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Os netos da revolução

Somos Pedros. Durante a maior parte do tempo, e sabemos disso. Acordamos no mesmo horário, tomamos o mesmo café, lemos outro jornal com as mesmas notícias, outro site com as mesmas piadas, pegamos o ônibus no mesmo ponto e, com as cabeças balançando, vamos ao trabalho todos os dias.

Encaramos as coisas de um modo muito técnico: trabalho é um saco, mas é assim que se ganha dinheiro; de sexta a domingo eu gasto esse dinheiro e vivo feliz. Assim é a vida. Sem sentido, tediosa, empolgante, chata e bêbada. De vez em quando pinta uma viagem, sexo casual com a secretária... mas adivinhe: amanhã você volta pro batente, companheiro.

Link YouTube | Raulzito nos definindo com décadas de antecedência

Enquanto observamos grandes ícones da história, vivemos nos perguntando como chegaram lá. Temos o desejo e a curiosidade de saber como é lutar por uma grande causa, como é ser um herói, daqueles com filme próprio e tudo. Mas faz tempo – e quanto tempo – que carecemos de ícones.

Por que, cara?

Com tantos candidatos, ninguém serve? Prefiro pensar que candidatos não faltam. O que faltam são as causas.

Revolução cubana. Ernesto Rafael Guevara de la Sernav. O nosso querido Che. Ou não tão querido assim. De qualquer modo, um líder. Por um lado, é considerado um ícone da rebeldia por lutar contra as injustiças sociais; por outro, é criticado por usar a luta armada para alcançar seus fins. Sendo um fã ou um detrator, você deve admitir que ele não era só mais um espírito no mundo da carne. Tinha objetivos e usou a luta em prol do que acreditava ser o melhor para a sociedade.

Meados dos anos 60. Um zeitgeist varre o mundo e uma geração inteira passa a desejar mais autonomia. Nos EUA, acontecia o Woodstock, um festival de música onde os músicos não eram a atração principal. Mesmo com Hendrix, Joplin e The Who se apresentando, a atenção foi voltada para o mar humano que havia comparecido. Aproximadamente meio milhão de pessoas fizeram o festival se tornar um dos maiores momentos da música popular.

Enquanto isso, no Brasil, surgiam grupos que explodiram depois da revolução musical feita por bandas como os Beatles. Nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil surgem com movimentos como a Tropicália. Outros, como Chico Buarque e Elis Regina, trazem ao público canções de protesto, vivendo assim uma interrogação, já que o governo era autoritário, e o exílio era uma realidade.

Alguns dos nossos avós estavam lá. Transando

Nelson, Che, Raul, Jimi. Todos revolucionários de alguma forma, lutando por mudanças. Simples: diagnosticar um problema e ir à luta contra ele. Mas qual o nosso problema?

O nosso problema é que não temos problema. Nossos avós acabaram com toda a diversão e ainda têm a ousadia de dizer que somos uma geração perdida. Mas claro que somos, ninguém nos deixou nada. Somos filhos daquelas mães que levam os filhos de 30 anos ao médico. Fizeram tudo por nós e agora estamos sem rumo. Qual a sua ideologia? Você é contra o quê? Contra as mensagens subliminares do comercial da Coca-Cola? Faça-me o favor.

Além disso, andam dizendo por aí que a Terceira Guerra Mundial dará o ar da graça via internet. Era o que faltava, uma guerra onde os soldados discutem pelo Facebook qual meme foi o mais compartilhado. Seria o último passo para o atestado de vergonha da geração Y... X... W? Nem sabem mais como nos chamar.

Não julgue-se um vagabundo qualquer por coçar o saco e beber cerveja nas horas livres. Não pense que está fazendo errado quando deita na cama e espera a vida passar. Não ache que é menos especial por não fazer absolutamente nada. Como diria o nosso amigo Tyler:

"Nós somos os filhos do meio da história, sem propósito ou lugar. Não tivemos Grande Guerra, não tivemos Grande Depressão. Nossa grande guerra é a guerra espiritual, nossa grande depressão é a nossa vida. Fomos criados pela televisão para acreditar que um dia seríamos ricos, estrelas de cinema. Mas não seremos. E estamos aos poucos aprendendo isso. E estamos muito, muito putos."

Foi mais ou menos isso. Quem não tem problemas, não precisa buscar soluções. Agora vá, vá e mostre sua revolta em forma de palavrões épicos contra os seus avós jogados no Twitter. Se você não vê sentido, a culpa é toda deles.


publicado em 17 de Março de 2012, 07:15
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Vitor Rodrigues

Acredita que o ser humano não está no mundo apenas para nascer, trabalhar e morrer. Pensa que as palavras, quando seguidas de atitudes, podem sim mudar o mundo. É radicalmente contra o excesso de cebola nas pizzas. No twitter, @vitinhoag.


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