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Os surtos de obsessão dos (não) flamenguistas

Particularmente, eu não sou muito ligado em futebol. Mas minha esposa fez um curso e começou a trabalhar com psicanálise voluntária desde que nosso filho mais velho saiu de casa. Algo que poderia ser bem pior como um clube do livro para discutir Nora Roberts durante a semana, onde todas suspirariam falando sobre o Mr. Darcy ou sobre como Nicholas Sparks tem mudado suas vidas e, consequentemente, eu sofreria retaliações pela minha incapacidade de ser um personagem fictício depois de 28 anos de casamento.

Como eu disse, não sou muito ligado em futebol.

Nas últimas semanas a minha esposa começou a notar uma coisa incomum acontecendo nas sessões. Diversas mulheres começaram reclamar de um comportamento incomum em seus maridos. Tudo começou com uma moça que tinha casado recentemente e que nos últimos meses, raramente, aparecia para uma consulta. Isso até três semanas atrás quando a moça apareceu de repente e disse que as coisas estavam diferentes em casa.

Depois de quatro anos de convivência e poucas surpresas, o marido da noite para o dia começou a mudar. Não queria mais sair em dias de jogo, via programas esportivos e até começara a comprar o lance. Ele que nunca gostara de futebol e apenas se animava em surtos esporádicos quando seu time via uma luz na Libertadores. Agora se inteirava de todos os fatos e estranhamento tinha um sorriso sádico, quando ligava para os amigos em dias que o Flamengo jogava.

Passado uma semana, minha esposa disse que isso não era mais um caso isolado. Várias mulheres tinham começado a reclamar dos mesmos sintomas nos maridos e que a reunião da semana seguinte seria para discutir o tema. Coletivamente, como um grupo de apoio a mulheres que têm relacionamentos com não flamenguistas obcecados. Eu ria e pouco ligava sobre o caso, mas no trabalho tinha começado a perceber que realmente algumas pessoas andavam diferentes. Até um estagiário tinha sido chamado atenção por discutir com o chefe sobre a escalação do Flamengo e a incompetência do time. Algo que quase gerara sua demissão, senão fosse o diretor-geral ter ouvido a conversa e apoiado o rapaz, prometendo-lhe uma efetivação no fim do ano. Mas, depois da reunião dessa semana toda essa obsessão sem sentido começou a me incomodar.

Ninguém para de falar do Flamengo

Minha esposa chegara em casa sem reclamar da louça que eu não lavei como de costume, mas perguntando minha opinião sobre a direção do Flamengo e sobre o elenco fraco do time. Eu rindo respondi que estava mesmo era ligado nas Olimpíadas. Ela me olhou com certo desprezo e foi dormir só de madrugada. No dia seguinte, logo no café ela discutia sobre o jejum de gols do Vagner Love ao telefone com a nora (elas se falam por telefone apenas em datas comemorativas ou para desmarcar os almoços de domingo). Quando abri o notebook foi outra surpresa, várias páginas de pesquisa sobre o flamengo e vários vídeos marcados no youtube com lances rubro-negros das últimas semanas.

A partir daí, a decadência do Flamengo passou a reinar na hora do jantar e não há santo que convença minha mulher que o Dorival pode mudar a situação. Ela começou a falar palavrões com mais frequência e tem passado horas no telefone discutindo com a esposa do síndico desde que ela brigou com porteiro que, com todo respeito, disse que ela deveria ter um time antes de falar mal de outro e que Brasil não conta como time nenhum desde 2002.

O pior foi que elas cancelaram a terapia coletiva dessa semana, mas nem por isso desmarcaram o encontro. Nesse próximo jogo do Flamengo, minha mulher chamou as amigas do grupo e elas vão assistir ao jogo aqui em casa. Tirou do armário até aquela maldita vuvuzela que a namorada do meu filho mais velho não o deixou levar para o conjugado que eles estão morando.

Tenho começado a sentir saudades do tempo em que eu era o único que assistia aos jogos aqui em casa e lutava contra as novelas e os seriados quando tinha um clássico. Cheguei até a ligar pra um amigo meu psicólogo, renomado professor da UFRJ. Ele, como flamenguista inveterado desde criancinha, disse para eu ficar tranquilo que há estudo sendo feito, mas para eu tomar cuidado que qualquer não flamenguista está sujeito a essa epidemia. E que logo tudo isso tudo vai passar.

Pode até ser, mas sinceramente com esse time que eles estão, eu acho bem difícil.

Estou com medo do segundo turno.


publicado em 09 de Agosto de 2012, 07:05
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Carlos Belágua

Carlos Belágua é funcionário público, escritor e um pseudônimo. Tem 52 anos e diz que está para se aposentar em breve desde os 21


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