Assistam na íntegra a live que fizemos no Facebook com o Dr. Tiago Pádua (Oncologista) e o Dr. Lucas Ventura (médico de família) falando sobre o tema: "Por que os homens vivem 7 anos a menos que as mulheres". Vamo lá!

Os modelos de homem possível que os quadrinhos refletiram ao longo da história

Os valores de diferentes momentos históricos que moldam nossa leitura de mundo, vistos aqui pela lente dos quadrinhos de super-heróis

  • Nossos atuais Mecenas:
  • 130x50 jpg
  • Asm selo png

Mais ou menos notório para os fãs de quadrinhos de super-heróis é a periodização desses quadrinhos em Eras. Elas indicam aquilo que é imitado e repetido em uma determinada época nessa mídia, o que permite agrupá-las sob características comuns.

Olhando mais de perto essas Eras, podemos ver que cada uma delas elege um tipo de herói como modelo a ser seguido, e, consequentemente, um tipo de homem ideal, uma vez que o público consumidor dessas histórias foi majoritariamente masculino até o início do século XXI.

Então aqui vai uma breve descrição de cada uma dessas Eras e o modelo de homem proposto por cada uma.

Era de Ouro (1938-1950)

A Era de Ouro tem início com a criação do Superman (Jerry Siegel/Joe Shuster), em 1938. Essa é a Era que viu o nascimento de heróis clássicos como Batman (Bob Kane/Bill Finger - 1939), Flash (Gardner Fox/Harry Lampert - 1940) e Mulher-Maravilha (Willian Moulton Marston/Harry G. Peter - 1941).

capa batman superman.jpg

A quebra da bolsa de Nova York (1929) e a reestruturação da economia dos Estados Unidos por meio do New Deal marcam o início dessa Era, uma vez que os grandes vilões serão aqueles que violam de alguma forma o pacto de reestruturação da nação, como políticos corruptos, assaltantes de bancos e ladrões. O herói, portanto, é aquele que zela pela ética do trabalho como meio de fortalecer os Estados Unidos.

Pouco depois, com a ameaça da 2ª Guerra Mundial esses heróis tornam-se patriotas, militarizados, sendo o herói aquele que vai à guerra e dá a vida pelo seu país se preciso for. O maior ícone sem dúvida é o Capitão América, criado em 1940 por Jack “King” Kirby e Joe Simon.

WWCA.jpg

Era de Prata (1956-1970)

Esta Era ficou marcada pelo Comics Code Authority (CCA), um código de autocensura que as editoras de quadrinhos voltadas para o grande público decidiu seguir. O selo do CCA estampado na capa dos quadrinhos servia como um indicativo de que não corromperia a juventude e de que lá não haveria nada de ofensivo à família tradicional dos Estados Unidos.

CCAFF.jpg

Nessa fase consagrou-se a noção de que “heróis não matam”. Uma nova geração de heróis e novas versões de personagens da Era de Ouro como o Flash Barry Allen (Robert Kanigher/Carmine Infantino) e o Lanterna Verde Hal Jordan (John Broome/Gil Kane) ficam marcados. São histórias mais leves se comparadas à Era de Ouro, com temáticas tiradas da ficção científica e num tom quase surreal, dado que o CCA ditava um certo maniqueísmo às histórias, com os super-heróis sempre ao lado do Bem, da moral e bons costumes.

Não é por acaso que o grande supergrupo criado no período é o Quarteto Fantástico, uma família de super-heróis, sendo a figura do Pai, Reed Richards, o Senhor Fantástico, o grande modelo do homem de família. Na televisão um exemplo deste american way of life era o seriado Father Knows Best (Papai Sabe Tudo aqui no Brasil) que foi ao ar entre 1954 e 1960 e marcou o imaginário masculino provedor e defensor da inocência suburbana de sua família nuclear.

Era de Bronze (1970-1985)

Em contraste com o anterior, esse foi o período em que se abordou temas mais polêmicos, controversos, como o uso de drogas, preconceitos sociais e raciais. Houve um “abrandamento” do CCA, reflexo da ebulição social nos Estados Unidos com a contracultura, o movimento hippie, a luta pelos direitos civis dos negros.

