fred Fagundes é gremista, gaúcho e bagual reprodutor. Já foi office boy, operador de CPD e diagramador de jornal. Considera futebol cultura. É maragato, jornalista e dono das melhores vagas em estacionamentos. Autor do "Top10Basf". Twitter: @fagundes.


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