Os melhores discos de 2016 | Eu ouvi pra você # 31

2016 pode ter sido difícil pra muita gente, mas na música foi bem próspero.

Virou uma espécie de senso comum descer o cacete nesse pobre ano que está nos seus momentos finais.

E eu entendo, de verdade. É só olhar desde lá do começo do ano até aqui, listar algumas notícias e de repente temos a receita da fadiga armada.

Mas as coisas não são só preto no branco. Toda realidade é composta de fatores variados pro bem ou pro mal, nada é só uma completa bosta. E vale lembrar que temos uma tendência forte a armazenar e dar mais importância a fatos negativos do que aos positivos.

Então, vamos dar uma atenção pra uma coisa boa, que nos uniu em 2016: a música.

Esse foi um ano repleto de lançamentos fantásticos para quem esteve antenado no que rola por aí. Aqui separamos os favoritos da equipe e de pessoas próximas da casa para vocês ouvirem também

Vamo aí?

Maravilhas da vida moderna - Dingo Bells (Luciano Andolini)

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Com essa, é a terceira vez que cito Dingo Bells no PapodeHomem, o que pode ser considerado uma prova de como gostei do que ouvi esse ano vindo deles. E a verdade é que, sim, assistir uma apresentação deles e ouvir o disco foi algo que me impactou bastante em 2016. De lá pra cá, Maravilhas do Mundo Moderno ficou no repeat e tem sido objeto de estudo. Então, fica a recomendação.

Dystopia - Megadeth (Rodrigo Cambiaghi)

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Aos 16 anos, um professor de baixo me disse que quando eu estivesse com uns 30 anos eu ia achar as bandas de metal uma grande bobagem e que ia aprender a gostar de outras coisas mais maduras.

De fato eu aprendi a gostar de outras coisas, ouvi muita coisa e passei por vários estilos musicais nesses 14 anos.

Mas não da pra ouvir o som do Kiko Loureiro no Megadeth e dizer que é uma grande bobagem.

O Megadeth conseguiu incorporar o Kiko e fazer ele brilhar na banda sem perder a essência do thrash. Além disso, o Kiko conseguiu colocar sua assinatura nas músicas sem firulas na guitarra a cada 10 segundos (na verdade é a cada 30, mas ta super aceitável).

Gostei muito da voz do Mustaine mais grave e rasgada. Os riffs-fodões-quebradeira do Megadeath de sempre continuam lá, a bateira tr00 está lá, o baixo coadjuvante está lá e os solos fritadeiras tanto do Mustaine como do Kiko estão lá.

A faixa The Emperor é a que melhor representa o resultado da nova formação do Megadeth.

Minhas músicas favoritas: Poisonous Shadows, The Emperor e Dystopia.

MC Carol - Bandida  (Alberto Brandão)

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MC Carol incomoda. Seu novo trabalho não é diferente. Agora com uma produção mais madura e com participações de nomes de peso como Leo Justi (Heavy Baile) e Tropkillaz, Carol traz letras contundentes, que principalmente para nós, homens, mostra uma abordagem do mundo que merece ser ouvida e respeitada.

Você pode não gostar de funk, não entender de Rap, mas ao ouvir "100% feminista" você abaixa a cabeça, engole o choro e recebe a mensagem.

Chance The Rapper - Coloring Book (Rafael Nardini)

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Chance The Rapper levou o caneco. E, sério, foi um ano e tanto para a música. Moon Shaped Pool (Radiohead), 22, A Million (Bon Iver),  Blonde (Frank Ocean), A Seat At The Table (Solange), Light Upon The Lake (Whitney), Singing Saw (Kevin Morby)... Dependendo do mês, era possível que meu dedo apontasse para um rumo diferente. 

Mas pensei firmemente alguns dias para ter certeza que nada foi mais fino que Coloring Book, a terceira mixtape, totalmente independente, do rapper de Chicago, um moleque prodígio de 23 anos. 

Chance criou um equilíbrio dos mais bonitos entre soul e rap. Daí vem How Great e seu sampler gospel de igreja presbiteriana. Same Drugs, Summer Friends... E o grande mérito de jogar tanta coisa boa para o topo das paradas num ano tão estranho. E, sim, tem hit. Angels, Blessings, Mixtape. E tem No Problem batendo lá no número 1 da Billboard. 

Quem diria... Chancelor Johnathan Bennett, o cara que só virou rapper após pegar gancho na escola por ser pego com maconha. O mesmo que agora organizou enormes passeatas até as urnas de votação para tentar evitar Donald Trump no Salão Oval. Mas era 2016, lembra? Tudo bem. 

Sem gravadora e sem vender a própria música (I don't make songs for free, I make 'em for freedom), Chance chegou lá. É talento demais para passar despercebido. Falam por si as seis indicações ao Grammy. Todas merecidas. E, quer saber, obrigatórias.

Chance The Rapper - Coloring Book (Jader Pires)

Um céu rosa e o sorriso de quem sabe que fez algo muito do caralho. Esse é o disco que fez meus falantes pularem o ano todo. Chance The Rapper chamou o Coro das Crianças de Chicago, cidade em que vive, e fez um rap gospel tão vivo, vivo demais. É vibrante e espiritual, mescla bem as orgias sonoras de "No Problem" e "Angels" com a crueza quase respeitosa de "Blessings" e "Summer Friends", Chance trouxe mais soul, jazz e funk pro rap,botou lá dentro uma rima quase falada, uma conversa cheia de fluidez, uma sensação positivista e agradecida mesmo com tanta coisa ainda para se resolver na sua Chicago, violenta e violentada.

Pudera essa grande beleza, fruto da aproximação de Rapper há tempos com artistas, coletivos e projetos experimentais, produtores, rappers e outros músicos, uma confluência de pessoas com experiência e diferentes visões da música negra americana. Disso resultou o Surf, álbum lançado em 2015 em parceria com o grupo Donnie Trumpet & The Social Experiment, que emplacou a vazão criativa de Chance pra esse Coloring Book, que teve participação de gente como Kanye West, Lil Wayne, Future, Justin Bieber, Young Thug e Ty Dolla $ign. 

Chance é um cara que conta Chicago, que conta Gospel. 

Graças a deus.

Céu - Tropix (André Felipe Medeiros)

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Em seu momento mais eletrônico até hoje, a artista entregou uma obra contemporânea e de muito bom gosto, colocando o futurismo vintage para dialogar com seu romantismo e a brisa que vem do litoral. O melhor trabalho de uma cantora que já respeitamos há muito tempo.

Síntese - Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol1: "AMEM" (Phellipe Araujo)

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O Síntese era uma dupla (Léo e Neto) que cantava RAP e fazia uns beats.

Conheci o trabalho deles em 2011, achei uma mensagem verdadeira, poesia de verdade, o nome do álbum: Vagando na Babilônia em busca de Canaã.

Beat torto, flow insano, ritmo e poesia vindo de dentro da alma.

Sei que os dois se separaram e o Neto seguiu com o Síntese.

Nos últimos anos, o Síntese, gravou com o Criolo, fez um trabalho lindo com o Projeto Nave e só veio aprimorando sua forma de fazer poesias, sua forma de fazer rap.

Agora em 2016 ele acabou de lançar  o álbum “Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol 1: “AMEM”. Eu estou achando um trabalho fantástico, escuto todos os dias. Quero acrescentar que o disco foi gravado pelo mestre Daniel Ganjaman. Pela evolução do Neto e porque sou muito fã, esse é o melhor álbum de 2016 na minha opinião.

AMEM!

Liniker e os Caramelows – Remonta (Ana Higa)

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É gostoso, envolvente, sensual, delicioso, divertido, bem produzido, letras maras e uma presença foda. Não sou uma grande entendedora de música, só sei sentir. 

Lemonade, Beyoncé (Danilo Gonçalves)

O disco do ano para mim está nas mãos da família Knowles. Lemonade, vídeo álbum de Beyoncé, me fisgou logo no começo do ano. É um álbum conceitual e que dá ao pop a possibilidade de também se engajar na causa das minorias, seja da mulher negra, da população negra em geral, dos gays, enfim.

Ao sair do Destiny Child, a cantora vem conseguindo se superar a cada álbum, dotada de seu talento, claro, mas principalmente do perfeccionismo que exige aos seus trabalhos desde que destronou seu pai e assumiu as rédeas de sua carreira. Deste disco, destaco o primeiro single lançado, "Formation", e "Sorry", que tem batida envolvente e é um puta sinal de que quem manda naquela casa é ela, Beyoncé. 

Sem grande compromisso com a cultura pop e com uma legião de fãs que esperam um bate cabelo a todo momento, a irmã, Solange, que percorre um caminho mais autoral em seus trabalhos, lançou seu primeiro álbum de inéditas em quase uma década, "A Seat At The Table. Sem amarras de uma diva, Solange consegue uma particularidade sonora e libertária em suas canções que a irmã ainda não tenha conquistado.

Se me perguntarem qual é o disco ano, então? Formation, da Beyoncé, mas este título pode ser compartilhado com a irmã Solange.

NxWorries - Yes Lawd! (Leonardo Soares)

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Mais uma pérola do selo Stones Throw, sempre garantia de coisa boa, o tão aguardado album Yes Lawd! é a estréia do NxWorries, projeto de parceria entre o produtor Knxwledge e o menino prodígio do rap Anderson Paak.
Carregado de uma pegada soul com o frescor dos beats psicodélicos do Knxwledge, Yes Lawd! já é um clássico instantâneo, consagrando o Paak como um dos rappers mais versáteis de 2016.

Academia da Berlinda - Nada sem ela (Carol Rocha)

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Os caras da Academia conseguem me trasportar pra Recife sempre que eu aperto o play. 

Esse é um daqueles discos que abraçam, passam pelo quarto escuro em forma de ondinhas que te envolvem e fazem você combinar o ritmo das músicas com o balanço do corpo; a brisa não poderia ser outra. 

Academia é uma banda de produção independente, são 12 anos de uma mesma formação e, se você parar pra escutar os outros álbuns (recomendo bastante), vai perceber que a conexão entre eles evoluiu de uma forma foda! Essa mesma conexão acaba sendo transmitida pra quem escuta as canções, e torna toda essa experiência musical muito gostosa. 

A ideia de "Nada sem ela" é falar do feminino, seja uma mulher, uma personagem qualquer, a natureza ou qualquer figura do tipo. Mas o Yuri (vocalista/baixista da banda) disse que isso fica em aberto: cada um pode completar o que vem depois do "Nada sem" da forma que quiser. 

O que me resta é te convidar pra ouvir esse disco e decidir quem é o "ela" na trilha sonora da sua vida.


publicado em 14 de Dezembro de 2016, 11:07
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Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Instagram.


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