Não é à toa que o grande marco do período é a série em que o Arqueiro Verde e o Lanterna Verde enfrentam problemas políticos e sociais em suas aventuras, escrita por Denny O’Neil e desenhada por Neil Adams.

GX.jpg

Também nessa Era que os X-Men são relançados como um grupo multiétnico e os mutantes vistos com preconceito por serem uma minoria foram enfatizados nas mãos de Chris Claremont e John Byrne.

O assassinato do presidente Kennedy, a ameaça atômica, a Guerra do Vietnã e os conflitos raciais entre outras ebulições sociais, marcaram esse período e desenharam um modelo de homem politicamente engajado em alguma causa, consciente de um mundo cada vez mais complexo e multifacetado.

Era de Ferro (1986-1994)

Período que trouxe heróis anabolizados e brutais, onde o maior realismo da Era de Bronze foi reinterpretado com uma atitude quase cínica dos super-heróis frente ao mundo e a abundância de “anti-heróis”. Obras como Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons e O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller marcam o período.

O modelo aqui é o homem forte que se mostra imbatível frente às mazelas do mundo, que não demonstra fraqueza, ainda que as tenha. No cinema temos inúmeros exemplo desse modelo de homem, assombrado pelos traumas da guerra (Rambo - 1982), frio e sem escrúpulos (Wall Street - 1987), que carrega o destino do mundo nas costas com um sorriso no canto da boca (Duro de matar - 1988).

Miller-Batman.jpeg

Renascença (1994-hoje?)

A Renascença tem esse nome porque representa uma nostalgia sobre a Era de Prata e como uma negação à brutalidade da Era de Ferro.

As duas grandes obras do período são Marvels de Kurt Busiek, que narra acontecimentos clássicos da Marvel sob a ótica do mortal Phil Shedlon e O Reino do Amanhã, de Mark Waid, uma história que pode ser lida como uma metanarrativa a respeito do papel dos super-heróis no mundo, ambas desenhadas por Alex Ross.

MK.jpg

Na Renascença temos também uma releitura de todas as demais Eras, com narradores e olhares diversos, que ressignificam todos os papéis que os heróis já tiveram, buscando uma síntese.

Em resumo, no século XXI não pode mais existir um único modelo ideal de homem, mas somos livres para transitar por papéis de trabalhadores, patriotas, companheiros, pais, engajados política e socialmente e, com alguma sorte, incansáveis e vulneráveis ao mesmo tempo. Isso te diz algo?

***

Nota da Edição: Este texto faz parte da parceria editorial entre o PapodeHomem e Os Quadrinheiros que já vem rendendo frutos há mais de seis meses. Cada vez melhor.

E é com carinho que anunciamos hoje que este artigo é só um recorte do livro "Quadrinhos através da história. As eras dos super-heróis" que nossos parceiros estão lançando no próximo dia 17 de setembro, pela editora Criativo em parceria também com o Observatório de História em Quadrinho da ECA-USP.

Resultado de muita pesquisa de Adriano Marangoni, Bruno Andreotti e Maurício Zanolini,  a obra detalha a periodização dos quadrinhos por eras, traçando o paralelo entre a criação/desenvolvimento dos super-heróis e os contextos políticos, históricos, gráficos e técnicos dos séculos XX e XXI. Ótima fonte de informações para leitores entusiastas, mas também para estudiosos de quadrinhos que buscam entender a dimensão mitológica, arquetípica, ética e moral que as histórias de super-heróis nos trazem.

A todos os interessados, o livro já está em pré-venda por aqui. Nós recomendamos fortemente a leitura e agradecemos aOs Quadrinheiros pela parceria de sempre.


publicado em 15 de Setembro de 2017, 00:05
Bruno andreotti png

Bruno Andreotti

Aficionado por super-heróis em geral desde a série estrelada por Adam West e mais ainda pela mídia na qual nasceram, os quadrinhos. Escreve periodicamente sob pseudônimo de Nerdbully no blog Quadrinheiros, com canal e podcast.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Nossos atuais Mecenas: